Definição: «homeopatia»

Falta pouco


      «Por si alguien todavía tenía dudas, la homeopatía no sirve para el tratamiento de ninguna enfermedad y sus efectos son comparables al placebo. Así lo refleja un exhaustivo informe técnico titulado “Homeopatía y productos homeopáticos: Evaluación de las evidencias acerca de su eficacia y seguridad”, publicado por la Agencia Española de Medicamentos y Productos Sanitarios (Aemps), en el que se concluye de forma categórica que no existe evidencia cientifica que avale la eficacia de la homeopatía como instrumento terapéutico, tras una revisión sistemática de la literatura científica y de las evaluaciones de organismos estatales a nivel internacional» («El Ministerio de Sanidad concluye que la homeopatía no es eficaz para tratar ninguna enfermedad», C. Garrido, ABC, 22.04.2026, p. 57). 

       Em Espanha já chegaram a esta conclusão óbvia, e certamente cá não vai demorar. Não acredito, por isso, que haja um lóbi que trabalhe para impedir que nos dicionários se diga ➜ homeopatia MEDICINA sistema terapêutico criado por Samuel Hahnemann (1755-1843), baseado no princípio de que substâncias capazes de provocar certos sintomas num indivíduo saudável podem, em doses extremamente diluídas e após sucessivas diluições e agitações, tratar sintomas semelhantes num doente; as diluições empregadas são frequentemente tão elevadas que tornam improvável ou inexistente a presença de moléculas da substância original, assentando o método em pressupostos sem fundamento científico e não havendo prova fiável da sua eficácia terapêutica.

[Texto 22 864]

Léxico: «varadouro»

Amazónia, Mato Grosso


      «Tudo começa com o desmatamento ilegal de uma área no interior da floresta, perto de um rio, para retirada de madeira, garimpo ou pecuária. Em seguida, são abertas trilhas (ou varadouros, como são chamados esses caminhos na Amazônia) para o tráfego de pessoas e produtos» («Estradas fantasmas turbinadas por políticos locais ameaçam a Amazônia, afirmam estudos», Flávio Ferreira, Henrique Santana e Jullia Gouveia, Folha de S. Paulo, 21.04.2026, p. A10).

      Não será apenas por esta que os dicionários brasileiros acolhem sete acepções de «varadouro» e os portugueses apenas duas.

[Texto 22 863]

Definição: «meritocracia»

Estão a ver a coisa mal


      «Se há um viés cognitivo de ampla penetração, é a falácia do mundo justo —a ideia de que, no final, as pessoas receberão o que merecem. Somos condicionados desde criancinhas a crer nessa lorota. Ela está presente nas histórias infantis (vilões são sempre punidos), nas religiões (papai do céu recompensa os bons e castiga os maus) e até em justificações ideológicas (discurso da meritocracia). Aparece também em eleições» («Injustiça eleitoral», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 17.04.2026, p. A3).

      Quando descemos (ou subimos, depende da perspectiva) a estes conceitos, as definições deixam muito a desejar. No caso, tanto o Houaiss (com a misturada na primeira acepção) como a Porto Editora, que põe toda a ênfase, e eu nem sei porquê, na liderança (salvo como simplificação didáctica), não vão ao cerne da questão, que tem que ver com a distribuição de posições. Assim, proponho ➜ meritocracia SOCIOLOGIA sistema de organização social ou princípio de distribuição segundo o qual posições, recompensas ou estatuto são atribuídos em função do mérito individual (aptidão, esforço, desempenho), e não da origem social, riqueza ou privilégios herdados; por extensão, conjunto de mecanismos de selecção e promoção baseados nesse critério.

