Sobre «inteligência»

Melhor do que интеллигенция

      «Nunca nenhum deles percebeu que um partido exigia dinheiro: dinheiro para sedes, para funcionários, para telefones, para carros, para propaganda. Pertenciam na maior parte à “inteligência” urbana (à universidade, ao funcionalismo, às profissões “liberais”), não sabiam onde ficava Figueiró dos Vinhos e traziam como toda a bagagem meia dúzia de “ideias”, que não se distinguiam nem pela originalidade, nem pela pertinência. Ao fim de pouco tempo, de umas conversas na “net” e de umas fotografias nos jornais (raramente conseguiam chegar à televisão), arranjavam maneira, quando arranjavam, de se apresentar a eleições que perdiam miseravelmente ou de que extraíam, como o Bloco, uns lugares na Assembleia da República, para vociferar às “massas”» («As fantasias do costume», Vasco Pulido Valente, Público, 24.11.2013, p. 56).
      Parece ser — não liguem às aspas — o que se costuma designar com um termo russo transliterado, intelligentsia, que é o conjunto de intelectuais de um país. Ainda não vejo esta acepção nos dicionários.

[Texto 3576]

Léxico: «umbiguista»

Ele é assim

      «Herman é Herman. Por vezes, blasé, por vezes aburguesado, por vezes, umbiguista, mas sempre interessante na forma como cavalga a atualidade, mordaz na forma como constrói as suas personagens, certeiro na escolha dos atores que chama para si» («O fim de um ciclo», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 22.11.2013, p. 52).
      Está apenas, tanto quanto pude comprovar, no Aulete: «contemplativo, indolente, que leva a vida a olhar para o próprio umbigo». Já o vi em autores portugueses.
[Texto 3575]

Como se escreve nos jornais

«Seria aqui que seria»?

      «Seria aqui que Carlsen seria “descoberto” por Simen Agdenstein, o seleccionador norueguês, que na sua época chegara a integrar o top 50 mundial e que, curiosamente, também pertencera à selecção principal de futebol» («Aos 22 anos, Magnus Carlsen é o novo campeão mundial», Jorge Guimarães, Público, 23.11.2013, p. 49).
[Texto 3574]

Avaliação dos professores

Zeros na composição

      «Aquela é também a posição do presidente da Associação Nacional dos Professores Contratados (ANVPC), César Israel Paulo. Diz que é uma prova que consta de “rasteiras”, “baseada numa lógica matemática que não é dominada por excelentes professores”. Também teme que a obrigatoriedade de respeitar o novo acordo ortográfico resulte em zeros na composição» («Modelo da prova de avaliação para professores causa indignação», Bárbara Wong e Graça Barbosa Ribeiro, Público, 23.11.2013, p. 7).
      É também a minha previsão. Mas Paulo Guinote tem uma estratégia: «“Um conselho: na composição não usem palavras difíceis, nada que levante dúvidas em relação à forma como se escreve segundo o Acordo”, oferece Paulo Guinote, autor do blogue Educação do Meu Umbigo e professor de História. Diz que aquela é a única dificuldade que a prova, “completamente apatetada”, pode levantar. Sobre o exemplo da composição, garante que já pediu “coisas mais difíceis aos alunos do 9.º ano”; em relação a algumas questões de escolha múltipla afirma que está em causa “um nível de literacia funcional exigível a crianças do 6.º ano”.» Não usar palavras difíceis... Isso é se os professores soubessem quais são essas palavras difíceis. Aquela professora, com vinte anos de ensino, que numa acção de formação sobre o novo acordo ortográfico escreveu, segura de si, «adatando-os», não superaria essa prova elementar.
[Texto 3573]

«Decisão sobre a sorte»

Cá está

      O Presidente da República sobre a demissão do director nacional da PSP: «Já hoje de manhã tive ocasião de falar sobre esse assunto. É uma competência exclusiva do Governo a decisão sobre a sorte do Sr. director nacional da PSP.» Cá está um claro sinal dos tempos de pré-ditadura denunciada ontem. É como se pertencesse ao Governo o poder discricionário de degredar o director nacional da PSP para as Berlengas (coitadas das lagartixas-de-bocage) ou pendurá-lo pelos pés do Arco da Rua Augusta.
[Texto 3572]

Auto-retrato de Chateaubriand

Ainda para lá dos Pirenéus

      «Propre à tout pour les autres; bon à rien pour moi: me voilà.» Não é um enigma, é antes o auto-retrato de Chateaubriand. Parece uma frase muito simples, compreensível. Será igualmente fácil de traduzir? É o desafio que lanço aos bons leitores do Linguagista.
[Texto 3571]

Sobre «vernissage»

Mais francês

      Este caso faz lembrar o que aconteceu com a expressão «a partir de». Trata-se da inauguração de uma livraria. No original, é a vernissage, extensão de sentido de um sentido figurado. O tradutor optou por não encontrar uma equivalência em português. Se formos consultar o Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, não regista esta extensão de sentido, limitando-se ao sentido figurado: «dia de abertura de uma exposição; inauguração de uma exposição».
[Texto 3570]

Tradução: «plat à emporter»

Pois é

      Estava tudo emporcalhado, com «les boîtes de plats à emporter» a juncar o chão. E agora, como traduzir? Para muitos tradutores, o melhor é traduzir para inglês, até porque quase ninguém reclama nem acha inconcebível. «Comida comprada no takeaway»! No entanto, vou até à Estrada de Benfica e encontro meia dúzia (fecharam muitos, ultimamente) de restaurantezinhos com um letreiro na montra em que se lê «Comida para fora». E os donos serão, tenho a certeza, semianalfabetos.
[Texto 3569]

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