Como se escreve por aí

Ainda não averiguaram o caso


      «No ano em que a cidade assume o título de Capital Europeia da Democracia, os concertos afirmam-se como um dos grandes acontecimentos do verão» («Daniela Mercury abre hoje as tradicionais Festas do Mar», Vanessa Fidalgo, Correio da Manhã, 20.08.2026, p. 28). Tão abelhudos, mas ainda não aprenderam que Cascais é vila. Claro que não são os únicos. Roberto Bessa Moreira, por exemplo, só hoje fica a saber que anda por aí a espalhar o erro: «Na execução do plano, descreve a acusação do Ministério Público, vários elementos da organização criminosa fizeram, desde 2024, “várias viagens” a Portugal para “conhecerem o território, as marinas de Portimão e de Cascais” e ainda para “obterem alojamento” nas mesmas cidades» («Carro funerário entrou seis vezes na marina de Portimão para carregar cocaína», Roberto Bessa Moreira, Jornal de Notícias, 22.08.2026, p. 18). (Em contrapartida, sabe que já não levamos os mortos para o cemitério numa carreta.)

[Texto 23 442]

Como se traduz por aí

Meia bola e força


      «Julian acenou em compreensão, enquanto Celia se confortava com um golinho da mistela» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 62). 
      O termo ginny é aqui uma forma familiar/jocosa de gin, e ocorre cinco vezes e sempre relacionado com a personagem Celia. Ginny, neste contexto, não altera a natureza da bebida: continua a ser gin. Já «mistela» introduz indevidamente a ideia de mistura ou bebida de má qualidade. Logo: «Julian mostrou compreender, enquanto Celia se consolava com um gole de ginzinho.» Pior, só a carreta dos mortos.

[Texto 23 441]

Léxico: «marcha japonesa»

Fala-se agora muito nela


      «Si courir sous le cagnard vous rebute, passez à la marche japonaise. Les vagues de chaleur s’enchaînent et votre endurance fond aussi vite que les glaciers? La solution à votre problème existe. Elle vient du pays du... Soleil levant. La Japanese Walking Routine, ou marche japonaise, propose d’alterner marche rapide et marche lente au cours de la même sortie. Cette méthode d’intervalles à pied transforme une simple balade en séance cardio, accessible et redoutablement efficace» («La marche japonaise, l’endurance pour ceux qui détestent courir», Pierre-Alain Schlosser, Le Matin Dimanche, 23.08.2026, p. 35). 
      Vamos acolher a ➠ marcha japonesa DESPORTO método de treino de marcha por intervalos que consiste em alternar períodos de cerca de três minutos de marcha de baixa intensidade com períodos de igual duração de marcha de alta intensidade, geralmente em cinco ou mais séries; caminhada japonesa.

[Texto 23 440]

Fim de século, fim-de-século, finissecular...

Em suma, ficamos a perder


      «Atrás do monumento, flutuando no ar cálido, via-se a silhueta do hotel Taj Mahal, enorme pastel, delírio de um Oriente fim-de-século, que como uma gigantesca bola não de sabão mas de pedra tivesse ido parar a um recanto de Bombaim» (Vislumbres da Índia, Octavio Paz. Tradução de José Colaço Barreiros e revisão de João Carlos Alvim. Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 15). 
      Ai sim? Mas na ficha técnica juraram que «esta tradução segue o novo Acordo Ortográfico». A propósito, o dicionário da Porto Editora não o regista, mas tem (e temos) o adjectivo «finissecular», sempre preferível, e que é o termo usado por Octavio Paz. O Houaiss, contudo, regista-o como locução (que é) e o VOLP da Academia Brasileira de Letras como adjectivo de 2 géneros e 2 números, mas isso é porque os académicos estavam a dormir, ou então foi o informático que decidiu mostrar que também tem opinião, que, sabemos agora, mais valia guardar para si e para sempre. 
      Mas nem tudo são ganhos: o Houaiss distingue três acepções em «fim de século», ao passo que a Porto Editora só regista uma em «finissecular».

[Texto 23 439]

Definição: «amazónico»

Seria muito mais informativo


      «A Amazónia é um território natural com cerca de 700 milhões de hectares na América do Sul — uma superfície maior do que toda a Europa Ocidental. Estende-se por nove países — Equador, Peru, Brasil, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa — e concentra a maior floresta tropical e bacia hidrográfica do planeta, sendo o Brasil detentor da maior porção geográfica desta vasta região» («Amazónia, território de vida», Jairo García, Além-Mar, Setembro de 2026, p. 14). 
      Era parte desta informação que os dicionários deviam conter na respectiva acepção de ➠ amazónico adjectivo relativo à Amazónia, vasta região natural da América do Sul que se estende por nove países e abrange a bacia hidrográfica do rio Amazonas e a extensa floresta tropical associada.

[Texto 23 438]

Léxico: «canforeira-de-bornéu»

Tem de ser nossa


      «Camões também refere uma canforeira no canto X d’Os Lusíadas, sabendo que não é a verdadeira. Trata-se da canforeira-de-bornéu (Dryobalanops aromatica), e não da verdadeira canforeira (Camphora officinarum), cuja área nativa o poeta não visitou. “Portanto, sabia que havia uma canforeira verdadeira. Talvez a tivesse visto cultivada na Índia”» («Jorge Paiva. Apaixonou-se pelas plantas em Camões e quis mostrá-las ao vivo no jardim», Teresa Firmino, Público, 23.08.2026, p. 25).

[Texto 23 437]

Como se traduz por aí

Temos os nossos idiomatismos


      «O Teddy espera-nos à porta, branco como um lençol, e sua senhoria está no andar de cima, no seu boudoir, com a sua música clássica muito alta» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 62). [«Teddy’s waiting at the door, white as a sheet, and her ladyship’s upstairs in her boudoir with her classical music turned up loud.»] 
      Como se nós usássemos esta expressão... Enfim. Sempre que possível, expressão idiomática traduz-se com expressão idiomática, e a nossa não é «branco como um lençol», mas «branco como a cal».

[Texto 23 436]

Léxico: «sinal de ajuda»

Há outros menos úteis nos dicionários


      «Il “Signal for help” è un gesto universale inventato nel 2020 dalla Canadian Women’s Foundation. Si fa mostrando il palmo della mano, piegando il pollice verso l’interno e richiudendogli sopra le quattro dita. Non richiede l’uso della voce, si ripete più volte per attirare l’attenzione» («Il segnale di soccorso», Valeria Costantini, Corriere della Sera, 23.08.2026, p. 19). 
      Pode contribuir para salvar alguém, pelo que proponho ➠ sinal de ajuda gesto convencional de pedido discreto de ajuda, feito levantando uma mão aberta, com a palma voltada para o interlocutor, dobrando o polegar sobre a palma e fechando depois os restantes dedos sobre ele.

[Texto 23 435]

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