Confusões: «à vontade» e «à-vontade»

Pese embora a nódoa


      «“Este é um clube de leitura dedicado ao teatro, mas igual a todos os outros. Não é uma aula”, sublinha Isabel Milhanas Machado. “O objectivo é fazer com que qualquer pessoa se sinta à-vontade, sem medo de falar, fazer perguntas, propor uma interpretação ou partilhar a sua experiência. Mas, se quiser, também pode car só a ouvir”» («Um pouco por todo o país, há leitores de teatro à procura de uma peça atrás da outra», Luís Ricardo Duarte, Público, 27.03.2026, p. 30). 

      O jornalista aqui borrou um pouco a pintura (Luís Ricardo Duarte, aprenda urgentemente a distinguir e a usar «à vontade» e «à-vontade»), mas o artigo é interessante, fala de clubes de leitura em Lisboa e no Porto. O resto é paisagem. Em Lisboa, é o Clube de Leitura do Teatro Variedades; no Porto, as Leituras no Mosteiro são uma iniciativa do Centro de Documentação do Teatro Nacional São João. São ambos clubes de leitura de peças de teatro, e os textos são lidos na íntegra.

[Texto 22 700]

Becas e togas

Mais uma vez

      «Se os deputados não sabem falar claro, frequentem os cafés. O cidadão comum que se chega ao balcão já sabe o “espírito” daquilo que quer. Então, pede uma bica cheia ou curta, um abatanado, garoto ou carioca. E o cidadão do outro lado entende-o. Aprendam, deputados. Quem passa a vida a discursar com pompa, não pode estar sempre a precisar de tipos de toga a traduzi-lo» («Os dinossauros podem emigrar», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 6.09.2013, p. 56).
      Os «tipos de toga» são, para Ferreira Fernandes, os juízes do Palácio Ratton. É confusão já antiga, arreigada, de Ferreira Fernandes. Faz três anos na próxima quinta-feira que lho disse no Assim Mesmo, mas ou não leu, ou não concorda, ou esqueceu-se. Mais uma vez: os juízes do Tribunal Constitucional usam beca. E não é apenas o nome que difere — as próprias peças de vestuário são diferentes.

[Texto 3275]

Sob e sobre/pregador

A confusão continua

      No noticiário da meia-noite de ontem, na TSF, o locutor afirmou que os militares da GNR recusam estar sobre o comando dos militares australianos. Sem hesitar nem corrigir, disse-o claramente. Não tem conta, já aqui o escrevi, o número de vezes que já li e corrigi «sobre a égide», «sobre escolta» e «sobre os auspícios» para «sob a égide», «sob escolta» e «sob os auspícios». O Público (edição de 31.12.2005) inventou mesmo uma «ponte pedonal sob o rio Clark Fork»! Questões comezinhas da língua, pois claro, mas em que os profissionais escorregam como se fossem meninos do 1.º Ciclo.
      No mesmo bloco informativo, outro jornalista pronunciou a palavra «pregador», no sentido de orador, daquele que anuncia, proclama, propala qualquer doutrina ou ideia, com um «e» mudo, como o da palavra «de», por exemplo. Ora, a palavra «pregador», nesta acepção, deve ser pronunciada com um «e» aberto. Também existe, é verdade, a palavra «pregador» com a pronúncia do «e» fechado, como o jornalista fez, mas que significa «aquilo que abotoa». Há quem, em vez de alfinete de peito, colchete ou broche, prefira usar a palavra «pregador».

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