Léxico: «irmão postiço»

Ora esta...


      Vamos ver, isto pode ter diferentes abordagens. Vejo por aí a palavra stepbrother (o mesmo se aplica a stepsister) traduzida por «meio-irmão». Está, evidentemente, errado. (Mas é repetido pelos dicionários bilingues!) Neste caso, não há aí nenhum pai em comum. Quando há um, o inglês tem half brother (e, adivinharam, half sister). Nós é que, aparentemente, não temos termo para stepbrother e stepsister. Ou assim se pensa. Ora, no verbete «postiço», os nossos dicionários já acolhem a acepção relativa à criança que é tratada como se fosse filho próprio. No Brasil, porém, onde ainda se fala português, foram mais longe e para estes casos usa-se irmão postiço (e irmã postiça). Assim, proponho ➠ postiço 6. (irmão ou irmã) que é filho ou filha do padrasto ou da madrasta, não havendo progenitor comum.

[Texto 23 424]

Como se traduz por aí

Pormenores, mas tudo são pormenores


      «Com uma deliberação estudada, Ellen retira os brincos de diamante, primeiro rodando o travão atrás de cada orelha, depois pondo-os na caixa forrada de cetim, e por fim devolvendo a caixa à gaveta esquerda do toucador» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., pp. 45-46). 
      Há, efectivamente, brincos com travão, mas podemos ter a certeza de que os de Ellen não são desse tipo: basta atentar numa palavra do original — unscrewing. Os travões são encaixados no espigão e retirados por pressão, não enroscados. Portanto, é antes assim: «Com deliberada lentidão, Ellen tira os brincos de diamantes, desenroscando primeiro o fecho por trás de cada orelha, depois guarda-os na caixa forrada de cetim e mete a caixa na gaveta esquerda da penteadeira.» Quanto a «penteadeira», é apenas para os meus queridos (e os outros, os nada, nada queridos) leitores ficarem a conhecer a palavra.

[Texto 23 423]

Definição: «estratovulcão»

A teoria do mil-folhas


      «L’Etna è uno stratovulcano complesso attivo. La sua altezza massima è di circa 3-357 metri (l’altezza varia costantemente in base alle eruzioni e all’accumulo o crollo dei crateri sommitali) con una superficie di 1.190 km2. È il più grande vulcano attivo d’Europa con circonferenza alla base di oltre 140 chilometri. E Patrimonio dell’Umanità dell’Unesco» («Il vulcano», Lara Sirignano, Corriere della Sera, 13.08.2026, p. 6).
      Exactamente, um estratovulcão, que a Porto Editora define assim: «GEOLOGIA tipo de vulcão de forma cónica bem pronunciada, composto por diversos estratos lávicos intercalados com níveis piroclásticos». Por coincidência, o Etna é um excelente exemplo, pois mostra-nos como esta definição é demasiado restritiva e esquemática: apresenta a forma cónica bem pronunciada como necessária e sugere uma alternância regular entre estratos lávicos e níveis piroclásticos. Além disso, não explicita o carácter poligenético do estratovulcão, formado pela acumulação sucessiva de materiais ao longo de numerosas erupções. O Etna mostra perfeitamente por que razão não devemos imaginar um estratovulcão como um cone feito de uma espécie de mil-folhas geológico, com uma camada de lava, outra de piroclastos, outra de lava, e assim sucessivamente. O seu edifício é muito mais complexo: possui vários centros eruptivos e crateras cimeiras, sofre actividade explosiva e efusiva, tem erupções fissurais nos flancos e nestes formam-se também cones adventícios. O portal dos Parques Naturais dos Açores caracteriza os estratovulcões como grandes vulcões poligenéticos constituídos por níveis piroclásticos e níveis de escoada lávica e explica que o perfil cónico pode ser modificado por movimentos de massa, erupções nos flancos ou uma caldeira cimeira. 
      Tudo visto e ponderado, proponho ➠ estratovulcão GEOLOGIA vulcão poligenético formado pela acumulação sucessiva, ao longo de numerosas erupções, de escoadas de lava e materiais piroclásticos, geralmente com vertentes íngremes e perfil cónico; vulcão compósito.

[Texto 23 422]

Léxico: «à babuja»

Até dá nome a restaurantes


      «Colocando-nos atrás de uma moita, espreitámos. À borda de uma langua uns dez gansos enormes, de bico e pés encarnados, e penas azuloias, dormiam, com a cabeça debaixo da aza, encostados uns aos outros, em linha, à babuja da água» (Nostalgia Africana, Carlos R. M. Faria e Maia. Lisboa: Oficinas Fernandes, 1936, p. 205).

