Léxico: «edipianismo»

Do glossário psicanalítico


      «Na análise a um romance de um autor de renome da sua época, uma leitura sugerida pelo seu círculo mais próximo, Freud percorre muitos dos temas com que definiu o seu próprio trabalho: o edipianismo, o inconsciente, a interpretação dos sonhos e, como o título o indica, o delírio» («Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen», Carlos Leone, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 53).

[Texto 22 924]

Léxico: «escorrente»

Já que o prometes, Porto Editora


      «Treplicou a Nação uns dias depois, tempo necessário ao mosqueteiro, que estava na capital, para cevar o trabuco com cacos de pote e sal escorrente das salmouras» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 99).

[Texto 22 923]

Definição: «biruta | manga-de-vento»

É hoje


      De cada vez que passava, e passo várias vezes por semana, por uma biruta na A5, fazia uma nota mental para ir consultar o dicionário da Porto Editora para ler a definição. Aconteceu hoje, agora. A definição suscita, à primeira leitura, duas reservas. Por um lado, revela-se excessivamente extensa e descritiva, com pormenores que pouco acrescentam à identificação do objecto. Por outro, ao circunscrever o uso aos domínios da aeronáutica e da meteorologia, e sobretudo nesta ordem, pode levar a supor que se trata de um dispositivo próprio sobretudo de aeródromos e heliportos, quando, na prática, é igualmente comum em vias rápidas e auto-estradas, onde assinala a presença e intensidade do vento lateral. Assim, proponho ➜ biruta METEOROLOGIA, AERONÁUTICA dispositivo indicador da direcção e intensidade do vento à superfície, constituído por um tubo de tecido em forma de cone truncado, aberto nas duas extremidades, fixo pela boca mais larga a um aro no topo de um mastro e livre na extremidade mais estreita, que se distende e orienta com o sopro do vento, sendo usado em aeródromos, vias rodoviárias e outros locais expostos; manga-de-vento. 

      Quanto à etimologia, vem do francês biroute, de origem incerta, possivelmente relacionado com formas dialectais associadas a «tubo» ou «manga» e, por via semântica, à ideia de direcção (cf. route). 

      Em inglês, o dispositivo designa-se windsock, composto transparente de wind, «vento», e sock, «meia», atestado desde o início do século XX no sentido técnico de cone de tecido usado para indicar a direcção do vento. A imagem é evidente: uma «meia» ou tubo de pano que se enche com o vento. Em português, além de «biruta», ocorre a designação «manga-de-vento», igualmente transparente; trata-se de um composto lexicalizado do tipo nome + preposição + nome, que deve grafar-se com hífen. Apesar disso, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «manga-de-vento» (nem «manga de vento») como entrada autónoma, limitando-se a apresentá-la como sinónimo na entrada «biruta».

[Texto 22 922]

Léxico: «burkeano»

O tal erro


      «Edmund Burke (1729-1797) é talvez um dos mais marcantes actores e autores políticos — conjuntamente com Winston S. Churchill (1874-1965) — que expressaram e defenderam o espírito pluralista e não-revolucionário (nem contra-revolucionário) que tem sustentado a democracia liberal do Ocidente (ou, como prefere justamente dizer meu amigo Tim Garton Ash, do Mundo Livre)» («Elogio ‘Burkeano’ das eleições autárquicas», João Carlos Espada, Observador, 20.10.2025, 00h17). 

      Mas então, João Carlos Espada, é referente a Edmund Burke ou não? É? Então, esqueça as aspas. E lá está o adjectivo próprio — que nós não temos, mas do que jornalistas, autores, tradutores apressados se esquecem, se é que sabem. A relevância de Edmund Burke no pensamento político ocidental, como crítico da ruptura revolucionária e defensor do gradualismo e do pluralismo institucional, justifica plenamente a dicionarização do adjectivo «burkeano». 

[Texto 22 921]

Léxico: «chaleira nuclear»

Já fumega


      «António Eloy, coordenador do Observatório Ibérico de Energia e antigo membro do grupo consultivo do Plano Energético Nacional, é perentório: “Não há a mínima hipótese de a energia nuclear, nas suas formas atuais nem nas suas formas imaginárias (fusão e pequenos reatores modulares), ser implementada no nosso país, nem na Península Ibérica, onde está estabelecido um calendário escrito, com as empresas proprietárias das centrais, para o seu encerramento”, afirma, por e-mail. “Em meados da próxima década não haverá produção de eletricidade a partir do aquecimento de água em chaleiras nucleares na Península Ibérica”» («Enxadas contra o nuclear», Tiago Carrasco, «Revista E»/Expresso, 13.03.2026, p. 29). 

      Tem, por vezes, um sentido ligeiramente depreciativo, mas se até especialistas na área a usam, quem somos nós para a manter afastada dos dicionários? Assim, proponho ➜ chaleira nuclear figurado designação metafórica de central nuclear de produção de electricidade, empregada para sublinhar que o seu funcionamento assenta, em última análise, no aquecimento de água por calor gerado em reacções nucleares, com produção de vapor para accionar turbinas.

[Texto 22 920]

Léxico: «narciso-poético»

A Natureza poética


      «Fazia, em seguida, a ligação do postal ao tema do livro em que na altura trabalhava, e que viria a publicar em 2025, em Setembro em edição digital, e em Dezembro em papel. Trata-se do livro As Plantas na Obra Poética de Camões, editado pela Imprensa da Universidade de Coimbra. A fotografia que preenchia o postal de Natal é também a da capa do livro – o narciso-poético (Narcissus poeticus), e as razões para a escolha desta flor encontram-se na entrevista que deu ao PÚBLICO no início deste mês, em que revelou que a flor que Camões mais citou são as rosas, embora não fosse a de que mais gostava» («Jorge Paiva brindou-nos com outros dos seus postais de Natal», Teresa Firmino, Público, 27.12.2025, p. 31).

[Texto 22 919]

Léxico: «narrativismo | narrativista»

Quantas vezes não o vi já


      «A Nova História queria-se não-positivista, não-marxista, não-quantitativa, não-engajada, mas igualmente distante do narrativismo cronológico e enfático daquilo a que os franceses chamam “romance nacional”, ou história patriótica» («Historicizar a História», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 13.03.2026, p. 68).

[Texto 22 918]

Léxico: «escorcioneira-oca | heleborina-dos-brejos»

Se é nosso, é desprezado


      «“Entre as plantas que herborizei [que colheu para pôr em herbários] ao longo de 70 anos, colhi, em 1961, pelo menos duas espécies que, actualmente, estão dadas como extintas em Portugal”, alerta. “Uma endémica da Península Ibérica, a escorcioneira-oca (Avellara fistulosa); a outra, a orquídea heleborina-dos-brejos (Epipactis palustris). Isto é, num pequeno país e num curtíssimo período de existência da vida do planeta onde vivemos – o equivalente a 0,00000000001 anos de vida nesta enorme Gaiola – provocámos a extinção de duas das espécies de antófitas (plantas com flores) que colhi”, prossegue [o botânico Jorge Paiva]» («Jorge Paiva brindou-nos com outros dos seus postais de Natal», Teresa Firmino, Público, 27.12.2025, p. 31).

[Texto 22 917]

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