Com «tacto» mas sem cuidado

Estão com medo

      E daí... «Dois exemplos, ainda que de natureza diferente. O primeiro é a discussão mediática que se gerou com a entrevista de Margarida Rebelo Pinto a propósito da contestação à austeridade. Vivemos num país democrático em que qualquer um é livre de exprimir a sua opinião. E nós somos livres de discordar dela. Discordemos então, mas não amordacemos o mensageiro. Querem que vos diga o que penso? Foi um tremendo disparate e uma enorme falta de tacto» («O rastilho e a bomba», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 10.11.2013, p. 52).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o que vemos é que «tacto» perde o c; o «Vocabulário de Mudança», do ILTEC, não diverge, e até acrescenta: «tacto não é usado em Portugal». Os antiacorditas, é claro, afirmam que é uma incoerência que «tacto» perdesse o c e «intacto» e «contacto» não. Incoerência? Nada disso. Ah, sim, também eu sou contra o Acordo Ortográfico de 1990.

[Texto 3496]

Como escrevem os políticos

E mai’ nada

      «Num dos materiais de apelo ao voto dos militantes alfacinhas, Pedro Rodrigues dizia que “o PSD deve rejeitar a ideia de que as respostas à actual crise se encontram numa neutralidade axiológica vinculada à ortodoxia financeira ou à tecnocracia, num consenso vazio ou em compromisso sem solidez e substância”. A Vespa ficou estonteada com tanta substância e profundidade. Ufa...» («Um douto candidato à distrital de Lisboa», Diário de Notícias, 10.11.2013, p. 13). 
      A Vespa e nós, ora essa. A palavra de ordem do candidato é «devolver o PSD às pessoas». A minha parte — eu sou altruísta — podem dá-la ao meu vizinho.
[Texto 3495]

E o singular é?...

O mundo às avessas

      «“Sefiró” — remonta a Sefer Jezirah e significava “algarismo”. Na cabala, é o nome dado às emanações de Deus. Os sefirós são 10 e a cada um corresponde um nome divino» (O Livro das Maravilhas, Carlos Vale Ferraz. Lisboa: Editorial Notícias, 1999, p. 238).
      É a segunda vez, tanto quanto me lembro, que vejo esta palavra assim aportuguesada; habitualmente, é sefirot ou sephiroth — plural de sefira ou sephira — que se vê. Para o autor, porém, o singular é «sefiró». Se aportuguesamos, é claro que num vocábulo desta natureza o plural se faz por simples acrescentamento do s. Mas formar o singular com base no plural?
[Texto 3494]

Tradução: «sesto»

Mistério

      No Dicionário de italiano-Português da Porto Editora, podemos ver que à palavra italiana sesto fazem corresponder a palavra portuguesa — portuguesa? — «cintro». Nunca vi tal. Claro que não está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Gralha ou invencionice? Sesto é o nome que em italiano se dá à linha curva do intradorso do arco. No caso, porém, da tradução que estou a ler, não se trata de um arco, mas de paredes que terminam nesses elementos arquitectónicos.
[Texto 3493]

Tradução: «soletta»

Mestre-de-obras

      «La terra era un grande rettangolo delimitato da quattro immense pareti che sostenevano due strati di volta celeste: sul primo brillavano le stelle e nella intercapedine, o soletta, vivevano i Beati.» Sim, Umberto Eco em «La Forza del Falso». Mas soletta não corresponde, como acabo de ler, em português, neste contexto, a «soleta» (como em italiano, temos, entre outras que nunca constam dos dicionários, a acepção de «palmilha»). Demasiado simples — e falso. Intercapedine pode traduzir-se por «desvão» ou «forro», e soletta talvez por «laje». Será?
[Texto 3492]

«Exame ADOC»!

E o Teatro Adoque

      «“O meu primeiro dia de trabalho foi com o Vasco Morgado (o pai). O percurso foi muito simples: fiz o liceu, o exame ADOC, porque queria trabalhar de dia e estudar à noite, depois entrei para o conservatório de teatro e cinema. Entretanto, soube que havia casting para um espetáculo de variedades com o Carlos Avilez e lá fui. Tinha 18 anos”, recorda o ator [Rogério Samora]» («“Continuo a ter medo de que ninguém se lembre de mim”», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 10.11.2013, p. 53).
      Demasiado nova para saber ou demasiado desleixada para investigar? Responda quem souber. É exame ad hoc que se diz, cara Ana Lúcia Sousa, exame ad hoc.
[Texto 3491]

Léxico: «plúrimo»

Perdeu-se o verbete

      Plúrimo. Vem directamente do latim e é usado sobretudo em Direito. Talvez faça também falta à poesia e, sei lá, aos críticos literários. Fernando Pessoa foi um poeta plúrimo. Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3490]

Léxico: «ciclopatrulha»

Esta é nova

      «Entre 2012 e 2013, os 61 agentes das ciclopatrulhas fizeram em Lisboa 32 detenções, 39 identificações e passaram 1956 multas» («Polícias com muita pedalada no combate ao crime em Lisboa», Luís Fontes, Diário de Notícias, 10.11.2013, p. 20).
[Texto 3489]

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