Passo a passo, peça a peça...

Não é o mesmo


      No Prime Time de ontem, na CNN Portugal, ouvi Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, afirmar que, caso os aliados não travem o Tribunal Penal Internacional, os Estados Unidos prosseguirão a sua campanha para o desmantelar, piece by piece, até que os cidadãos norte-americanos deixem de estar ameaçados. Nas legendas, porém, a expressão piece by piece foi traduzida por «passo a passo». Ora, piece by piece significa «peça a peça», expressão particularmente adequada quando se fala em desmantelar uma instituição. «Passo a passo» corresponde antes ao inglês step by step, e é provavelmente da confusão entre estas duas expressões que decorre o erro. A diferença não é insignificante. A locução adverbial «passo a passo» tem sobretudo um valor temporal e processual, exprimindo a realização gradual de uma acção, e emprega-se geralmente em contextos construtivos ou instrutivos, como montar um aparelho, aprender uma técnica ou explicar um procedimento. Já «peça a peça» tem um valor essencialmente distributivo, indicando que uma acção incide sucessivamente sobre cada uma das partes constituintes de um todo. Embora ambas as expressões possam sugerir progressão, não exprimem a mesma ideia. Neste caso, não se trata simplesmente de avançar por etapas, mas de desmantelar uma instituição, eliminando uma a uma as suas partes. Foi essa a imagem que Marco Rubio escolheu e que a tradução apresentada pela CNN Portugal fez desaparecer. 

[Texto 23 668]


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P. S.: Cá está outra solução igualmente boa: «En su comunicado, el secretario de Estado sostiene que su país no “necesita”, ni “quiere” que haya un tribunal que investigue crímenes de guerra, y advierte también de que su Administración acabará con el tribunal si este no “pone fin a sus amenazas”. A continuación, el texto lanza las suyas propias. “Esperamos que nuestros aliados —muchos de los cuales forman parte del TPI y dependen de los militares estadounidenses para su defensa— paren los pies al tribunal”. De lo contrario, agrega Rubio, “Estados Unidos continuará su campaña para desmantelar el TPI, ladrillo a ladrillo”» («EE UU sanciona de nuevo al TPI y amenaza con desmantelarlo», I. Seisdedos e I. Ferrer, El País, 10.10.2026, p. 5).


P. P. S.: E agora em francês: «Elle a renforcé ses pressions et ses sanctions. L’été dernier, Marco Rubio avait appelé à “démanteler” la Cour “brique par brique”» («Les Etats-Unis punissent la CPI», A. Va., Libération, 10.10.2026, p. 9).



Definição: «direitista | esquerdista»

Assim não bate certo


      «De modo que, como declarou em tempos o nosso Presidente, um socialista “soft” que considerei muito preferível a um direitista “hard”, decidi-me pela abstenção violenta» («Abstenção violenta», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 25.09.2026, p. 64). 
      Muito bem, direitista, que a Porto Editora define assim: «1. POLÍTICA que ou o que é de direita». Como vêem, tem mais de uma acepção, e aí é que está o problema: «2. conservador; tradicionalista». Certamente teria de ter paralelismo com «esquerdista», ou não? Neste verbete, só tem uma acepção: «POLÍTICA relativo a ou partidário do esquerdismo». Temos, portanto, como agora se comprova, mais de um problema. O primeiro é evidente: duas palavras formadas de maneira paralela e que designam posições opostas no mesmo eixo político deveriam, tanto quanto possível, receber tratamento lexicográfico paralelo. Assim, se direitista é «que ou o que é de direita», esquerdista deverá ser «que ou o que é de esquerda», ou não? É uma definição mais simples e directa, além de evitar a desnecessária passagem por esquerdismo. O segundo problema está na acepção «conservador; tradicionalista» de «direitista». Ser de direita não equivale necessariamente a ser conservador e muito menos a ser tradicionalista. Há correntes de direita liberais, por exemplo, e conservador e tradicionalista designam orientações ideológicas mais específicas. E, se aceitássemos este alargamento semântico, por paralelismo teríamos de fazer o mesmo com «esquerdista»: acrescentar-lhe, por exemplo, uma acepção «progressista». Mas não parece ser esse o caminho. Não gostaria que fosse. A proximidade ou associação frequente entre conceitos não basta para os transformar em significados de uma palavra. Veja-se, aliás, como procede o Diccionario de la lengua española, da Real Academia Española, que define derechista como «perteneciente o relativo a la derecha política» ou «partidario de la derecha política», e izquierdista como «perteneciente o relativo a la izquierda política» ou «partidario de la izquierda política». 
      Proporia, portanto, a supressão da segunda acepção de «direitista» e deixaria os dois verbetes perfeitamente paralelos, como decerto qualquer falante espera ver: direitista POLÍTICA que ou o que é de direita | esquerdista POLÍTICA que ou o que é de esquerda.

