Como se escreve nos jornais

Ora esta

      «No total, foram exibidas mais de cem fotografias durante a audição do detetive Ricardo Yanes, um dos elementos da Polícia de Nova Iorque responsáveis pelo processamento do local do crime. O corpo estava posicionado no canto do quarto, junto à janela, completamente nu, de barriga virada para cima. O seu rosto estava inchado, todo negro e vermelho, com uma enorme ferida na parte superior da cabeça, que deixava ver o branco do crânio, e duas chagas no lugar dos olhos» («Fotos exibidas em tribunal mostram horror na morte de Carlos Castro», Alexandre Soares, Diário de Notícias, 13.10.2012, p. 22).
      Já todos tínhamos ouvido falar em «processamento de salsichas», por exemplo, nunca do local de um crime.
[Texto 2199]
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Infinitivo pessoal

Resta a eufonia, a música interior

      «Também Garrett era muito bom estilista, e aqui temos, no Frei Luís de Sousa: “Vai e deixa-te lá estar até veres chegar o bergantim.” Ver chegar era bastante para a clareza. Mais ênfase em veres do que em ver, não se lobriga. Resta a eufonia, a música interior: com veres cortou-se a série estar-ver-chegar. Seria isto?... Ao certo não sabemos nada, por muitas regras que a Gramática nos dê» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 149).
[Texto 2198]
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A dengue

Não quis saber

      Hoje ofereceram-me o Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa de Cândido de Figueiredo (Lisboa: Livraria Bertrand, 1945, 10.ª ed.). Lá está «dengue» (p. 434) registada como sendo do género feminino. O tal «sábio» estava mesmo enganado. Não se quis dar ao trabalho de pesquisar, foi o que foi.

[Texto 2197]
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«Fazer o possível»

E os impossíveis

      «Fazer o possível. — Assim dizem os cultos. O povo, porém, ouviu e aperfeiçoou: Farei os impossíveis — ouve-se na Beira e alhures. Assim a expressão, quer era baça e somítica, se tornou mais imaginosa, mais amável, e portanto mais expressiva» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Língua Portuguesa, e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, 1938, p. 136).
[Texto 2196]
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«Entrevistar a testemunha»

Coisas dos amaricanos

      «A procuradora do caso, Maxine Rosenthal, foi a primeira a entrevistar a testemunha. Fez Vanda Pires recuar dois anos, até ao dia em que ouviu o nome Renato Seabra pela primeira vez. A 23 de outubro de 2010, pelo Facebook, Castro contava-lhe que ia aos EUA com “alguém muito especial” e “pedia segredo” da identidade do seu companheiro» («Últimos dias de Carlos Castro recordados no julgamento de Seabra», Alexandre Soares, Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 19).
      Desde as Ordenações que as testemunhas eram inquiridas em tribunal — agora passaram a ser entrevistadas. Esperemos que seja apenas nos Estados Unidos da América.
[Texto 2195]
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«Sine data»

Para variar

      «A empreitada, orçada em 16 milhões de euros, visa permitir que circulem na Linha Verde comboios com seis carruagens, algo que, uma vez prolongado o cais, vai continuar a não ser possível. Isto porque, para que tal acontecesse, seria necessário que a estação de Arroios fosse também intervencionada – um investimento que foi adiado sine data. [...] É que, para que possam efetivamente circular na Linha Verde comboios de seis carruagens, também a estação de Arroios terá de ser intervencionada – uma empreitada que foi adiada sine data pelos conhecidos constrangimentos financeiros do Metropolitano de Lisboa, E. P. E., bem como da conjuntura económica do País» («Obras no Areeiro sofrem novo atraso e só vão acabar em 2014», Inês Banha, Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 21).
      Quase nunca se vê esta locução latina — que significa o mesmo que sine die —, mas desta vez foi logo um par no mesmo texto. (A jornalista gostou tanto da locução, que quase repetiu a frase. Ninguém deu por nada.) Agora vejam lá é como a pronunciam.
[Texto 2194]
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Como se escreve nos jornais

Desnecessário, afinal

      «A polaroid do atual momento do sector dos media foi debatida no painel dedicado aos publishers (editores), durante o eShow Lisboa, organizado pela ACEPI» («Quebra de publicidade obriga jornais e TV a repensar negócio», Ana Marcela, Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 31).
      Há muitas outras formas de dizer o mesmo, mas, para ficarmos na área da fotografia, não seria melhor «instantâneo», por exemplo? Que alguns dicionários não registam nesta acepção. E, afinal, fica demonstrado que não precisava de ter usado o termo «publishers».
[Texto 2193]
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Toscana

Toscanejam

      «O estabelecimento [L’e’ Maiala!] de Donella Faggioli e do marido, Frank, encontrou uma nova forma de combater a crise: aceita vegetais e outros bens de consumo em troca de uma verdadeira refeição da Toscânia, a região de Itália onde fica Florença» («No L’e’ Maiala! trocam-se bens por refeições», Diário de Notícias, 11.10.2012, p. 9).
      Senhor jornalista, então em português não é Toscana que se diz? Ah, sim, também está no Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, na página 1014.
[Texto 2192]
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«Dengue», mais uma vez

