«Está bem, abelha»

Como quem manda à merda

      Acabei de ler a expressão, que não ouvia nem lia há muito, e lembrei-me que Cardoso Pires a usou várias vezes nas suas obras. «Sorriso maldoso do inspector. Óculos escuros é com ele, mas em tecnicolor polaroid. No entanto faz-se desentendido; pensa: Está bem, abelha. E recosta-se na cadeira. Tem a ordem de captura à mão de assinar mas quer ouvir primeiro, saber opiniões. Opiniões? Elias não há meio de entender por que diabo aparece o mangas da secretaria metido naqueles expedientes. Conselheiro chamado de aflição para os devidos efeitos?» (Balada da Praia dos Cães, José Cardoso Pires. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010, 17.ª ed., p. 136).
[Texto 3171]

«Período compulsivo»

Também foi

      «“Entendeu-se que [o palacete] era ideal para albergar sindicatos e uma cooperativa, a Cooperativa de Produção e Consumo Proletário Alentejano”, recorda Valverde Martins [antigo coordenador da União dos Sindicatos do Distrito de Beja]. Sem conseguir precisar a data da entrada na casa, recorda ter sido “no período compulsivo a seguir ao 11 de Março”» («“Sentíamos repulsa por eles. Quando me entregaram a chave da casa senti que era justo”», Vanessa Rato, Público, 11.08.2013, p. 12).
      Pois, foi isso que disse Valverde Martins, e a jornalista, mesmo vendo que está incorrecto, que é um lapso manifesto, deixa tal qual. Mas sim, também foi um período compulsivo para alguns, como os grandes proprietários, os latifundiários, alguns militares que não sabiam exactamente o que estavam a fazer, porque nada lhes era explicado ou eram enganados...
[Texto 3170]

«Deo optimo maximo»

É o que cada um quiser

      O português Pedro Paulo, barman a trabalhar no Hotel One Aldwych, em Londres, ganhou um dos mais importantes concursos de cocktails do mundo, o UKBG National Cocktail Competition, patrocinado pelo licor francês Bénédictine. O nome da bebida que preparou, One DOM, é também uma mistura: do nome do hotel e da divisa dos Beneditinos, Deo optimo maximo, mas que normalmente só é conhecida pela abreviatura D. O. M., inscrita nas garrafas daquele licor. «A Deus, que é muito bom e muito grande» é uma das possíveis traduções. Para Pedro Paulo, porém, é antes «Para Deus, para os mais corajosos, para os mais audazes».
[Texto 3169]

Ortografia: «antiestalinista»

Por antonomásia

      «Isso custou-lhe inimizades internas. “Sempre fui profundamente anti-estalinista e tive alguns problemas com o partido por causa disso. Estive nitidamente a favor da insurreição de Praga e escrevi contra a invasão dos tanques soviéticos, das barbaridades que se fizeram. Eu era a favor da Primavera, do chamado socialismo de rosto humano”, disse, afirmando-se seguidor do panteísmo e depois de assegurar que, enquanto dirigente do PCP, sempre separou a escrita da militância» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, p. 3).
      Cara Isabel Lucas: anti-Estaline, mas antiestalinista. Parabéns, porém, pelo «partido» minúsculo e não, como se vê demasiadas vezes, maiúsculo, «Partido».
[Texto 3168]

«Haveria de»

Mais e sempre avarias

      «E [o escritor Mário de Carvalho] salienta a “fábrica da escrita”, ou seja, o processo criativo torrencial de um escritor que leu muito cedo. Uma Pedrada no Charco (novela de 1957), Os Bastardos do Sol (1959) ou de haveria de ler Histórias Alentejanas (1977). [...] A sua referência moral e política haveria de ser Álvaro Cunhal, mas o militante do Partido Comunista fazia questão de vincar a sua oposição ao regime de Estaline» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, pp. 2-3).

[Texto 3167]

Sobre «réstia»

Sempre a piorar

      O nosso sistema tributário, afirma o autor e com verdade, «não tem réstia de racionalidade». Ora cá está mais uma falha de todos os dicionários actuais. Réstia, neste sentido, é o mesmo que resto ou resquício. Mas já esteve nos dicionários antigos. Será que do feixe de luz que passa através de orifício ou abertura estreita os falantes chegam lá?
      «Vasco hesitou, mas os anos e as traições sucessivas tinham-lhe retirado aos poucos qualquer réstia de pudor. Por isso, levou consigo a paulista embaraçada mas muito direita, a provar que há sempre um recomeço» (Rio da Glória, Possidónio Cachapa. Lisboa: Oficina do Livro, 2006, p. 264).

[Texto 3166]

«Amor a...»

Sintaxe histórica

      «Ainda naquele dia [Urbano Tavares Rodrigues] falou também do amor por Ana Maria, a actual mulher. E de um ou outro amuo com Cunhal, da desilusão com o actual estado do país, do desprezo aos políticos, da noção de que esta esquerda pode pouco. Cruzou o presente com o passado» («O homem que via os deuses ao lado», Isabel Lucas, Público, 10.08.2013, p. 3).
      Bom e mau em duas curtíssimas frases, e tudo, estranhamente, sobre a mesma questão: regências, e a mesma regência, aliás, sobre disposições de ânimo. O § 206 (p. 158, ou 157 na 2.ª ed.) da Sintaxe Histórica Portuguesa, de Epifânio da Silva Dias, diz tudo.
[Texto 3165]

Outro Chagas

Também para ler

      «O Diário de João Chagas, publicado postumamente depois do “28 de Maio”, é um dos melhores livros de memórias políticas de uma literatura que não se distingue no género. Chagas tinha sido um dos participantes na tentativa de revolução em 1891, degredado para África, exilado e revolucionário do “5 de Outubro”, além de ser também, e até ao fim, um admirável escritor (que hoje, evidentemente, ninguém lê)» («A desilusão», Vasco Pulido Valente, Público, 9.08.2013, p. 52).
      Ainda no dia 5 eu aqui escrevia que ninguém se lembrava de Pinheiro Chagas, mas afinal há uma ou duas pessoas que lêem a sua obra. Agora vem outro membro da família, também, é dos genes, um admirável escritor. Difícil é encontrar os quatro volumes do Diário.
[Texto 3164]

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