[Texto 23 667]

Léxico: «comemoracionismo»

Mais um tresmalhado


      «Mas, não havendo [lugar para «histórias oficiais» na democracia], a História continua a ser a disciplina que todos os políticos e todos os regimes adoram interpretar em proveito próprio. “No comemoracionismo”, avisa o historiador Fernando Catroga, da Universidade de Coimbra, “a verdade histórica é uma questão secundária”» («Portugal vai celebrar 900 anos sem saber ao certo quando nasceu», Manuel Carvalho, «P2»/Público, 4.10.2026, p. 5). 
      Ora bem, se é um termo utilizado há décadas na investigação historiográfica portuguesa, não vejo porque anda por aí tresmalhado. Assim, proponho ➠ comemoracionismo nome masculino tendência ou prática de promover comemorações de acontecimentos, datas ou personalidades históricas, visando preservar ou exaltar a sua memória e, frequentemente, reforçar identidades colectivas ou transmitir determinados valores e interpretações do passado. (De comemoração + -ismo.)

[Texto 23 666]

Léxico: «urdissagem | gaseadeira | tosquiadeira | vaporizadora»

Pelo menos estas


      «Ângelo vê o que lhe mostra a memória. Onde eram as fiações de milhares de fusos, a bobinagem, a torcedura, a urdissagem, a engomagem, a tecelagem de lonas, felpos e cobertores, a gaseadeira, a tosquiadeira, a branqueação, a mercerização, a tinturaria de fios e malhas, as estampadoras, vaporizadoras, râmolas, prensas, perchas... Ali os sacos, acolá os lenços de cabeça, os cobertores Jaqueline, as capulanas, o tecido cru, o algodão hidrófilo...» («África minha», Raquel Moleiro, «Revista E»/Expresso, 27.08.2026, p. 31).

[Texto 23 665]

Como se escreve por aí

Como se não houvesse regras


      «Têm dúzias de mini sanduíches de todos os tipos, uma espécie de mousse de salmão fumado, ovos recheados com caviar, cogumelos recheados, uma espécie de croquetes e uma enorme tábua de charcutaria em que a carne foi moldada em forma de flores» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, pp. 179-80). 
      Que o Zé do Pipo escreva assim, pouco importa. Mas uma tradutora acolitada por uma revisora? Não pode ser.

[Texto 23 664]

Léxico: «achém | dachém | achinês»

