Endereço electrónico

@ de razão

      Na sua crónica de hoje, Nuno Pacheco ocupa-se de uma questão que já aqui foi tratada: a publicação, pelo Ministério da Educação e Cultura do Brasil, de uma obra, Por uma Vida Melhor, em que se defende o indefensável. Escreve, a determinado passo, Nuno Pacheco: «No endereço electrónico do ministério, a polémica favorece o livro. A professora que o escreveu é bem-intencionada, os que criticam o livro não o leram bem, etc.» («O caçador caçado», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 20.06.2011, p. 3).
      É uma confusão já nossa conhecida: quer escrever-se «sítio» e sai «endereço electrónico». Ou terá sido porque, querendo evitar — o que é mais que louvável — o anglicismo site, pensou em «página electrónica»? Há-de ser lapso, mas, para o caso de subsistir alguma dúvida, deixo a definição da Infopédia: «Endereço utilizado para envio de mensagens pela Internet. É constituído pelo nome do utilizador, o símbolo @ (“arroba”), seguido do nome do fornecedor de serviços de acesso à Internet e o símbolo . (“ponto”) com a zona. Exemplo: utilizador@fornecedor.pt».
[Texto 188]

Tipos de frase

Interrogativa ou imperativa? Ou?...

      «Depois chega o momento alto da obra [Felizmente Há Luar!], quando Matilde, uma das personagens principais, veste a sua saia verde para assistir à execução do seu amado, o general Gomes Freire. “Digam lá o que simboliza a saia de Matilde?”» («Apostas em Sttau Monteiro, Pessoa e José Saramago», Romana Borja-Santos, Público, 20.06.2011, p. 9).
      A professora está a fazer uma pergunta ou um pedido? (Alguns dirão que é antes uma ordem.) É adequado, no contexto, o uso do ponto de interrogação? Fica resolvido se usarmos outra pontuação, dando-a como interrogativa parcial? Assim: «Digam lá: o que simboliza a saia de Matilde?» Digam o que acham, não se acanhem.

[Texto 187]

Superlativo hebraico

É só repetir

      «Há 21 anos nesta escola [Escola Básica e Secundária de Carcavelos], para Leonor Brazão o único segredo para os exames nacionais é trabalhar, trabalhar, trabalhar» («Apostas em Sttau Monteiro, Pessoa e José Saramago», Romana Borja-Santos, Público, 20.06.2011, p. 9).
      Em literatura, diz-se logo que se trata de repetição com valor expressivo. Quem já leu composições de alunos do 2.º ciclo, de crianças de 11 ou 12 anos, sabe que a repetição de uma palavra é, pela sua simplicidade, um dos recursos que mais usam. «E depois o príncipe foi andando, andando, andando...» Nunca mais parou. Isto fez-me lembrar outro recurso, também fundado na repetição. Ainda se ensina na escola o superlativo hebraico? Decerto que não. Nem a maioria dos professores mais novos saberá do que se trata. Rei dos reis, vaidade das vaidades, cânticos dos cânticos... Estão a ver agora? É uma construção enfática que consiste na intensificação do substantivo pela sua repetição no plural como adjunto adnominal. Veio do hebraico, pela Bíblia, directamente para o português, para o castelhano, para o francês, para o italiano, para o inglês. Em alemão, muito antes de qualquer vaga de anti-semitismo, o Cântico dos Cânticos passou, no século XVI, de Lied der Lieder para Hoheslied ou das Hohelied. «A vista repousava, bêbeda de luz, na confiança das confianças», escreveu Aquilino Ribeiro.

[Texto 186]

Ortografia: «hidático»

Um caso clínico

      Então aqui o nosso autor escreveu que não sei quem tem «um quisto hidáctico». O Acordo Ortográfico de 1990 vai fazendo estragos insuspeitáveis há meia dúzia de anos. «Hidático», caro senhor, «hidático», nunca teve c — nem mudo nem falante. Ter-nos-á vindo do francês hydatique. Está, assinala o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por «hidatídico». Este quisto é causado por uma ténia, a hidátide. Se quiserem ficar maldispostos, pesquisem «hydatic» nas imagens do Google. Não, não precisam de acrescentar «cyst». Uma doença terrível, parece.

[Texto 185]

«Tirar prazos»

Justiça medieval

      Nos tribunais brasileiros também se tiram prazos, sabiam? Ah, não sabem o que é tirar prazos... Estes métodos de trabalho irracionais, ineficazes, deixámo-los nós lá. Em alguns tribunais, cá e lá, de vez em quando, os funcionários judiciais retiram todos os processos pendentes — que estavam a aguardar o decurso de certo prazo, por exemplo, ou a acumular actos praticados pelos diferentes intervenientes — das estantes e armários para analisar o que é necessário fazer neles. E lá vão os processos em massa da sec­ção para o gabinete do juiz, onde ficam a aguardar despacho. É a esta actividade, que não se extinguiu com o advento da informática, que se dá o nome de tirar prazos.
[Texto 184]

Léxico: «gestionário»

Da gestão

      «Mais recentemente, salientam‑se as re­formas gestionárias e de informatização, propondo‑se, etc.» Nunca antes tinha lido tal palavra. Não está registada em nenhum dos dicionários que consultei. Só no Dicionário Houaiss, no verbete relativo ao elemento de composição «gest-», é que é referida. Parece ser um termo da gíria da economia, do economês, apropriada pela gíria jurídica. Não está mal formada e, como não tínhamos adjectivo relativo a «gestão», não é de rejeitar liminarmente. Ainda assim, não recomendo nem condeno: use-se quando for estritamente necessário.
[Texto 183]

Género: «criança»

O Público errou


      «Crianças que sonham ser campeões», escrevem os detractores-mores do Acordo Ortográfico. Mas todos os dicionários da língua portuguesa — e se isto mudou, avisem-me, que eu peço outra nacionalidade — registam que o vocábulo «criança» é do género feminino. Não sucede o mesmo com «cônjuge», pois parece que já há para aí dicionários, e eu nem quero saber quais, que admitem ambos os géneros. Ainda pensei na possibilidade de estarmos perante um tipo especial de concordância, mas não. É erro, e erro crassíssimo. Emende-se: «Crianças que sonham ser campeãs». Vamos ver se amanhã aparece na secção «O Público errou».
[Texto 182]

Pronúncia: «euro»

Mais um

      Está agora a ser emitido, na Antena 1, o programa Visão Global, que tem como comentador permanente o ex-embaixador José Cutileiro. A moeda da União Europeia foi já referida mais de uma vez. Ora, José Cutileiro pronuncia a vogal da sílaba átona de «euro» como u. Eu tinha escrito, há uns tempos, que a jornalista Isabel Gaspar Dias, da Antena 1, devia ser dos poucos portugueses que pronunciam a palavra «euro» com o a soar, dada a posição de átona final, como u (à semelhança de qualquer palavra grave, como «cinco», «lado»...).

[Texto 181]

Arquivo do blogue