«Prujedicar»!

O exagerado Alberto

      «“O comportamento do investimento é muito preocupante sendo no entanto que o investimento no primeiro trimestre deste ano é adversamente influenciado pelas condições meteorológicas nos primeiros três meses do ano que ‘prujedicaram’ a actividade da construção.”
      O conteúdo desta afirmação recente do ministro das Finanças causou farta indignação e galhofa. Infelizmente, a forma passou incólume. Nem falo da sintaxe atabalhoada e das redundâncias. Mas o recurso ao misterioso verbo “prujedicar” mexe comigo. O verbo está longe de ser uma especificidade de Vítor Gaspar: pelo menos no radioso universo televisivo a coisa tornou-se, ignoro desde quando ou porquê, omnipresente. O clima “prujedica”, as políticas “prujedicam”, as greves “prujedicam”, a austeridade “prujedica”. Tudo isto perante a indiferença geral e, o que é um bocadinho pior, a participação geral no disparate. Governantes, oposicionistas, romancistas, jornalistas, académicos e personalidades diversas convergem no acto de “prujedicar” o léxico sem piedade» («Ordem, mentiras e progresso», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 23.06.2013, p. 55).
[Texto 3011]

Outrora português

Agora fala-se e escreve-se assim

      «O facto de haver sistematicamente promoções alterou o padrão de consumo. Temos que equacionar dois dados: por um lado, esta oferta, por outro lado, o facto de as pessoas estarem cada vez mais focadas no preço. As opções do consumidor têm a ver com a variável preço» (Mafalda Ferreira, investigadora do IPAM, Instituto Português de Administração de Marketing, no Telejornal, 22.06.2013).
[Texto 3010]

«Statu quo»

O mesmo e o outro

      «Seara garante não estar a afrontar o poder judicial, mas anunciou o recurso para o Tribunal Constitucional. Diz que não tem dúvidas, como jurista e como professor de Direito, de que tem legitimidade para ser candidato» («Fernando Seara confirmou candidatura à Câmara de Lisboa», Pedro Benevides, Telejornal, 22.06.2013).
      Entre muitos gestos teatrais, foi perorando o candidato: «Quem pretender manter o status quo da ineficiência, do partidarismo, da instrumentalização do município para outros fins, designadamente para a construção de pequenos e grandes percursos políticos, aplaudem [sic] este acórdão e desejam [sic] que o mesmo seja mantido pelo Tribunal Constitucional.»
      Deve ser também como jurista e como professor de Direito que erra na expressão latina. E claro que não podia faltar o grande esteio do discurso actual, «o mesmo». Só costuma variar em género e número.

[Texto 3009]

«Por arrasto»

Acho eu

      «Na altura, falou-se da necessidade de não aceitar um “estado de chantagem assumida” e temeu-se que a Rússia se aproveitasse da inércia dos EUA e, por arrastamento, dos seus aliados. Foi neste contexto que Kennedy, a 26 de Junho de 1963, disse em alemão que também ele era um cidadão de Berlim. Porque, quando a liberdade é ameaçada nalgum lugar do globo, é-o também em todo o mundo e, por isso, ninguém está salvo» («“Ich bin ein berliner”», Gonçalo Portocarrero de Almada, Público, 22.06.2013, p. 54).
      Só conheço e apenas vejo dicionarizada a expressão «por arrasto», que, aliás, não deve ser muito antiga. E não seria melhor escrever-se «ninguém está a salvo»?
      «Carlota estava a salvo da perseguição; sozinha com o seu amor, que ninguém lhe impugnava; nutrindo-o com saudades na solidão do claustro» (Carlota Ângela, Camilo Castelo Branco, 1858).

[Texto 3008]

Tradução: «paddock»

Querem ver que não tem tradução?

      «Junto às cavalariças foi construído um paddock para aquecimento dos cavalos» («Já se fazem passeios a cavalo junto do Chalet da Condessa d’Elba», Alexandra Prado Coelho, Público, 22.06.2013, p. 34).
[Texto 3007]

«À vista desarmada»

À l’oeil nu

      «E há um melhor momento para olhar para a Lua? “O mais interessante vai ser observar [a olho nu], logo que a Lua aparece acima do horizonte [ou seja, logo ao pôr do Sol]”, diz, fazendo referência a um conhecido efeito psicológico que faz com que a Lua nos pareça (ainda) maior quando está mais próxima do horizonte» («Céu oferece uma super-lua cheia em noite de festa de São João», Andrea Cunha Freitas, Público, 22.06.2013, p. 31).
      Será mesmo um efeito psicológico, têm a certeza? Não será antes um efeito óptico? No sítio do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), diz-se mesmo que é um «efeito cerebral». Está bem.

[Texto 3006]

«Quando muito»

Posso continuar a repetir-me

      «Para melhor observar o fenómeno, basta abrir os olhos, não há nenhuma dica especial. “Aliás, nem é recomendável observar a lua cheia com telescópio, porque fica demasiado brilhante e encandeia quem observa. Como esta até será mais brilhante do que o normal, é recomendável não observar com telescópio. Quanto muito, podem observar com binóculos”, avisa Ricardo Reis [do CAUP, Centro de Astrofísica da Universidade do Porto]» («Céu oferece uma super-lua cheia em noite de festa de São João», Andrea Cunha Freitas, Público, 22.06.2013, p. 31).
      Já vimos mais de uma vez que está errado, só pode ser confusão. É uma expressão quantitativa e escreve-se quando muito, ou seja, «no máximo».
[Texto 3005]

Ortografia: «superlua»

Não chama nada

      «O fenómeno não é raro, mas não é por isso que deixa de ser especial. A cada 413 dias (praticamente um ano e dois meses), a lua cheia coincide com o ponto de maior aproximação da Terra (o perigeu), e o resultado é o que se chama uma super-lua cheia» («Céu oferece uma super-lua cheia em noite de festa de São João», Andrea Cunha Freitas, Público, 22.06.2013, p. 31).
      Já tínhamos visto aqui — e basta pensar — que a ortografia só pode ser superlua, e é a que ficou agora registada, por sugestão minha, é verdade, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Texto 3004]

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