Léxico: «trinitita»

Mais um bocadinho de ciência e História


      «On July 16, 1945, the U.S’s “Trinity” nuclear test in New Mexico changed history. The explosion released energy equivalent to 21,000 tons of TNT, vaporised a steel tower, and melted the surrounding desert sand into a glassy green crust called trinitite. Decades later, this mineral still holds secrets» («New crystal found in the detritus of the first-ever nuclear blast», Vasudevan Mukunt, The Hindu, 21.05.2026, p. II).).

      Agora já sabemos, é a trinitita GEOLOGIA vidro residual rico em sílica, formado pela fusão e vitrificação da areia do deserto durante o teste nuclear Trinity, realizado em 1945 no Novo México; apresenta geralmente coloração esverdeada devido a minerais e metais vaporizados pela explosão.

[Texto 23 054]

Léxico: «psicotrauma»

Se ela o diz


      «Esta mulher afirma ainda que acompanha pessoas em questões ligadas à sexualidade, ao psicotrauma e ao desenvolvimento pessoal, defendendo uma abordagem “pragmática” e orientada para a transformação. Diz que a sexualidade deve ser “plenamente vivida com alegria” e apresenta-se como alguém capaz de criar formações com “rigor, humanismo e generosidade”» («O perfil digital da mãe e do homem com quem viajou», Joana Gorjão Henriques, Público, 23.05.2026, p. 21).

[Texto 23 053]

Definição: «dioptra»

Não explicaria o uso nas minas


      «Esta historia se explica mediante una serie de paneles, maquetas, materiales audiovisuales y réplicas de antiguos artefactos, como una dioptra —un instrumento topográfico empleado en las labores mineras—, hachas que se usaban para abrir galerías o lámparas y sacos utilizadas por los mineros» («El único museo de Galicia dedicado a la minería romana», Francisco Albo, La Voz de Galicia, 24.05.2026, p. 37).

      Está no dicionário da Porto Editora: «HISTÓRIA, TOPOGRAFIA instrumento topográfico usado na Antiguidade para medir diferenças de nível entre dois pontos, calcular ângulos, etc.». O artigo do jornal revela bem que é mais do que um instrumento «para medir diferenças de nível», o que faz pensar sobretudo num nível topográfico; era antes utilizado na observação e alinhamento em agrimensura, engenharia e astronomia. Assim, proponho dioptra HISTÓRIA, TOPOGRAFIA instrumento de visada usado na Antiguidade em trabalhos de agrimensura e engenharia, destinado à medição de ângulos horizontais e verticais, ao estabelecimento de alinhamentos e à determinação de diferenças de nível entre pontos do terreno; precursor do teodolito. 

      Uma nota etimológica mais completa dirá que vem do grego διόπτρα (dióptra), «instrumento de visada» ou «instrumento para ver através», formado por diá, «através de», + radical opt-, «ver».

[Texto 23 052]

Léxico: «neurotipicidade»

Porque já temos «neurotípico»


      «En las antípodas de la neurodivergencia se situaría, según el modelo tradicional, la neurotipicidad: una ausencia de rasgos que indiquen dificultades en áreas como la escolaridad o las relaciones interpersonales. Pero ¿qué supone ser neurotípico?» («Los difusos límites de la neurotipicidad», Lois Balado e Laura Miyara, La Voz de Galicia, 24.05.2026, p. 38).

[Texto 23 051]

Definição: «bávaro»

Grupo dialectal, não dialecto


      Num estudo recente de linguística computacional da Universidade Cornell dedicado ao «multi-dialect Bavarian», os investigadores partem do pressuposto de que o bávaro constitui um conjunto dialectal complexo, internamente diversificado, e não um único dialecto homogéneo. A própria divisão tradicional em bávaro setentrional, central e meridional continua plenamente reconhecida pela dialectologia germânica. Por isso, a definição apresentada pela Porto Editora — «dialecto do alto-alemão falado na Baviera e noutras regiões próximas» — parece-me excessivamente simplificadora, desde logo por omitir a forte implantação austríaca do bávaro e por reduzir a uma unidade aquilo que é geralmente tratado como um grupo dialectal. Assim, proponho bávaro LINGUÍSTICA grupo dialectal do alto-alemão, pertencente ao domínio austro-bávaro, falado na Baviera, em grande parte da Áustria e em regiões limítrofes.

