Um AO à medida

À catanada

      «Turistas europeus, sul-africanos e zimbabweanos estão a cancelar as suas reservas para o final do ano em estâncias turísticas de Gaza e Inhambane, no Sul de Moçambique. O facto é justificado pelos incidentes político-militares que se verificam [sic] nos últimos dias na região centro do país, caraterizados por ataques dos guerrilheiros da Renamo a civis e por confrontos com o exército governamental. Em Vilanculos, província de Inhambane — considerado um dos maiores centros de turismo do país — não foram revelados números globais, mas é certo que trinta reservas, num só estabelecimento turístico, estão comprometidas, pois um grupo de turistas do Zimbabue [sic] já disse, em definitivo, que não virá a Moçambique» («Turistas estão a cancelar viagens a Moçambique», Alexandre Chiure, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 26).
      Quanto a «zimbabweanos» e «Zimbabue», nada a comentar. Já no que respeita à aplicação do novo acordo ortográfico, vê-se que o jornalista se limita a decepar todos os cc e, presumivelmente, todos os pp, sejam mudos ou não. Mas cá também não falta quem escreva «caraterizado» e «caraterística», que, se são variantes, são muito menos usadas. A meu ver, deviam evitar omiti-las nestas palavras. «Facto» é que, graças a muita insistência, já sabem — sem compreender porquê — que não perde o c.
[Texto 3520]

«Antes de se o ver tombar»

Onde é que nós já vimos isto?

      «No ecrã, a limusina de Kennedy fazia a curva da Praça Dealey, com três polícias em motorizadas a abrir caminho para a tragédia iminente, sendo perfeitamente visível o rosto presidencial a sorrir para a multidão que estava na Elm Street, bem como o aceno com a mão, milésimos de segundos antes de se o ver tombar para a esquerda e encostar-se à mulher[,] Jacqueline, antes de esta subir para a longa tampa do porta-bagagens e ser reposta no lugar pelo segurança, ou de se reparar na forte presença do vestido e chapéu da quase viúva, de um cor-de-rosa que enche o ecrã por segundos até os ramos de uma árvore darem por terminado o filme feito por Zapruder com a sua câmara Bell & Howell Zoomatic» («486 fotogramas para Don DeLillo recordar as 500 páginas de ‘Libra’», João Céu e Silva, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 47).
[Texto 3519]

Antes minúsculas

Não merece tanto

      «A audiência, formalmente chamada Conferência de Interessados, durou mais de duas horas e foi conclusiva: Marisa Cruz e João Pinto saíram já divorciados do tribunal e com as responsabilidades parentais para com os dois filhos em comum — Diogo, de 4 anos, e João, de 8 — decididas por acordo entre os pais e homologado por sentença» («João Pinto e Marisa Cruz estão divorciados», Sara Oliveira, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 53).
      Nem a lei lhe dá a honra das maiúsculas — e, se desse, não era razão bastante para fazermos o mesmo.

[Texto 3518]

Tradução: «percutant»

Fere, e muito

      «O mais interessante, [sic!] é o debate entre o jornalista iconoclasta Jean-François Kahn e Marcel Gauchet, sem dúvida alguma hoje o pensador francês com um olhar mais percutante sobre as transformações da política contemporânea, tanto em termos franceses como globais» («A lição francesa», Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 55).
      Será tudo verdade — ou não, porque se trata apenas de uma opinião, mas «percutante» não é português. É francês. Em português, o que percute ou fere é percuciente.
[Texto 3517]

«Coloração rosa intensa»

Dúvidas persistentes

      «A licitação da pedra preciosa, de forma oval e com uma coloração rosa intenso (ver foto), durou apenas cinco minutos, num despique entre potenciais compradores e com o futuro proprietário na sala a manter-se no anonimato» («Diamante rosa ‘vale’ 55,1 milhões de euros», Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 56).
      Então, o adjectivo «intenso» está a qualificar que substantivo? Só pode ser «coloração», o único presente. Coloração rosa intensa.
[Texto 3516]

Ortografia: «Celsius»

Jornalismo científico

      «A não haver travão, o mundo caminha para um aquecimento global, a médio prazo, de mais 3,6 graus Célsius, um valor 1,6 graus mais alto do que foi estimado como limite seguro pelos cientistas» («2013 já tem a marca das alterações climáticas», Filomena Naves, Diário de Notícias, 14.11.2013, p. 30).
      Como parece convicção e não descuido, pois escreveu desta maneira duas vezes, é preciso dizer: Celsius não tem acento.
[Texto 3515]

Uma letra a mais

E é outra coisa

      «A história das centenas de cartas inéditas trocadas entre Camilo Castelo Branco e o amigo de infância, Carlos Ramiro Coutinho, visconde de Vouguela, agora publicadas em Camilo Íntimo (Clube do Autor, 378 págs.), é um enredo que exigiria deliberação a Calisto Elói Barbuda, o inocente morgado de província, corrompido pelos costumes da capital, no clássico A Queda de um Anjo» («As cartas perdidas de Camilo», Sílvia Souto Cunha, Visão, 1.11.2012, p. 110).
      Que diria neste caso o autor do tal blogue «político»? Talvez que a jornalista devia ter mais cuidado. É verdade que, mais à frente, é Ouguela — o correcto — que se lê, mas esta é a primeira ocorrência, e no leitor que desconheça de quem se trata fica a dúvida. E mais: terá tido Camilo apenas este amigo na infância? Bem, algo certo, para contrabalançar: «Este tesouro camiliano inédito faz, igualmente, um vívido retrato da sociedade da época, e das convulsões sociais e políticas; nomeadamente, a conspiração que levou Ouguela à prisão, que pretendia afastar os Braganças do poder e destituir D. Luiz I.»

[Texto 3514]

Léxico: «betetista»

É só esperar

      «Mesmo assim, o livro [A Gloriosa Bicicleta, Laura Alves e Pedro Carvalho. Lisboa: Texto Editores, 2013] distingue autóctones, betetistas, carapaus de corrida, hipsters de roda fixa e salteadores urbanos» («Bicicletas. Tudo o que tem de saber para se fazer ao piso com estilo», Ana Tomás, i, 13.11.2013, p. 33).
      Para levar a sério, só o «betetista», que leio com frequência e ainda não chegou aos dicionários gerais da língua.
[Texto 3513]

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