[Texto 22 862]

Léxico: «subdominante»

Mais música


      O músico Daniel Pereira Cristo, que acaba de lançar o seu terceiro disco, Malva Globo, foi recebido por Pedro Miguel Ribeiro no Mesa para Dois, da Antena 1. E que disse ele que nos interesse para aqui? Muita coisa, mas sobretudo isto: «Ora, dos Beatles até à Laurindinha e passando por uma série, uns milhares largos de música, da nossa música ocidental, é por aí, não é? Tónica dominante, às vezes vai à subdominante, mas pronto, tónica dominante, se a gente pensar em “We all live in a yellow submarine”.» Ora, Porto Editora, não registas ➜ subdominante MÚSICA quarto grau da escala diatónica, situado a uma quarta justa acima da tónica, com função harmónica intermédia entre a tónica e a dominante.

[Texto 22 861]

Léxico: «rato-do-canavial | trionomídeo»

Marcha tudo


      «Nós, Combonianos, vivemos a missão na sua dupla dimensão de anúncio do Evangelho e promoção humana. Por isso, iniciámos na prisão [Ankaful Maximum Security Prison, Cape Coast, Gana] um projecto de criação de coelhos e de um roedor de grande porte e carne muito saborosa, o rato-do-canavial, a que aqui chamam grasscutter» («Olha para mim», Pepe Girau, Além-Mar, Maio de 2026, p. 45). 

      Ora, já os nossos militares da Guerra Colonial conheciam o ➜ rato-do-canavial ZOOLOGIA (Thryonomys swinderianus) roedor africano de grande porte, da família dos Trionomídeos, distribuído pela África Subsariana, associado a zonas de vegetação densa e a culturas agrícolas, sobretudo canaviais; de corpo robusto, pelagem acastanhada e de hábitos nocturnos, alimenta-se de gramíneas e outras plantas, sendo também apreciado como fonte de alimento em várias regiões africanas. 

      Lá se também os comiam, isso já não sei. Podia perguntar ao meu primo, primo em 2.º grau, Anselmo, o único da família, apesar de franzino, débil, baixote, que foi à guerra. Por sorte, veio inteiro e com a cabeça a funcionar mais ou menos. Ou seja, como anteriormente: mais ou menos.

[Texto 22 860]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 



P. S.: Ainda estou abismado e um pouco tonto (mas isto deve ser do Sprizz que acabei de beber, muitas horas depois de ter tomado o pequeno-almoço) por ver a riqueza do verbete «primo» nos dicionários brasileiros e a pobreza nos nossos. Vae mihi!



Definição: «electrocromismo | electrocrómico»

Não é tanto a cor, não


      Ontem vi o filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders. O protagonista, Hirayama, sai todos os dias de casa com um sorriso nos lábios, e isto quando é mero empregado de limpeza de casas de banho públicas em Tóquio. Até parece leitor do nosso José Tolentino Mendonça: «Chegará o momento em que compreenderemos que sabedoria é amar tudo. É saudar os dias sem esquecer a importância das horas» (in Para os Caminhantes Tudo É Caminho, Lisboa: Paulinas, 2026). Ora, algumas daquelas casas de banho são totalmente de vidro. Fazem parte de um projecto em Tóquio, mais concretamente em Shibuya, promovido pela Nippon Foundation, para tornar os sanitários públicos mais transparentes, literalmente, quanto à limpeza e segurança. Ao entrar, o utilizador gira o fecho interior e os vidros tornam-se opacos no mesmo instante. A este vidro inteligente dá-se o nome de electrocrómico, ou PDLC (de polymer dispersed liquid crystal). Como funciona isto, quase magia? O vidro tem uma camada interna com cristais líquidos dispersos. Quando não há corrente eléctrica, esses cristais estão desorganizados → a luz espalha-se → o vidro parece opaco (leitoso). Quando se aplica corrente, os cristais alinham-se → a luz passa directamente → o vidro fica transparente. 

