«Micro-Becquereis»!

Ora, ora, que temos aqui?

      «Ou em proporção ainda maior: a sua roupa interior apresentava níveis de polónio-210 de 180 micro-Becquereis (unidade de medida da radioatividade) enquanto um valor de controlo registou 6 microBequereis» («Palestinianos querem provar assassínio de Arafat», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 5.07.2012, p. 22).
      Isto é deveras impressionante! Como é que numa curta linha o jornalista escreveu o nome da unidade de duas formas? E, para mais, as duas erradas. Apesar de derivar de um nome próprio, escreve-se com minúscula: becquerel. O símbolo é que é com maiúscula: Bq. Logo, sendo com minúscula, não precisa de hífen: microbecquerel. E, por fim, o plural é becquerels, não becquereis.
[Texto 1764]

«Gigaelectrãovolt»!

Não pode ser

      E hoje o mesmo. Dois dias seguidos. Como é possível que a jornalista julgue possível escrever dessa forma a palavra? Gostava de conhecer a explicação. «Tem razão, Helder Guégués. Foi o velhaco do paginador que me fez isto. Veja lá!»
      «A existência desta nova partícula, encontrada numa zona de massa entre os 125 e os 126 GeV (gigaelectrãovolt), condiz com o que se esperava do bosão previsto por Higgs» («Confirmar que é o bosão de Higgs pode levar anos», Filomena Naves, Diário de Notícias, 5.07.2012, p. 26).
[Texto 1763]

Desgraçado verbo «entreter»

Grande tourada

      Sérgio Sousa Pinto, deputado do PS, esta tarde no Parlamento: «A única coisa que me perturba é que tratando-se a tourada de uma tradição milenar não se insinua no espírito dos deputados do Bloco de Esquerda e dos Verdes a mais pequena dúvida. Para eles, é manifesto que a tourada, exercício milenar, é um desporto que ocupou e entreteu selvagens e bárbaros durante centenas de anos.»
      «E por desfastio, como quem devaneia ao acaso, entreteve-se com estas invenções mais ou menos estapafúrdias: transformou a cabeça em esfera armilar, fez crescer asas de borboletas nas orelhas, enfeitou os dedos de bandeirinhas, etc., etc.» (As Aventuras de João Sem Medo, José Gomes Ferreira. Lisboa: BIS/Leya, 2011, 3.ª ed., p. 60).
[Texto 1762]

Tudo italiano

Já é descuido

      «O dono da escudaria italiana respondeu que sim, senhor, mas para isso o dono da Ferrari teria de deslocar-se a Turim, à Pininfarina. Foi preciso a intervenção de Sergio Pininfarina para o impasse se resolver: um encontro em terreno neutro, num restaurante em Tortona, a meio caminho entre Modena (Ferrari) e Turin (Pininfarina). E a ligação entre as duas casas italianas durou até hoje» («Mundo automóvel diz adeus ao pai do ‘design’», Ana Marcela, Diário de Notícias, 4.07.2012, p. 32).
      Ana Marcela não nos lê — e não deve ter pena. Só nós, leitores do Diário de Notícias, é que o lamentamos. E donde vem aquele a de «escudaria»? Do étimo — scuderia — não é de certeza. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «escuderia». Vimos aqui que se escreve Módena. «Turin» só no desleixo encontra explicação.
[Texto 1761]

«De resto»

Atirado ao muladar

      Já aqui agitou um pouco os ânimos: «— De resto — Eis aí uma locução que se atirou para o muladar das coisas inúteis por cheirar a francês. Mas milheiros de exemplos clássicos há que a absolvem da pecha que lhe assacam. Vou citar dois apenas e de mestres de polpa, que valem por todos os demais: “De resto, a agitação é sinal de vida”. (Machado de Assis: A Semana, 181). — “De resto, é uma circunstância esta pouco importante”. (Castilho: Obras, 55.º, 130)» (Canhenho de Português, P. José F. Stringari. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961, p. 65).
[Texto 1760]

«Gigaelectrãovolt»?

Agora é tudo pegadinho?

      «Os dados de dezembro da ATLAS e CMS mostraram pela primeira vez “um excesso de eventos” nas colisões de partículas realizadas a níveis de energia da ordem dos 126 gigaelectrãovolt (GeV) – a ATLAS – e 124 GeV (a CMS), o que poderia ser um sinal da presença do bosão Higgs naquelas zona de energia. [...] Nos últimos meses de trabalho, desde então, as equipas das duas experiências conseguiram duplicar os dados de dezembro, e a energia das colisões passou de 7 TeV (teraeletrãovolt) para 8 Tev» («O ‘dia D’ da ‘partícula de Deus’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 4.07.2012, p. 27).
      Deve haver alguma convicção da jornalista nisto, pois mais abaixo, num texto de apoio, lê-se: «É no Large Hadron Collider (LHC), que faz colidir protões (partículas que integram o núcleo dos átomos) a um nível de energia nunca antes atingido por uma máquina na Terra – 7 teraelectrãovolt (TeV) no ano passado, e 8 TeV já este ano –, que os físicos tentam descortinar o famoso bosão, que foi previsto em 1964 pelo físico Peter Higgs, que hoje estará presente na conferência no CERN.»
[Texto 1759]

Sereias alemãs

Tudo igual

      «Várias mulheres ativistas do grupo People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) vestiram-se ontem de peixes e deitaram-se no meio da rua em Dusseldórfia, na Alemanha, enroladas numa rede de pesca. No cartaz pode ler-se “A pesca dói”» («Sereias protestam contra a pesca com redes de emalhar de deriva», Diário de Notícias, 3.07.2012, p. 27).
      Redes de emalhar de deriva... Nunca tinha lido nem ouvido. E em alemão? Treibnetzen. E «sereia» — tanto o ser lendário como o sinal sonoro — em alemão é Sirene. Prefiro o português.
[Texto 1758]

Aprender a contar até um milhão

Agora sim

      «Por exemplo, no ano que corresponde à minha 3. ª classe de há muito tempo os alunos têm de aprender a contar até um milhão. Muito bem, está certíssimo. Mas nesse mesmo ano letivo em que têm de perceber uma coisa tão básica também têm, e passo a citar, de “identificar uma esfera como a reunião de uma superfície esférica com a respetiva parte interna”» («Nuno Crato vai criar uma data de génios», Pedro Tadeu, Diário de Notícias, 3.07.2012, p. 7).
[Texto 1757]

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