Esqueçam isso

      «“O vírus tem quatro serotipos identificados. No caso da Madeira, revelou fortes semelhanças com o serotipo um que circula na Colômbia e na Venezuela. Todos os serotipos provocam febre do dengue, mas este aparentemente está associado a quadros mais benignos e ao surgimento de mais casos em menos tempo”, explicou ao DN Maria João Alves, responsável pelo Centro de Estudos de Vetores e Doenças Infecciosas do INSA» («Dengue na Madeira menos grave mas mais contagioso», Ana Maia, Diário de Notícias, 10.10.2012, p. 17).
      O tal «sábio» é que escrevia que só tinha encontrado o género feminino para a doença na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Já não seria pouco, mas não: Rebelo Gonçalves, na página 319 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista-o como feminino.
[Texto 2191]
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Aportuguesamento: «napalme»

Estranho seria que não

      Aportuguesada, pois. Conheço várias abonações, Luísa, mas deixo-te só uma: «Votou-se ainda o teor dum telegrama, mais incendiário que uma bomba de napalme, a dirigir ao presidente da Duma e, depois de muitos vivas e morras, abraços e parabéns, cada mocho foi para seu soito a ruminar na noitada» (Um Escritor Confessa-se, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1974, p. 179).
[Texto 2190]
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Léxico: «tranqueira»

Quase obscuro

      Podemos estar sempre a aprender, se quisermos, se mantivermos os olhos abertos. Hoje, por exemplo, fiquei a conhecer a palavra «tranqueira» na acepção de cercado de madeira para fortificar. Esta a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Tranqueira de Balibó, tranqueira de Kailako... Em Timor. Nunca antes tinha visto. Obra de defesa indígena.
[Texto 2189]
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Rifoneiro

Grandes certezas

      «Não é “à”, mas “na”.» Já me tinha corrigido noutra ocasião. Desta vez não podia deixar passar em claro. Dá-me aí o Rifoneiro Português, de Pedro Chaves. Cá está: «Casa roubada, trancas à porta.» Expliquei pacientemente. Outro rifão semelhante e a significar mais ou menos o mesmo: «Porco morto, cevada ao rabo.»
[Texto 2188]
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«Dengue», de novo

Tudo na mesma

      Virgílio Nóbrega, jornalista da RTP Madeira, no Jornal da Tarde de ontem: «A população de mosquitos transmissores do dengue tem alastrado, mas, de acordo com o Instituto de Higiene e Medicina Tropical, está controlada e monitorizada.»
      E se os jornalistas consultassem mais amiúde os dicionários, não seria bom? A palavra «dengue», na acepção da doença infecciosa, é do género feminino. Só do género feminino. Espera aí... eu já tinha escrito isto! Os jornalistas repetem os mesmos erros.
[Texto 2187]
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«White cube»

Cubo branco

      Vou ter a coragem de ser humilde e admitir: eu não sabia o que era o white cube. Meu Deus. Quer dizer, literalmente, sabia o que era. No âmbito das artes plásticas, porém, remete para o conceito que designa a sala de exposição branca e neutra, cubo branco, onde até as cartelas das obras expostas escasseiam. Mas tem mesmo de estar em inglês?
[Texto 2186]
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Sobre «demão»

Sinónimo de «ajuda»

      Sim, «demão» também significa «ajuda». É verdade que as acepções mais usadas e conhecidas são outras: camada de tinta, cal, etc., que se aplica numa superfície e cada uma das vezes que se retoma um trabalho ou um assunto.
      «Aliás, não fosse querer dar uma demão na venda dos livros ao velho camarada e grande amigo Alberto Pratas e Isidro Pacheco que aquele lançamento promovera, não estaria ali» (O Autógrafo, Dias de Melo. Lisboa: Edições Salamandra, 1999, p. 77).
[Texto 2185]
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Baiona

Mas a memória

      «Aquilino Ribeiro Machado, que nasceu em Baiona, a cidade do Sul de França onde os pais estavam exilados, a 6 de abril de 1930, vivendo de seguida em Vigo e em Tuy (até o autor de Quando os Lobos Uivam regressar a Portugal, em 1932), licenciou-se em Engenharia Civil e começou a trabalhar na autarquia lisboeta em 1956, passando a diretor de serviços do Gabinete de Estudos e Planeamento do Fundo de Fomento da Habitação em 1969» («Primeiro presidente de Lisboa eleito depois do 25 e Abril», Diário de Notícias, 9.10.2012, p. 24).
      Muito bem — o pior é que se vão esquecer de que escreveram desta forma. Aliás, quase sempre escrevem Bayonne, como nesta notícia de Maio: «Há duas semanas, Valls [ministro do Interior francês], nascido em Espanha e naturalizado francêrs [sic], qualificou a ETA de “terrorista”, mostrando que a mudança política em França não altera este ponto. Oroitz Gurruchaga Gogorza e o seu número dois, Xabier Aramburu, estão em prisão preventiva em Bayonne» («Ministro francês em Madrid após prisão de etarras», Diário de Notícias, 29.05.2012, p. 29).
[Texto 2184]
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