[Texto 23 421]


⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: «Se o líder do PS manter a consistência e for claro e consistente naquilo que tem dito sobre o Orçamento do Estado, não me parece que haja razões para crise», afirmou o porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, em entrevista à SIC Notícias. Recomenda-se é que aprenda a usar correctamente os verbos, pelo menos para os momentos em que anda por aí a porta-vozear. 

Definição e etimologia: «estivação»

Não estão mortos


      «Mercedes Creus se ha fijado cómo los caracoles trepan a las plantas para alejarse del cálido suelo, que en verano alcanza temperaturas muy altas. Este comportamiento se conoce como estivación» («La estivación de los caracoles en Roses», La Vanguardia, 15.08.2026, p. 15). A ilustrar o texto, uma imagem de caracóis, como tantas vezes vemos, num arbusto, como mortos. 
      Mas não: é a estivação. O texto, porém, induz em erro, pois poderá pensar-se que os caracóis subirem para as plantas constitui a estivação. Mas não,  é o estado fisiológico de dormência em que se encontram. Infelizmente, nos nossos dicionários também não está totalmente correcto. Lê-se no dicionário da Porto Editora: «BIOLOGIA estado de inactividade, com metabolismo reduzido ou suspenso, em que entram diversas espécies animais de forma a conseguirem sobreviver quando as condições climáticas se tornam muito quentes e secas». Com metabolismo suspenso é manifesto exagero, não pode ser. E não é meramente pelo calor. 
      Assim, proponho ➠ estivação BIOLOGIA estado de inactividade, com acentuada redução da actividade metabólica, em que certos animais entram para sobreviver a condições ambientais adversas, sobretudo de escassez de água, frequentemente associada a temperaturas elevadas.  
      Quanto à etimologia, vem de estivar + -ção, a partir do latim aestivāre, «passar o Verão», provavelmente por influência do francês estivation, «idem».

[Texto 23 420]

Definição: «burca»

E já que falámos dela ontem


      A publicação da chamada lei das burcas obriga-nos a olhar de novo para a definição nos dicionários. Diz a Porto Editora: «veste comprida que envolve todo o corpo, dos pés à cabeça, com uma abertura rendilhada à altura dos olhos, usada em público por algumas mulheres muçulmanas». Deduz-se, claro, mas deve dizer-se expressamente que cobre o rosto. Assim como deve explicar-se correctamente o que acontece à altura dos olhos. E, por fim, como se trata de uma peça exterior envolvente, usada sobre a roupa habitual, deve ficar claro. Assim, proponho ➠ burca veste exterior ampla, usada em público por algumas mulheres muçulmanas, que cobre o corpo da cabeça aos pés, incluindo o rosto, tendo à altura dos olhos uma pequena zona de tecido em rede ou perfurado que permite a visão.

[Texto 23 419]

Ortografia: «menino bem»

Ora sobra, ora falta


      «Tudo ia calmo no pátio, mais calmo do que o habitual, não havia gritaria nem serenata, só se ouviam as vozes e os gatos a miarem pelos cantos, uma vez por outra um carro que passava lá fora na Avenida de Ceuta, o tio Artur puxou a conversa, temos de levar o rapaz ao Atlético, e logo o Lúcio da tasca que dizia as coisas duas vezes respondeu, quando vier o Belém, quando vier o Belém, e riu-se, riram-se todos, o Victor não percebeu do que se riam eles, que mal tinha o Belenenses?, o Belém, e o tio explicou, quando vem o Belém há sempre sarrabulho, e o Victor perguntou porquê, e o Lúcio respondeu, ora, operários contra meninos-bem já se sabe que não pode acabar aos abraços, depois verás, depois verás» (Pés de Barro, Nuno Duarte. Revisão de Madalena Escourido. Alfragide: Leya, 2025, 3.ª ed., pp. 36-37). 
      Há-de ser confusão com «menino-bonito». Nunca vi o adjectivo invariável «bem» ligado por hífen neste caso. Mais valia ter guardado o hífen para outros casos em que é necessário e não o usou, como em «um tipo mal encarado» (p. 27), «passadeiras de madeira mal amanhadas» (p. 33), «o cardeal patriarca Manuel Gonçalves Cerejeira» (p. 38), por exemplo.

[Texto 23 418]

Como se traduz por aí

A dor é toda nossa


      «— Pode, Edward, se assim desejar — respondeu Julian com uma gargalhada perplexa e uma pontada de curiosidade que disfarçou o melhor que conseguiu» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 84).
      Como se fosse uma dor. Ando agora a encontrar com frequência este erro incompreensível, este disparate. O que se lê no original? Lê-se «a surge of curiosity»; logo, vaga ou onda de curiosidade. E, contudo, na página 149 já a tradutora soube ver, vá lá, que surge of affection era «onda de afeição».

[Texto 23 417]

Arquivo do blogue