Nomenclatura científica

Nunca mais


      «A clostridium difficile é uma bactéria que provoca uma diarreia grave e exige tratamento com antibiótico» (Como os Médicos Chegam ao Diagnóstico, Dr.ª Lisa Sanders. Tradução de Maria João Camacho. Revisão técnica da Dr.ª Leonor Prata e revisão linguística de Catarina Sacramento. Alfragide: Caderno, 2010, p. 194).
      Nos jornais ainda compreendo (a pressa, a falta de revisores, etc.). Nos livros, e, neste caso, com dupla revisão, é imperdoável. É uma profissão cheia de amadores e curiosos, isso sim. E não acredito que esteja assim mal grafado no original.

[Post 3117]

«Coroner», de novo

Vale a pena ver de novo


      Acabei de ler numa obra publicada no passado mês de Janeiro: «O médico legista e o coroner são dois braços da investigação que são designados para analisar mortes inesperadas. A diferença mais importante entre os dois sistemas é que os médicos legistas são sempre médicos, quase sempre patologistas, e nomeados pelo estado; o coroner é um funcionário eleito e raramente é médico de profissão» (Como os Médicos Chegam ao Diagnóstico, Dr.ª Lisa Sanders. Tradução de Maria João Camacho. Revisão técnica da Dr.ª Leonor Prata e revisão linguística de Catarina Sacramento. Alfragide: Caderno, 2010, p. 346).
      Já abordei aqui mais de uma vez esta questão da função do coroner. Uma nota de rodapé na página citada explica que médico legista (e deveria estar grafado médico-legista) é a tradução de medical examiner.

[Post 3116]

Sistema jurídico inglês

Diferenças e semelhanças


      «Os advogados dividem-se em várias categorias: os Junior Barriest, que apenas trabalham nos tribunais, porque o trabalho de escritório é feito pelos Solicitors, que também são advogados. Ao fim de 15 anos de experiência são considerados Barriest. Mediante o seu trabalho nos tribunais e o comportamento que têm na vida “privada”, podem ser considerados Queen’s Counsel» (Inocente, Not Guilty, Patrícia Lucas e Nicolas Bento. Revisão de Manuel Henrique Figueira. Alfragide: Academia do Livro, 2010).
      A escrita não é recomendável, e a culpa não há-de ser, palpita-me, do co-autor Nicolas Bento, mas da jornalista Patrícia Lucas. Vejam as semelhanças do trecho citado com um parágrafo deste post. E aqui, uma reportagem da RTP sobre o caso.

[Post 3115]

Léxico: «parodontose»

Coitado!...


      «“É muito provável que Hitler padecesse de uma forte halitose”, disse a especialista [Menevse Deprem-Hennen na sua tese de doutoramento], acrescentando que o ditador nazi se alimentava “muito mal” e sofria de “paradontose” [sic]» («Adolf Hitler tinha mau hálito», Global Notícias, 8.2.2010, p. 8).
      Os dicionários gerais, como o Houaiss e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não registam o vocábulo parodontose. É a inflamação crónica dos tecidos moles em redor dos dentes. Já halitose é muito mais comum, e ambos os dicionários o registam. O especialista pessoal em odontologia ao serviço de Hitler, o general da SS Hugo Johannes Blaschke (1881–1959), não conseguiu resolver estes problemas do ditador. A minha leitora Sara Carolina Fidelis há-de gostar de saber isto.

[Post 3114]

«Deão»

Livresco


      «Os membros dos níveis superiores da hierarquia universitária, como o reitor, o deão e os chefes de departamento, tinham o mesmo tipo de automóvel que Zuhair, com as mesmas matrículas reveladoras» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, p. 138).
      Talvez, afinal, deão seja vocábulo usado apenas nas traduções. Contudo, antes deão que dean.

[Post 3113]

Retirar/retirar-se

E vieram os Russos


      O leitor F. A. pergunta: «Verifico que, em notícias de jornais e livros de história, se usa sistematicamente o verbo RETIRAR como verbo intransitivo ou de significação completa: “No dia 22 de Agosto [de 1943] as tropas alemãs retiraram de Kharkov.” É isto correcto?»
      É correcto, sim. Os dicionários de verbos são unânimes: o verbo retirar na acepção de marchar ou bater em retirada, recuar, retroceder, é intransitivo e pronominal. Assim, podemos escrever: «No dia 22 de Agosto, as tropas alemãs retiraram de Kharkov» ou «No dia 22 de Agosto, as tropas alemãs retiraram-se de Kharkov».

[Post 3112]

Mitridatismo/mitridatização

E depois?


      «Um país que foi sujeito a um processo de mitridatização acaba por engolir todos os venenos sem ter efeitos. É como estamos hoje: por venenoso que seja o que sabemos sobre o comportamento da Casa de Sócrates, já não reagimos como devíamos, tão contínuas foram as doses de veneno que tivemos que tomar, que achamos tudo normal», escreveu Pacheco Pereira no Abrupto. Logo vieram pseudoclassicistas clamar, em mau português, que o neologismo vinha obrigar uma esmagadora maioria a pesquisar o termo. Será mesmo assim? Para quem já conhecia o vocábulo mitridatismo («processo de imunização contra os efeitos de um ou vários venenos que consiste em ministrar ao paciente doses gradualmente crescentes deste(s) mesmo(s) veneno(s)», define o Dicionário Houaiss), é claro que não.
      Quanto a ser um neologismo. Bem, a língua regista o verbo mitridatizar há muito. E mitridatização em vez de mitridatismo compreende-se, pois, como também regista o Dicionário Houaiss em relação ao elemento pospositivo de composição -ação, formador de substantivos verbais de acção, «em princípio, qualquer verbo português da 1.ª conjugação tem um substantivo nessas condições, mesmo que para uso ad hoc por parte do decisor, mas quase sistematicamente aceito pelo ouvinte ou legente».

[Post 3111]

Direitos Humanos/direitos humanos/direitos Humanos

Boa questão


      «Apesar de os crimes de honra serem comuns na Turquia, este caso chocou o país. O governo e associações de Direitos Humanos têm feito esforços para pôr fim a este tipo de crimes, mas eles continuam a ocorrer com frequência, sobretudo no Sueste do país, onde predomina a comunidade curda» («Enterrada viva por ter amigos rapazes», Sabrina Hassanali, Correio da Manhã, 6.2.2010, p. 35).
      O Código de Redacção Interinstitucional, porventura o único documento com (limitado) poder normativo a abordar a questão, manda grafar «direitos do Homem ou direitos Humanos (maiúscula quando usado no sentido geral». Aqui, todos devemos ter culpa, pois deixamos que ora se escreva Direitos Humanos ora direitos humanos. Percebo a lógica, mas não me lembro de alguma vez ter lido como o Código de Redacção Interinstitucional estabelece.

[Post 3110]

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