[Texto 23 050]

Léxico: «colhida», de novo

O caçador caçado


      «A IP, enquanto gestora da rede ferroviária nacional, explica que “a grande maioria dos acidentes significativos com consequências humanas resulta de factores externos ao sistema ferroviário, designadamente da intrusão no espaço ferroviário em locais de acesso proibido e devidamente sinalizados, bem como do desrespeito pelas regras de atravessamento em passagens de nível”. Nos últimos cinco anos, 89% das mortes e 90% dos feridos graves em acidentes ferroviários ocorreram precisamente em resultado de colhidas em plena via ou em passagens de nível. [...] Em 2025, o gabinete abriu 74 processos de análise preliminar a acidentes envolvendo a colhida de pessoas nos sistemas ferroviários, dos quais 67 ocorreram na ferrovia pesada, dois no metro pesado e cinco no metro ligeiro» («Portugal no topo dos países com mais acidentes mortais na ferrovia», Carlos Cipriano, Público, 26.05.2026, p. 26). 

      É verdade que ele próprio é colhido pela ortografia — «Nos carris portugueses morreram 6,2 pessoas, em média, por mil quilómetros de vias férreas, um valor que fica à frente da Hungria (5,8), Eslováquia (5,7), Lituânia (4,6) e Polónia (4,3).» — e por um verbo — «Estas estatísticas do Eurostat excluem os suicídios, que são comunicados separadamente por não se tratarem exactamente de acidentes.» 

[Texto 23 049]

Definição: «sachê»

Tem utilidade


      Lembram-se do termo «sachê»? Óptimo, estão a carburar bem. Ora bem, temos novidades: «A proposta do Governo para regulamentar as bolsas de nicotina abre a porta ao fabrico deste tipo de produto em Portugal, a crer no decreto-lei que a tutela aprovou e que vai apresentar ao Parlamento. [...] “Obviamente que a OMS faz recomendações para um mundo global e, com isso, tenta responder a todas as necessidades. Mas a OMS não diz assim: ‘Introduzam um produto que nunca existiu no país e agora regulem-no.’ Não. Isto é uma hipocrisia”, afirma a especialista [Margarida Tavares, médica infecciologista e ex-secretária de Estado da Promoção da Saúde]. “Quem é que em Portugal tem o hábito de ter um corpo estranho ao pé de uma gengiva? Entre os dentes e a gengiva?”, questiona» («Governo abre a porta ao fabrico de bolsas de nicotina em Portugal», Daniela Carmo, Público, 26.05.2026, p. 13).

      É assim que as nossas queridas autoridades interpretam a realidade. Vamos ao que interessa: podemos desde já acrescentar um sinónimo àquela 2.ª acepção de sachê: «pequena embalagem descartável, geralmente com porção individual de determinado produto; saqueta; bolsa».

[Texto 23 048]

Léxico: «nauruano»

Vai acontecer


      «O Parlamento nacional aprovou uma emenda constitucional que propõe rebatizar o país como “Naoero”, numa tentativa de reforçar a identidade cultural local e romper com as marcas deixadas pelo colonialismo. A medida foi aprovada no passado dia 12 e ainda depende de um referendo popular para entrar em vigor definitivamente. “Naoero” é a designação tradicional utilizada pelos próprios habitantes da ilha antes da chegada dos europeus» («País mais pequeno do mundo (cabe no concelho de Cascais) quer mudar de nome», Nascer do Sol, 26.05.2026, 13h00). 

      Eu dou já a coisa como certa (tal como aconteceu com a Macedónia do Norte). O que vai mudar para nós? Então, o nome do país e o gentílico, que poderá vir a fixar-se em «naoeruense» e/ou «naoeruano». O que podemos fazer já (e devíamos ter feito há sessenta anos) é definir como deve ser a língua, pelo menos para ultrapassarmos a obviedade e quase inutilidade de «língua de Nauru». Oficialmente, foi sempre dorerin Naoero, isto é, «língua de Naoero». Para nós e para o mundo, é, por enquanto, nauruano LINGUÍSTICA língua austronésia do grupo micronésio, bastante diferenciada das restantes línguas desse ramo, falada em Nauru.

[Texto 23 047]

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