«Rails»?

Barra de protecção na ladeira do Trainel * © http://www.padrejulio.net/

Barras de protecção


«Três trabalhadores morreram e um ficou ligeiramente ferido, ontem de manhã, após terem sido colhidos por um automóvel, quando procediam à instalação de rails de protecção na A41, junto ao nó de Alfena» («Três trabalhadores mortos num acidente em nó da A41», Global/Jornal de Notícias, 2.4.2008, p. 11). E porque não «barras de protecção»? Só tem mais uma letra e é português.


* Trainel é o termo técnico para troço de estrada com inclinação longitudinal constante. De regionalismo beirão, o termo passou a ser usado de forma mais alargada. Assim, o Diário da República, a propósito das características técnicas das estradas regionais principais e das estradas regionais complementares, regista: «a) Em perfil longitudinal, as inclinações dos trainéis não deverão exceder, em regra, 9%» (art. 12.º do Decreto Legislativo Regional n.º 15/2005/M, Classificação das estradas da rede viária regional).

De novo o hífen nas águias

Escolham o melhor

Lembra-se da questão do uso do hífen nas palavras compostas, aqui recentemente tratado? Leiam esta notícia em dois jornais diferentes:

«O risco de extinção da águia-imperial levou a organização internacional de conservação da Natureza World Wide Fund for Nature (WWF) e o Sport Lisboa e Benfica a criar o Dia da Águia, que vai ser celebrado no próximo jogo entre Benfica e Académica, a 11 de Abril. Segundo a WWF esta é uma “acção de alerta” para o perigo de extinção da águia-imperial em Portugal» («Dia da Águia contra a extinção», Metro, 3.4.2008, p. 4).

«O risco de extinção da Águia Imperial levou a organização internacional de conservação da natureza WWF e o Sport Lisboa e Benfica a criar o Dia da Águia, que vai ser celebrado no Benfica-Académica. A WWF diz tratar-se de “acção de alerta” para o perigo de extinção da Águia Imperial em Portugal» («Perigo de extinção mobiliza ‘Águias’», Global, 3.4.2008, p. 6).

E então? O leitor apressado ficar-se-ia pelo óbvio e anunciado pelos outros: que o Global afirma que é «o diário de maior tiragem em Portugal», enquanto o Metro reclama ser «líder absoluto com 774 mil leitores diários». Isso não interessa para aqui.
Muito havia a dizer. Desde logo, que perigo e risco, apesar de serem conceitos estreitamente relacionados, têm significados diferentes. Perigo é uma situação que ameaça a existência de uma pessoa ou coisa, ao passo que o risco é a possibilidade realização de um perigo.
Para estar perfeito, ao texto do Metro só faltava uma vírgula. A opção pelo hífen parece-me, pese embora aquilo que afirmei no texto para que remeti mais acima, acertada. Aliás, em termos jornalísticos, é muito mais correcta do que a do outro jornal. Quanto ao texto do Global, grafar «Águia Imperial» é imperdoável.

Ortografia: «anafiláctico»

Choque, disse ele

O Depuralina chegou também ao Assim Mesmo. «Em declarações ao DN, Francisco George explicou que se registaram dois casos de choque anafilático (reacção alérgica grave) e um de hepatoxicidade, que pode levar a que o fígado deixe de funcionar» («Distribuidor de dietético ameaça com processo», Carla Aguiar, Global/Diário de Notícias, 2.4.2008, p. 6). Analogia, é o que faz falta: de anafilaxia só podia derivar anafiláctico, à semelhança — porque foram forjadas a partir destas — de profilaxia e profiláctico. Como paralaxe e paraláctico. Perceberam agora?

Léxico: «downshifter»

As nossas revistas

Ainda não me tinha dado bem conta da sua existência. Mas eis que chega ao número 26 e me chega às mãos. Para um revisor, lê-la pode ser fatal. Mas como não tem revisor residente — e nisto não difere de jornais de «referência» —, só um descuidado ou suicida o fará. Com pinças e sem corrigir o que precisava de o ser, extraio o seguinte, que pode interessar. «É deste desconforto que surge uma nova tribo urbana: os downshifters. Quem são eles? Mulheres e homens entre os 30 e os 50 anos, para quem o tempo é muito mais importante do que o dinheiro. Trabalhar menos para ganhar menos e viver melhor é o princípio desta corrente que se apodera de milhões de pessoas nos EUA, norte da Europa e Austrália» («Downshifters, uma nova forma de vida», Ana Catarina Pereira, Happy Woman, Abril de 2008, p. 86).

