«Indispensável/”nécessaire”»

Amor da língua

      «Assim era que levava a melhor parte dos dias flanando, sempre com um romance do Querido — espécie de Zola holandês — no indispensável, um depósito de côdeas de queijo, pedaços já secos de pão com passas de Corinto, na algibeira a que ela recorria — chamando-lhe o seu Entrepôt-dok ou porto franco — sem a menor cerimónia, fosse onde fosse, para meter na boca o primeiro bocado que topava» (Novelas Eróticas, M. Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, s/d [mas de 1961], 2.ª ed., pp. 25-26).
      Agora vejam: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a acepção: «antiquado saquinha ou maleta de senhora para transportar objectos de uso pessoal». E no mesmíssimo dicionário, também está o termo francês nécessaire: «bolsa ou estojo para guardar objectos de uso pessoal ou de toilete».
[Texto 1732]

Assim se escreve nos jornais

Nada de novo

      Ainda me enganaram durante cinco minutos. No Correio da Manhã lê-se que Eusébio tem estado internado no «Hospital Odozial Ratunkowi, em Poznan». Trapalhada. Szpitalny Oddział Ratunkowy — é assim que se escreve — significa «urgência hospitalar» em polaco. Como é natural, há urgências em vários hospitais. O Pantera Negra, que devia ter ficado em casa, está internado no Wielospecjalistyczny Szpital Miejski im. Józefa Strusia (Hospital Municipal Multidisciplinar Jozef Strus).
[Texto 1731]

Assim se fala na Selecção

Sem (mais) comentários

      Em declarações à imprensa, Henrique Jones (nas legendas do Jornal da Tarde de ontem, contudo, lia-se «Enrique Jones»), médico da Selecção, afirmou: «E portanto [os médicos em Poznan] acham por bem que ele deva ser evacuado num avião aeromédico.» E pronto, lá temos o legendarny Eusebio w szpitalu w Poznaniu.
[Texto 1730]

Plural de «campus»

Vejam lá isso

      Não sei quê, tal, «em campus universitários». O plural de campus, porém, é campi. Plural abominável, exclamam certas almas sensíveis. O vocábulo chegou-nos através do inglês, logo, argumentam outros, o plural não se faz como na língua latina. Se consultarmos o Vocabulário Ortográfico Português, lá está: «singular: campus; plural: campus». E depois, na última linha, naquela linguagem alienada de máquina (que Turing me desculpe): «estrangeirismo de latim». Estou esclarecido.
[Texto 1729]

«Moto próprio»

Conforme o mote

      «A história do projeto europeu mostra que a Europa avançou como desafio unitário mais por necessidade do que por mote próprio» («Desafio Europa é desafio global», Nilza Mouzinho de Sena, Público, 25.06.2012, p. 47).
      Já temos visto este erro aqui e ali. Neste caso, é menos desculpável, pois o texto onde aparece é da autoria de uma doutora em Ciências Sociais. Em português, é de (ou por) moto próprio. Em latim, donde provém, é motu proprio­ — sem preposição.
[Texto 1728]

«Aguarda-se conclusões»!

Aguardam-se notícias

      João Adelino Faria no Telejornal de ontem: «Esta reunião de todos os governantes terminou há minutos. Aguarda-se a qualquer minuto, então, as conclusões desta reunião, em domingo, do Governo.»
      Vamos pôr o duque de Palmela a ensinar-lhe como deve ser: «Não se perdeu ainda a esperança de induzir os turcos a retractarem-se das ameaças contidas no seu manifesto, e de ter mão por outro lado na Rússia; e aguardam-se ansiosamente as primeiras comunicações de S. Petersburgo» (Despachos e Correspondência do Duque de Palmela, tomo III, coligidos por J. J. dos Reis e Vasconcellos. Lisboa: Imprensa Nacional, 1854, p. 433 [ortografia actualizada por mim]).
[Texto 1727]

Plural: «néon»

Mehr Licht!

      Não sei quem foi, e talvez nem um rigoroso inquérito fosse concludente, mas não aceitou o plural «néones». Quer «néons». Vá para o Brasil e escreva «neons», o mais aproximado. Rebelo Gonçalves, na segunda coluna da página 704 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa: «néon, s. m. Pl.: néones.»
      «Tudo numeroso: os néones intermitentes, as letras que escorrem dos lumes coloridos, o frio pesado» (Gente Feliz com Lágrimas, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2003, 17.ª ed., p. 332).

[Texto 1726]

Tradução: «watering hole»

No buraco

      O jornalista descrevia então «the trendiest watering holes» daquela cidade. O tradutor, alguém, aposto, como o leitor e como eu, com duas pernas, dois braços e uma cabeça, verteu assim: «descreveu os furos mais em voga». O Dicionário Merriam-Webster, por exemplo, define a locução como «a social gathering place, such as a bar or saloon, where drinks are served».
[Texto 1725]

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