Corrija-se esta inexplicável lacuna


      Oh, sim, os Achéns de Samatra... Vivem aos milhares nos nossos livros de História. Nos dicionários é que nem por isso. Sendo assim, proponho ➠ achém adjectivo de 2 géneros 1. relativo ou pertencente aos Achéns, povo originário da região de Achém, no extremo norte da ilha de Samatra, na Indonésia; achinês; 2. relativo ou pertencente à língua ou à cultura desse povo; achinês | nome de 2 géneros indivíduo pertencente ao povo dos Achéns; achinês | nome masculino 1. LINGUÍSTICA língua austronésia do ramo malaio-polinésio, falada principalmente na região de Achém, no Norte da ilha de Samatra, na Indonésia; achinês; 2. balança manual de aço, do tipo romano, de origem chinesa, utilizada tradicionalmente no comércio asiático; dachém; 3. HISTÓRIA unidade de peso utilizada antigamente no comércio do Sudeste Asiático; dachém | nome masculino plural ETNOLOGIA povo predominantemente muçulmano, originário da região de Achém, no extremo norte da ilha de Samatra, na Indonésia, que fala uma língua austronésia do ramo malaio-polinésio. 
      E qual é o distraído que fala nos Achéns e se esquece dos Achineses? Nós não. Assim, proponho ➠ achinês adjectivo de 2 géneros 1. relativo ou pertencente aos Achéns, povo originário da região de Achém, no extremo norte da ilha de Samatra, na Indonésia; achém; 2. relativo ou pertencente à língua ou à cultura desse povo; achém | nome de 2 géneros 1. indivíduo pertencente ao povo dos achéns; achém | nome masculino LINGUÍSTICA língua austronésia do ramo malaio-polinésio, falada principalmente na região de Achém, no Norte da ilha de Samatra, na Indonésia; achém. (De Achin, variante histórica do topónimo Achém + -ês.)

[Texto 23 663]

Como se traduz por aí

Uma espécie de fatalidade


      «— Eu não sou muito boa nessas coisas. — Estava agarrada às cavilhas do casaco, com o rosto mais pálido do que o costume» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 73). No original: «She was gripping the toggles of her coat, her face extra pale.» 
      Cavilhas do casaco... Algum casaco de madeira, talvez. Temos de mandar o tradutor fazer um estágio na Ralph Lauren, na Mango ou na Zara, onde podemos ver — e lhe ensinarão — que se chamam fechos de alamar. Como eu costumo dizer, quanto mais concreto o referente, mais os tradutores se espalham, o que não deixa de ser paradoxal. Estamos, pois, em condições de formular a lei da vulnerabilidade tradutória à concretude: a probabilidade de erro tradutório aumenta em proporção directa com o grau de concretude e especificidade material do referente, mormente quando a competência lexical do tradutor excede a sua capacidade de identificação extralinguística. Veremos mais casos.

[Texto 23 662]

Léxico: «tintipo | ferrótipo» Definição: «ferrotipia»

Antigo, mas...


      «In an age when a portrait can be made in a fraction of a second, Vibhav Kapoor, artist and assistant professor at O.P. Jindal Global University, Sonipat, spends several minutes making one photograph, much of the time spent negotiating with chemistry. In his Delhi-NCR studio, Mr. Kapoor works with tintype, a 19th-century photographic process in which an image is created directly on a metal plate. The French photographer Adolphe Alexandre Martin is credited with developing the technique in 1853, two years after Frederick Scott Archer invented the wet-plate collodion process» («In this Delhi studio, tintype brings chemistry into every portrait», Aditya Ansh, The Hindu, 7.10.2026, p. II).
      Termo que, aportuguesado, também usamos por cá ➠ tintipo 1. ferrotipia; 2. ferrótipo. (Do inglês tintype, «idem», de tin, «estanho», + type, «tipo».) Concentremo-nos na definição de «ferrotipia» do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «antigo processo fotográfico que tinha por suporte uma chapa de ferro lacada de negro e revestida de colódio, muito utilizado por fotógrafos ambulantes». Antigo, mas, como se vê, ainda usado. Vejo que se pode melhorar em três aspectos: explicitar-se o resultado do processo, esclarecer-se a função fotossensível do revestimento e situar-se historicamente a sua utilização. 
      Assim, proponho ➠ ferrotipia nome feminino processo fotográfico desenvolvido no século XIX que permite obter uma imagem positiva única directamente sobre uma fina chapa de ferro revestida de verniz escuro e de uma camada de colódio fotossensível, muito utilizado por fotógrafos ambulantes.
     Este é o processo, mas a Porto Editora esqueceu-se do resultado ➠ ferrótipo nome masculino imagem fotográfica positiva, única, obtida directamente sobre uma fina chapa de ferro revestida de verniz escuro e de uma camada de colódio fotossensível, pelo processo da ferrotipia.

[Texto 23 661]

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