      Agora a definição de «electrocrómico» no dicionário da Porto Editora: «que sofre mudança reversível de cor em resposta a estímulo eléctrico». Pois, não é verdade. Em causa estão alterações das propriedades ópticas — cor, transparência, opacidade, absorção de luz — em resposta a um estímulo eléctrico. Há logo aqui um problema, prévio, que se repete em inúmeros verbetes: se o núcleo conceptual está em «electrocromismo», que é o fenómeno, para que estamos a carregar a definição do adjectivo relacional correspondente? Não faz sentido. Assim, proponho ➜ electrocromismo FÍSICA, QUÍMICA fenómeno pelo qual certos materiais apresentam variação reversível das propriedades ópticas sob acção de um estímulo eléctrico, geralmente por efeito de processos electroquímicos internos | ➜ electrocrómico FÍSICA, QUÍMICA relativo a electrocromismo; que manifesta electrocromismo.

[Texto 22 859]

Definição: «síndrome de Tourette»

Nem oito nem oitenta


      «Los tics se agravaron y a los 14 años le diagnosticaron síndrome de Tourette, trastorno neurológico crónico caracterizado por tics motores y vocales involuntarios, rápidos y repetitivos, que se inician antes de los 18 años» («Un marcapasos cerebral para liberar a Josep de sus insultos descontrolados», Esther Armora, ABC, 22.04.2026, p. 58).   

      Este sofria de coprolalia. Como eu argumentei, se apenas 10 % dos que sofrem desta síndrome têm coprolalia, não pode ficar na definição, como fazia a Porto Editora. Porque isso, afinal, não sendo definidor, é o mais estigmatizante. A Porto Editora acedeu, concordou, mas reduziu-a demasiado. É esse mesmo, aliás, o problema de muitas definições dicionarísticas, que, ao quererem ser demasiado genéricas, acabam por perder precisamente estes traços distintivos que a jornalista não omitiu. Assim, proponho ➜ síndrome de Tourette MEDICINA perturbação neurológica crónica caracterizada pela presença de tiques motores múltiplos e de pelo menos um tique vocal, involuntários, rápidos e repetitivos, com início na infância ou adolescência (antes dos 18 anos), podendo variar em intensidade e associar-se a outros distúrbios comportamentais ou neuropsiquiátricos.

[Texto 22 858]

Oh diabo!

Assim começamos


      «Mazouco é uma aldeia portuguesa, mas parece espanhola. O habitante liga para o 112 e atendem do país vizinho. O regulador diz que não há incumprimento das operadoras. Ó diabo...» («Sobe & Desce», Correio da Manhã, 21.04.2026, p. 3). 

      Falam muito, mas interjeccionam mal. Na verdade, e ao contrário do que se lê num dicionário de certa academia, é de uma locução que se trata — oh diabo —, ocorre mesmo esta fusão para a expressão de um significado único, usada perante um acto de certa gravidade, exprimindo espanto, censura, recordação súbita de um acto a realizar, etc. Logo, sem vírgula. A Porto Editora não se quis comprometer e nada diz sobre isto. «— Oh diabo! Ao futebol não costumo ir, não. Mas, se fazes muito empenho em ir, arranjo-te um bilhete, se me prometeres ir lá co’uma rapariga séria, claro» (Futebol, Hugo Rocha. Lello & Irmão Editores, 1957, pp. 245-46).

[Texto 22 857]

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P. S.: Poderão ser muito diferentes em tudo o resto, mas Andrea Neves, Eduarda Maio e José Carlos Trindade, da Antena 1, mostraram hoje de manhã ser exactamente iguais numa coisa: ignoram que nem todos os nomes de países são antecedidos de artigo, e entre estes está Chipre. Assim, Andrea Neves, Eduarda Maio e José Carlos Trindade, os chefes de Estado e de governo da União Europeia iniciam hoje em Chipre uma cimeira informal de dois dias, que dirigirá essencialmente a atenção para a guerra no Médio Oriente e incluirá um encontro com parceiros na região. Agora só para Eduarda Maio: não diga que a sua colega está a falar «a partir de Nicósia», mas «de Nicósia». Agora só para José Carlos Trindade: devia preferir, por vários motivos, «trovejar» a «trovoar».


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