Ortografia: «satiagrahis»

Assim não

      «Salazar nem deu troco e os jornais começavam a falar em surtidas de satriagrais» (Já não Se Escrevem Cartas de Amor, Mário Zambujal. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed., p. 108).
      Até no Boletim Geral do Ultramar ora se lê «satiagrahis» ora «satyagrahis», mas, que diacho!, sempre se percebe do que se trata. Esta grafia desfigura quase completamente a palavra.
[Texto 783]

«Onde/aonde/donde»

Vou para casa

      «A este propósito, a Isabel Amaral contou que o Manoel de Oliveira, intrigado perante tão inusitado êxito [do filme Vou para Casa], perguntou ao Paulo Branco: “Aonde é que a gente errou?!”» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 111).
      Manoel (obriguem-no lá a escrever o nome com u, vá lá) de Oliveira fala assim tão mal? Não acredito. Acho que, se leu o livro, ficou outra vez intrigado.
[Texto 782]

Revisão

Iconic British Luxury Brand Est. 1856

      «Velhos e velhas encasacados nos seus loddens, cor verde-escura, envoltos nos cachecóis axadrezados da Burberrys. Friorentos, estão com mais frio do que o frio que está. Burguesia de cabelos brancos, neta e bisneta de burgueses, anestesiada por décadas de bem-estar» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 24).
      É loden que se escreve, como já aqui vimos a propósito daquele que Freitas do Amaral usava. E, como o título mostra, é Burberry que se escreve. Um entre muitos erros e gralhas nesta quase de certeza falsa 2.ª edição. Fica para a próxima tiragem, ou, se com todos ou quase todos os erros e gralhas corrigidos, quem sabe se 3.ª edição.
[Texto 781]

Sobre formas de tratamento

Você é que sabe

      «Paralelamente, sobre o complicado que são as relações humanas em Portugal, em especial o tratamento entre pessoas, [Antonio Tabucchi] diz-me que somos considerados nesta matéria, depois do Japão, o país cujas regras são as mais difíceis de apreender. Recomenda-me a este propósito o pequeno estudo do Lindley Cintra: Sobre “Formas de Tratamento” na Língua Portuguesa.
      De facto, como explicar a um estrangeiro que se deve tratar o interlocutor que se tem pela frente na terceira pessoa do singular e pelo nome próprio, como se estivéssemos a evocar um ausente! (A solução seria talvez generalizar o emprego do “você” brasileiro, embora suscite anticorpos em muita gente.)» (Diário de Paris – 2001-2003, Marcello Duarte Mathias. Lisboa: Oceanos, 2007, 2.ª ed., p. 260).
      Tão difíceis de apreender, na verdade, que até alguns professores universitários têm dificuldade.

[Texto 780]

Como se fala na televisão

Compara tu


      Diminuíram os levantamentos por multibanco, disse o jornalista António Esteves ontem na 1.ª edição do Telejornal: «O período em análise é a semana de 28 de Novembro a 4 de Dezembro de 2011 e compara com o mesmo período do ano passado.» Já tínhamos visto este modismo, ou má tradução, ou lá o que é, aqui.
[Texto 779]

Ortografia: «brócolos»

Não tenho preferências

      «Anteontem a Maria João e eu fomos almoçar à praia. Comemos cantaris e bróculos. O dia e o mar estavam feios mas não poderiam ser mais bonitos. A minha paisagem favorita foi olhar para ela» («Voltou», Miguel Esteves Cardoso, Público, 7.12.2011, p. 33).
      Também a professora Teresa Álvares, do Ciberdúvidas, preferia que fosse «bróculos», com uma argumentação que não colhe: «Ora, pensando bem, o meu erro que era também o de J. C. B., apontado oportunamente por uma consulente do Ciberdúvidas, nem é assim tão disparatado: se em Italiano «broccolo» deriva de «brocco», a que se acrescentou o sufixo diminutivo -olo(a), e em Português o sufixo correspondente é -ulo(a) (montículo, espátula), porque é que um «pequeno dente saliente» dum certo tipo de couve não se há-de poder chamar bróculo?» A seguir-se este raciocínio, muito estaria errado na língua.

[Texto 778]

Aportuguesamento

Rocha e o tablete

      «Ontem, José Rocha (PTP), fazendo “concorrência” à RTP-M, que transmitiu em directo o discurso de Jardim, tentou gravar as intervenções com um tablete, mas Mendonça ameaçou expulsá-lo do hemiciclo. A sessão foi temporariamente suspensa, depois prosseguiu com José Manuel Coelho a gravar» («Sem transmissão. Parlamento offline há três anos», Público, 7.12.2011, p. 11).
      O texto não está assinado, mas há-de ser da autoria de Tolentino de Nóbrega, que assina o texto principal. Este não passou no famoso crivo que têm lá no Público para os estrangeirismos. Já tínhamos a tablete, que veio do francês, agora passámos a ter o tablete, que vem do inglês.
[Texto 777]

Sobre «no entanto»

Essencial e etimologicamente advérbios

      «Por isso, i.e., por serem essencial e etimologicamente advérbios, é que no entanto, entretanto, contudo e todavia vêm freqüentemente precedidos pela conjunção e: “Vive hoje na maior miséria e (,) no entanto (,) já possuiu uma das maiores fortunas do país.” A ser no entanto simples conjunção, simples utensílio gramatical (conectivo), torna-se difícil a classificação da oração: coordenada aditiva, em função do e, ou adversativa, em função do no entanto? É evidente que não poderá ser uma coisa e outra. A ortodoxia gramatical aconselharia a supressão do e, em virtude de, modernamente, se atribuir a no entanto valor de conjunção. Mas, se se aceita o agrupamento, a oração será aditiva, e no entanto, advérbio, caso em que costuma (ou deve) vir entre vírgulas. O que se diz para no entanto serve para entretanto, todavia, não obstante» (Comunicação em Prosa Moderna, Othon Moacyr Garcia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, 26.ª ed., p. 44).
      A função de conjunção daquelas partículas é relativamente recente na língua portuguesa, posterior ao século XVIII. Na 6.ª edição do dicionário de Morais, de 1856, ainda «porém» e «todavia» aparecem como advérbios.
[Texto 776]

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