Actualização em 16.4.2008


«Chamam-se “downshifters” e estão a crescer um pouco por todo o mundo. O termo foi apropriado da palavra “downshift”, que significa passar para uma mudança abaixo no carro ou na mota, ou seja, abrandar, desacelerar» («Abrandar o ritmo», Patrícia Lamúrias, Metro, 15.4.2008, p. 9)

Tradução: «bacon»

Isto é bacon, senhora tradutora


Língua curta

Ao pequeno-almoço, Gerard, o mordomo dos Carsons, pergunta ao patrão, o velho Godfrey Carson, se o toucinho estava bom. Bem, na realidade perguntou-lhe se o bacon estava bom. Florinda Lopes, a tradutora da série O Império de Carson (que passa na RTP Memória e que vale a pena ver, tal como As Memórias de Sherlock Holmes, com o excepcional Jeremy Brett), contudo, quis que fosse algo bem português — mas diferente. Ninguém ignora que bacon não é toucinho. É, a querer-se que seja outra coisa, toucinho fumado.

Informação


Curso de Técnicas de Revisão

Na segunda quinzena de Abril, e durante seis dias, ao final da tarde, vou estar na Booktailors, ao Chiado, como docente de Técnicas de Revisão (formação inicial). Se quiser aparecer (há lanchinho no intervalo), inscreva-se. Mais informações aqui.

Traduzir do espanhol

Ilusões

      «Doña Letizia terminou o seu discurso recordando que o príncipe Filipe também aprecia e valoriza a tarefa das mulheres empreendedoras e manifestou, por último, a sua admiração, respeito e apoio pelo esforço e ilusão que estas empresas têm pela frente em cada dia no sentido e contribuírem para o bem-estar económico e social de todos» («Letícia fala catalão em acto oficial», Diário de Notícias, 28.3.2008, p. 55).
      Dá muito jeito poder ir variando ao longo do texto, designando-a ora por «princesa das Astúrias», ora «princesa das Astúrias e Girona», ora «Letícia». Já não me parece bem é variar o próprio nome: Letizia. Pior: doña Letizia. A frase, de qualquer maneira, não é um primor. Aquela «ilusão», por exemplo. Não pretende ser a tradução da «ilusión» espanhola? Então, é uma ilusão pensar-se que está bem traduzido.
      Duas semanas antes desta notícia, tinha lido no Diário de Notícias o seguinte: «Ainda num tom ibérico vemos Sócrates a saudar telefonicamente — e em portonhol — a vitória do seu amigo José Luis Zapatero para um segundo mandato à frente de Espanha» («Sócrates, um homem banal preocupado com a maioria», Eva Cabral, Diário de Notícias, 14.3.2008, p. 20). Mas claro que se escreve «portunhol» — a língua, ou mescla de línguas, que o linguista norte-americano Steven Fischer prevê que se fale no Brasil dentro de 300 anos — e não precisa de ser grafado em itálico.

Iliteracia


Mancha da indignação

No Aspirina B, de onde a tirei, a imagem (que já tinha visto na televisão) tem a seguinte legenda: «Na foto, professor mostra conhecer bem a História de França». Talvez. Mas também mostra, e mais inequivocamente, que não sabe escrever. Como hão-de, pois, os alunos escrever correctamente se os próprios professores o não sabem fazer? Não será que isto também merecia ir parar ao You Tube?
Até o professor mais mal preparado devia saber que não se acentua o ditongo tónico iu precedido de vogal que ocorre na 3.ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo de certos verbos: atraiu, caiu, contribuiu, distraiu, distribuiu, influiu, instruiu, redarguiu, ruiu, saiu, etc.
A regra mais geral, na formulação do Acordo Ortográfico de 1945, que rege a actual ortografia, consigna: «Dispensa-se o acento agudo nas vogais tónicas i e u de palavras paroxítonas, quando elas são precedidas de ditongo; nos ditongos tónicos iu e ui, quando precedidos de vogal; e na vogal tónica u, quando, numa palavra paroxítona, está precedida de i e seguida de s e outra consoante. Exemplos dos três casos: baiuca, bocaiuva, cauila, tauismo; atraiu, influiu, pauis; semiusto.
Quando as vogais tónicas i e u estão precedidas de ditongo, mas pertencem a palavras oxítonas e são finais ou seguidas de s, levam acento agudo: Piauí, teiú, tuiuiú; teiús, tuiuiús» (Base XVI).»

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