Definição: «barata-alemã» Léxico: «ectobiídeo»

Duas baratas


      Passemos agora à definição da Porto Editora da barata-alemã «ZOOLOGIA (Blatella germanica) insecto ortóptero, da família dos Blatídeos, de distribuição cosmopolita, pode atingir cerca de um centímetro e meio de comprimento e tem coloração castanha, de tonalidade clara, com duas listas longitudinais escuras no pronoto; barata-francesa». Também telegraficamente, apresenta estes problemas e lacunas: classificação desactualizada como ortóptero; classificação taxonómica incorrecta na família; omissão dos hábitos sinantrópicos; ausência de referência ao habitat característico (habitações e outros edifícios); descrição pouco precisa da coloração. 
      Tudo visto, proponho ➠ barata-alemã ZOOLOGIA (Blattella germanica) insecto blatódeo, da família dos Ectobiídeos, de distribuição cosmopolita e hábitos sinantrópicos, que pode atingir cerca de um centímetro e meio de comprimento, tem coloração castanho-clara a castanho-amarelada e duas listas longitudinais escuras no pronoto, sendo a espécie de barata mais comum em habitações e outros edifícios.

[Texto 23 343]

Definição: «barata-americana» Léxico: «blatódeo»

Uma barata


      «En España hay tres especies de cucarachas: la germánica o de cocina (Blattella germanica); la americana o roja (Periplaneta americana); y la oriental o negra (Blatta orientalis). La germánica es la típica de las cocinas y también se llama rubia por su color; la americana es la más grande, de tono rojizo y capaz de volar» («Más cucarachas, mosquitos o garrapatas debido al calor», Eva M. Rull, La Razón, 24.07.2026, p. 58). 
      Em Portugal, as fontes científicas referem sistematicamente as mesmas três espécies como as principais em meio urbano, pelo que as conclusões do artigo seriam perfeitamente transponíveis para cá. Mas vamos a definições. Há desde logo uma incorrecção comum às três definições no dicionário da Porto Editora: estas espécies não são actualmente classificadas como insectos ortópteros, mas como insectos da ordem dos blatódeos (Blattodea). Há décadas que a entomologia abandonou essa classificação. É ver, por todas, a Zootaxa, uma publicação taxonómica de referência. Diz a Porto Editora em relação à barata-americana «ZOOLOGIA (Periplaneta americana) insecto ortóptero, da família dos Blatídeos, de distribuição cosmopolita, corredor mas capaz de voar, pode atingir cerca de quatro centímetros de comprimento e tem coloração castanha, com asas de tonalidade avermelhada que, no caso dos machos, podem ultrapassar o abdómen». 
      Enunciando telegraficamente os problemas e lacunas, temos: classificação desactualizada como ortóptero; omissão dos hábitos sinantrópicos; ausência do característico pronoto marginado de amarelo-claro; descrição pouco precisa da coloração e das asas; formulação menos clara das capacidades de correr rapidamente e de voar. 
      Tudo visto, proponho ➠ barata-americana ZOOLOGIA (Periplaneta americana) insecto blatódeo, da família dos Blatídeos, de distribuição cosmopolita e hábitos sinantrópicos, que pode atingir cerca de quatro centímetros de comprimento, tem coloração castanho-avermelhada e pronoto marginado de amarelo-claro, sendo capaz de correr rapidamente e de voar.

[Texto 23 342]

Léxico: «orjavão»

É segui-los


      «O cirurgião da terra, que matava pelo Portugal Medico e pelo Mirandela, receitava-lhe implastos de ervas orjavão e semprónia, fervidas em um quartilho de aguardente» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 29). Orjavão ou gervão, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas regista este último. Seja como for, no Brasil conhecem muito melhor do que nós as espécies florísticas que designam.

[Texto 23 341]

Léxico: «rotinice»

Bem expressiva


      «Carolina não tinha nenhum d’esses instinctos delicados e espontaneamente artisticos, que são a revelação da mulher; nos seus menores labores era de uma incorrecção tosca e de uma rotinice escura» («A Ruiva», in Contos, Fialho de Almeida. Porto e Braga: Ernesto Chardron Editor, 1881, p. 96).

[Texto 23 340]

No plural

Pois então


      «A contenção dos Bolsonaros» (Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo, 23.07.2026, p. A3). Vá lá, no Brasil ainda sabem contar e escrever: um Bolsonaro + um Bolsonaro = dois Bolsonaros. Cá é que os que se têm na conta de linguistas (título que a si mesmos atribuem) defendem o contrário, contrariando o génio da língua.

[Texto 23 339]

Léxico: «contação»

Prometer e cumprir


      «Aldeia indígena em Mato Grosso tem contação de histórias à beira da fogueira» (Gabriel Justo, Folha de S. Paulo, 23.07.2026, p. B12).

[Texto 23 338]

Léxico: «cabaretista»

Outra a que deram sumiço


      «El escritor Maurice Genevoix lo hizo en 2020, consagrando con su figura a los combatientes de la I Guerra Mundial. Los del 14. El nombre de una generación heroica y perdida: la de los poilus o peludos, los franceses que lucharon y murieron en las trincheras de la Gran Guerra. Fue muy interesante y polémica también la inclusión de Josephine Baker, mujer, negra, cabaretista, extranjera y de origen pobre» («La herencia simbólica de Macron culmina con la entrada en el Panteón de Marc Bloch», Daniel Verdú, El País, 24.06.2026, p. 5).

[Texto 23 337]

Léxico: «soberano»

Porque não é o mesmo


      «O desembargador Gonçalves Penha contou dez mil cruzados em soberanos sobre a mesa onde o tabelião escrevera» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 77). Definir «soberano» como designação da libra esterlina representa apenas metade da história. A concisão é uma virtude, mas não à custa da exactidão. Este trecho de Camilo é um excelente argumento a favor de uma definição mais desenvolvida: «dez mil cruzados em soberanos» só faz pleno sentido se o leitor souber que o soberano era uma moeda de ouro, e não apenas outro nome da libra esterlina. É precisamente esse dado histórico que a definição actual da Porto Editora omite. Assim, proponho ➠ soberano moeda de ouro inglesa correspondente ao valor de uma libra esterlina; [por extensão] designação da própria libra esterlina.

[Texto 23 336]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 



P. S.: Embora o soberano fosse, por excelência, a moeda de ouro correspondente ao valor de uma libra esterlina, existiram também o meio soberano (10 xelins) e, muito mais raramente, o duplo soberano (2 libras) e o quíntuplo soberano (5 libras). Os dois últimos tiveram circulação muito limitada. E não tenham pena do desembargador: os dez mil cruzados não eram dez mil soberanos. Como o pagamento era feito em moeda inglesa, o número de moedas dependia do câmbio entre o cruzado e a libra esterlina. Por volta de 1850, término da acção, dez mil cruzados corresponderiam a cerca de setecentos soberanos, um bom monte de ouro, sem dúvida, mas muito longe das dez mil moedas que uma leitura apressada pode fazer imaginar.


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