Verbo «colocar»

Duas na ferradura

      «A expressão tem uma explicação bastante simples e prende-se com o trabalho de ferragem dos cavalos, sendo que aos pregos com que se ferram os cavalos, ou seja, com que se coloca a ferradura no cavalo, se chamam cravos e que, ao ferrar o cavalo, os ferradores martelavam o cravo, ou seja, o prego, e a ferradura num movimento alternado, que terá dado de forma irónica origem à expressão dar uma no cravo, outra na ferradura» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 4.04.2011).
      Sabe que está sob escrutínio, mas escreve assim: «sendo que aos pregos […] se chamam cravos». E lá está uma das maleitas da actualidade: o verbo «pôr» escorraçado. «Colocar ferraduras»! Não era mister tal autoridade («Infalíveis neste baixo mundo, só o Papa e a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, mas aquele é mais contestado», comentou aqui certa vez Montexto), mas aqui vai: «Ferrador, s. m. Indivíduo que tem o ofício de pôr ferraduras nos animais […].» O ferrador (ou, em linguagem fina, o siderotécnico) não aplica, nem mete, nem coloca, nem implementa ferraduras — põe-nas!

[Post 4653]


«Pôr em dúvida»

A olhos vistos

      «A reavaliação do caso poderá trazer de novo para a ribalta um dos aspectos menos claros dos anos de poder do ex-chefe do governo Tony Blair, acusado por Kelly de ter inventado provas para justificar a invasão do Iraque. O cientista, recorde-se, foi a fonte de um jornalista da BBC, que colocou em dúvida os argumentos de Blair para justificar a guerra no Iraque. Dois dias depois, Kelly apareceu morto e o jornalista foi despedido» («Tony Blair sob suspeita», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 30.12.2010, p. 32).
      «Colocou em dúvida»! E os revisores deixam que estas barbaridades cheguem aos leitores, que pagam e só reclamam por insignificâncias.
[Post 4260]

Verbo «colocar»

A maldição


      «Tony Carreira», lê-se no Diário de Notícias de hoje, «voltou à escola onde fez o ensino primário em Armadouro, uma aldeia do concelho da Pampilhosa da Serra, para “um desfiar de recordações” durante a conversa com Manuel Luís Goucha, no programa De Homem para Homem, que hoje vai para o ar às 21.00, no TVI 24» («Tony Carreira partilha recordações com Goucha», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 31.10.2010, p. 67). «O cantor recorda», escreve a jornalista, «“a sua professora que o colocava frequentemente de castigo por causa das traquinices que fazia, que o mandava muitas vezes ao quadro e que foi a primeira pessoa da aldeia a ter uma televisão e, por isso, convidou a turma inteira para ir a sua casa assistir às celebrações do 13 de Maio”, revela Manuel Luís Goucha.» O mais certo, se teve sorte, foi a professora pô-lo de castigo; passado todo este tempo, a realidade surge desfocada, e onde havia pores agora há colocares.

[Post 4029]

Verbos trocados

Colocar, meter, pôr...


      Ainda hoje o leitor Fernando Ferreira deixava o seguinte comentário a um texto meu sobre a espúria substituição do verbo pôr pelo verbo meter: «Sobre o uso indevido do verbo “meter”, aqui vai mais um exemplo, publicado hoje (7/6/2010) na edição on-line do jornal Expresso: “A tentativa serviu para gerar um movimento a favor do casamento de pessoas do mesmo sexo: “Graças a Deus, correu bem, porque metemos toda a gente a mexer”, conta, orgulhosa.”» Um exemplo, este ilustrativo da troca do verbo pôr pelo verbo colocar, do Diário de Notícias: «Para combater a obesidade infantil e mudar mentalidades, o Hospital de São João e a Faculdade de Desporto do Porto (FADEUP) têm em vigor, desde 1998, um projecto que procura colocar pais e crianças a praticar exercício físico» («São João e Faculdade de Desporto “colocam as crianças a mexer”», Helder Robalo, Diário de Notícias, 31.5.2010, p. 14). O jornalista cita no título, mas não no segmento atrás, alguém, que identifica. Devia, porém, ter corrigido, expungindo o modismo.

[Post 3560]

O defunto verbo «pôr»

Jornalistas gozam connosco


      «Um vídeo colocado ontem no YouTube, em que alegadamente se relata uma situação ocorrida numa escola do Porto, mostra duas jovens a gozarem com uma professora enquanto aquela as coloca na rua» («Estudantes gozam com professora», Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 6.4.2010, p. 52).
      O ridículo não acaba. Até já imagino a jornalista, furiosa, numa discussão: «Coloque-se já no olho da rua, seu desavergonhado! Não possui um pingo de vergonha!»

[Post 3328]

Verbo «colocar»

De quem não ama a língua


      «Portugal espera convencer os países participantes na 15.ª Conferência sobre o Comércio Internacional de Espécies (CITES), que começa hoje no Qatar, de que pesca artesanalmente o atum rabilho e que, por isso, não coloca a espécie em risco. De acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade [ICNB], a CITES é “um acordo internacional ao qual os países aderem voluntariamente”» («País garante sobrevivência do atum rabilho», Correio da Manhã, 13.3.2010, p. 19).
      Por onde começamos? Pelo título. Tendencialmente, a imprensa vai adoptando o hífen para ligar os nomes compostos que designam espécies botânicas e zoológicas, alteração que já aqui saudei. Sobre este mesmo assunto, o Diário de Notícias, por exemplo, grafa atum-rabilho (e até diz que também é conhecido por atum-vermelho). Também no sítio do Oceanário surge com hífen. Mas não era disto, juro, que queria falar, antes denunciar, mais uma vez, o uso do verbo colocar. Jornalistas e revisores estão apostados em descaracterizar a língua.

[Post 3236]

Como se escreve nos jornais

Tomem sentido


      Enquanto os apicultores fazem a língua, os jornalistas desfazem-na: «O Marítimo teve o jogo nas mãos, mas a equipa de Domingos Paciência somou mais três pontos e voltou a colocar o Benfica em sentido» («Vitória do Sporting de Braga com um golo que vai dar que falar», Luís Octávio Costa, Público, 15.2.2010, p. 24).

[Post 3141]

Verbo «meter». Confusões (II)

Mete pena

      Já aqui abordei mais de uma vez as confusões em relação aos verbos pôr e colocar e, menos frequente, entre estes e o verbo meter. Veja-se este exemplo: «Sai do mato dentro de uma carrinha vermelha de caixa aberta. Apanha o cabelo, mete os óculos escuros, compõe o sutiã e vira-se de novo para a estrada» («Romenas disputam estrada», Sónia Trigueirão, Correio da Manhã, 14.06.2009, p. 7). Ó senhora jornalista (e senhora, não é?, revisora), então meter não é «inserir, pôr dentro, fazer entrar, introduzir»? Podia ter metido os óculos num estojo, isso sim.

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