Livro

      Já está disponível, desde ontem o meu livro, Em Português, Se Faz Favor.


Ortografia: «homem-forte»

Assim mesmo

      «Agora, a filha de 29 anos do magnata Silvio Berlusconi é a ponta de lança no afastamento do CEO e vice-presidente dos rossoneri, 40 anos mais velho e homem-forte do antigo primeiro-ministro e magnata italiano durante a ascensão do clube milanês ao topo europeu» («Berlusconi entrega Milan nas mãos da filha Barbara», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 37).
      Em 2010, terminava desta forma um texto no Assim Mesmo: «E justifica-se o hífen neste caso? Não configura um sentido diferente da simples adjunção dos vocábulos “homem” e “forte”? Como entre “braço-direito” e “braço direito”. Está aí a resposta.» Chegou a hora: por sugestão minha, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe agora o vocábulo composto homem-forte: «indivíduo que detém poder real e desempenha uma função de topo no meio em que se move».
[Texto 3599]

Ortografia: «livre-arbítrio»

E talvez não

      «Grande parte da sua base social de apoio indignou-se e aqueles que procuraram manter uma atitude compreensiva recorreram ao argumento da necessidade. Uma tal opção não poderia ser o resultado do exercício autónomo do livre arbítrio de um governante socialista, mas sim a consequência inelutável de uma posição exterior à sua própria vontade. Só um contexto de profunda fragilidade política poderia justificar uma tal abjuração de natureza programática» («Portugal precisa de uma alternativa séria e rigorosa», Francisco Assis, Público, 28.11.2013, p. 50).
      É muito comum ver-se mal grafado o vocábulo «livre-arbítrio», mesmo em obras revistas. Contudo, Francisco Assis, licenciado em Filosofia e professor, há-de ter lido a palavra mais vezes do que muitos de nós. Está nos dicionários, embora não seja sem alguma surpresa que confirmo não estar registada no Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves.
[Texto 3598]

«Badamecos do MEC»

É assim que se fala?

      «Esta prova [prova de avaliação de conhecimentos e capacidades], depois de se conhecer a matriz divulgada, deixou de ser apenas uma iniquidade para também passar a ter de se considerar uma idiotice chapada. Percebe-se que Grancho precise de um qualquer argumento para justificar a tal coisa a que dá o nome de ordem, que é reclamada pela sua associação; percebe-se que o funcionário das finanças que dirige o MEC necessite de um argumento para afastar mais professores do emprego, afastando-os da própria profissão. Mas o que também toda a gente percebe é que os docentes que estão devidamente habilitados científica e profissionalmente, que são avaliados anualmente, que obtêm menções de Bom e superior, que veem renovados os seus contratos por reconhecimento da qualidade do seu trabalho, não têm de provar nada aos badamecos do MEC, ou seja a quem for» («Professores provam todos os dias o que valem!», Mário Nogueira, Público, 28.11.2013, p. 51).
[Texto 3597]

Léxico: «bandana»

O pipi de Eliza Doolittle

      «O Henry [Holland]», diz Eliza Doolittle, «é mais que um estilista, é um criador. Ele foi pioneiro nas coleções com bandanas. E foi incrível» («“Não mostro mamilos nem o pipi”», Metro, 26.11.2013, p. 8).
      Outra novidade: bandana. É, pode ler-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o «lenço colocado à volta da cabeça, passando pela testa, que é utilizado como adorno». A minha filha usou algumas durante o Verão, mas a mãe dizia que eram fitas e, para mim, eram lenços. Vem do francês. Quanto a Eliza Doolittle, será que ela disse mesmo o equivalente a «pipi»? Li que disse: «My rule is no nipples, no nunny.» Eu até pensava que se escrevia «nanny», como já tenho lido.
[Texto 3596]

«Torá» ou «Tora»?

Vendo bem

      «Mais tarde, os rabinos e outros eruditos judaicos criticaram os cristãos por usarem livros em códice (ou seja, com cadernos de folhas coladas e uma lombada, como os nossos livros modernos) em vez de usarem livros em rolo. A razão da crítica era que os padres da nova igreja podiam comparar facilmente o que se passava no primeiro e no último livro da Torá, pois bastava saltar de uma página para a outra, coisa que era muito difícil num rolo, por ser necessário enrolar e desenrolar de novo. Os sábios da religião antiga eram por isso submetidos a exercícios de memorização que os adeptos da nova religião poderiam evitar, e por isso os primeiros criticavam os segundos em termos semelhantes ao que usam as pessoas que fazem cálculos de cabeça (ou no papel) em relação às que recorrem à calculadora no telemóvel» («Tela ou janela?», Rui Tavares, Público, 27.11.2013, p. 54).
      Parece coisa simples, mas se soubessem o que é preciso para convencer os autores portugueses a não usarem Torah... Torá é também como eu escrevo, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e não é o único, regista Tora. No que procederá bem, pois também Rebelo Gonçalves é assim que grafa. Na verdade, assim: Tora. Com uma variante, Toura, que se lê, por exemplo, nas Lendas e Narrativas, de Herculano.
[Texto 3595]

Em todas as línguas

O que é que o nariz

      Por onde quer que passemos, vemos a língua desvirtuada. Mesmo quando não é a nossa, incomoda. Agora mesmo, vi, ao fundo da minha rua, na parede exterior de um cabeleireiro destes finos que pululam agora (é da crise), um autocolante que anunciava «bruschings» a 54 euros. Ontem, a minha mulher comprou um par de meias-calças (colãs, se insistirem) para a minha filha. Não numa dessas retrosarias que havia e agora não há em todas as ruas aqui em Benfica, mas numa loja de chineses. Na etiqueta (ah, sim, têm etiqueta), lia-se «fashion pantynose».
[Texto 3594]

Da importância das marginálias

E vamos tentando

      «Apesar de não ser muito usado, este volume [dos Lusíadas, depositado no Harry Ransom Center (HRC)] pode ser de extrema valia para várias áreas de investigação. Afinal, como diz o historiador inglês Peter Burke, professor emérito em Cambridge, as marginálias funcionam como uma “evidência da recepção daquilo que o autor emite ao leitor.” Marginálias dos séculos XV e XVI são entendidas, por alguns investigadores, como a primeira forma de hipertexto, de narrativa não linear. Peter Burke defende que as marginálias expressam o que o leitor considera importante, aprova ou desaprova numa leitura» («Camões no Texas», Cláudia Silva, Público, 27.11.2013, p. 33).
      É melhor continuarmos a fazer anotações nas margens dos livros que lemos, e quem sabe se a História não nos lembra daqui a uns séculos, como aconteceu com frei Joseph Índio, carmelita descalço que pode ter assistido Camões no leito de morte e que terá ficado com o exemplar dos Lusíadas que pertencia ao poeta. Claro que também se pode, não da mesma forma decerto, anotar um livro electrónico, mas não é o mesmo. Eu, por exemplo, que leio centenas de textos em PDF, não sou capaz de ler um livro electrónico. Começo, mas desisto. Quero interessar-me, mas desinteresso-me. A última vez foi com o Colecionador de Erva, de Francisco José Viegas. Tive de comprar um exemplar físico, de papel. Talvez me esteja a fazer falta um Kindle.
[Texto 3593]

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