Léxico: «descartabilidade»

Homenagem ao Papa Francisco


      «O momento, embora breve, parecia carregado de simbolismo político quase mítico. Xi e Putin caminhavam em direção à Praça Tiananmen, o centro cerimonial da superpotência emergente e um lugar associado à repressão brutal da dissidência pelo regime chinês. Em 1989, num breve momento de euforia, pareceu que o comunismo chinês poderia fazer parte do passado, abrindo espaço ao nascimento de uma nova possibilidade democrática. Depois chegaram os tanques, anunciando o poder eterno e indivisível do Estado e a total descartabilidade da vida dos seus súbditos» («Quem quer comprar a eternidade?», Mark O’Connell, tradução de Joana Henriques, «Revista E»/Expresso, 5.06.2026, p. 16).

[Texto 23 142]

O desgraçado verbo «evacuar»

Por exemplo


      O correspondente do Linguagista na cidade do Porto teve de ir ao Hospital de Santo António. Numa sala de espera (ou seria de subespera, que os dicionaristas continuam a ignorar?), reparou que num aviso afixado numa parede com instruções em caso de incêndio usavam erradamente o verbo «evacuar». Lembrou-se de que o assunto já aqui foi tratado várias vezes — mas não as suficientes. Os responsáveis do hospital devem ter seguido os exemplos errados que a Porto Editora indica no respectivo verbete: «Evacuaram da frente os feridos./ Evacuaram-nos para a retaguarda.» Não se evacuam pessoas (embora os prepotentes, os arrogantes que nos querem comer, se o conseguissem, se deixássemos, tivessem de nos evacuar), evacuam-se espaços. O que podemos fazer com as pessoas é transferi-las, mandá-las para outro lado. No caso dos arrogantes, dos prepotentes, mandá-los prò caralho dar uma volta ao bilhar grande.

[Texto 23 141]

Definição: «bilionário» Léxico: «dongue»

O segredo está na equivalência


      «Elon Musk, el fundador y presidente de Tesla, se convertirá hoy en la primera persona en la historia moderna en acumular un patrimonio superior al billón de dólares gracias al debut en Bolsa de SpaceX» («La salida a Bolsa de SpaceX convierte a Elon Musk en el primer billonario», Jesús Sérvulo González, El País, 12.06.3036, p. 26). 
      Só depois de lermos duas vezes a definição da Porto Editora é que percebemos onde está o erro. Mas erro há. Ora vejamos: «que ou aquele que tem fortuna na ordem dos biliões (de euros, dólares ou outra unidade monetária)». Não resiste à análise. À primeira vista, parece uma definição irrepreensível. Mas basta aplicá-la a uma moeda de grande circulação para surgirem os problemas. Um japonês com um bilião de ienes possui, efectivamente, uma fortuna «na ordem dos biliões» da sua unidade monetária. No entanto, esse montante corresponde apenas a cerca de seis milhões de euros. Ninguém classificaria tal pessoa como bilionária. E o problema torna-se ainda mais evidente se recorrermos ao dongue, a unidade monetária oficial do Vietname. Um bilião de dongues corresponde actualmente a cerca de 33 000 euros. Pela definição da Porto Editora, uma pessoa com um montante equivalente ao preço de um automóvel familiar novo seria bilionária, uma vez que possuiria uma fortuna «na ordem dos biliões» da sua unidade monetária. Absurdo. Logo, a definição é demasiado ampla. 
      Assim, proponho bilionário ECONOMIA que ou aquele cuja fortuna é avaliada em valor equivalente a pelo menos um bilião de euros ou dólares.

[Texto 23 140]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Ah, sim, vamos precisar do dongue ECONOMIA unidade monetária oficial da República Socialista do Vietname desde 1978, representada pelo símbolo ₫.

Léxico: «dambo | manganja | Manganjas»

Até é mais nosso


      «“Os cientistas não se deixaram abalar pelos atrasos – sempre que ficávamos presos, aproveitavam a oportunidade para pesquisar dambos (campos sazonalmente alagados), florestas pantanosas e zonas húmidas nas proximidades” [Rob Taylor, coordenador da expedição]» («Esta aranha brilha azul e ninguém parece saber porquê (e há mais espécies incríveis para conhecer)», Tom Page, CNN Portugal, 3.06.2026, 10h01). 
      Temos de o acolher, assim dambo GEOGRAFIA depressão pouco profunda, geralmente coberta por gramíneas, juncos e ciperáceas, sujeita a encharcamento ou inundação sazonal, característica de regiões da África Central e Austral, frequentemente situada nas cabeceiras de linhas de drenagem ou em fundos de vale, desempenhando importante papel na alimentação de cursos de água e na conservação da biodiversidade. 
      Quanto à etimologia, vem do inglês dambo, de origem banta, provavelmente do manganja dambo, «zona húmida sazonal; depressão alagadiça».

[Texto 23 139]

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P. S.: Exactamente, Porto Editora, do manganja LINGUÍSTICA dialecto do nianja falado pelos Manganjas ETNOLOGIA povo banto da África Austral, estabelecido tradicionalmente no actual Maláui e em regiões vizinhas de Moçambique, Zâmbia e Zimbabué, historicamente ligado às rotas comerciais do vale do Zambeze e cuja língua pertence ao grupo nianja-cheua.


Léxico: «joyciano | dantiano | tainiano»

Calmex


      «O humor do joyciano Beckett nunca renegou a vulgaridade, a escatologia, nem o vaudeville, como aquelas calças que caem sem cinto, em “Godot”, mesmo que o cinto tinha sido tirado por razões trágicas» («Oldman Krapp», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 5.06.2026, p. 68). 
      Muito curioso... Alguns dicionários, entre os quais o da Porto Editora, prometem dicionarizar brevemente o termo. É uma informação sempre actual: ainda que outro leitor a encontre daqui a seis meses ou a tenha encontrado há três meses. O que estamos habituados a encontrar, e quase todos os dicionários registam, é a variante «joyceano». Mas não temos nós, por exemplo, de Dante «dantiano», e de Comte «comtiano», e de Shakespeare «shakespeariano», e de Taine «tainiano», e de Sade «sadiano»? Pois é. Então, fiquem com esta: o criteriosíssimo VOLP da Academia Brasileira de Letras apenas regista «joyciano».

[Texto 23 138]

Definição: «almadraba»

Nem uma pálida ideia


      «À frente da Tunipex está Alfredo Poço, figura-chave na recuperação da almadraba em Portugal, uma das mais antigas formas de pesca do Mediterrâneo. Depois do desaparecimento desta tradição no Algarve nos anos 70, Alfredo liderou um projeto que combinou o saber ancestral português com tecnologia e conhecimento japonês, devolvendo a armação de atum ao mar português» («Tunipex», João Rodrigues, «Revista E»/Expresso, 5.06.2026, p. 72). 
      A Porto Editora limita-se a dizer que é a «armação para a pesca do atum», com o que não ficamos propriamente esclarecidos. Dispomos de estudos, mas a própria legislação já é mais elucidativa do que os dicionários. Assim, proponho ➠ almadraba/almadrava PESCA armação fixa constituída por um conjunto de redes fundeadas e compartimentadas, destinadas a interceptar e encaminhar os atuns migradores para um compartimento de captura.

[Texto 23 137]

Léxico: «rope-jumping»

Tão previsíveis...


      «Uma jovem de 21 anos morreu, este sábado, em São Paulo, depois de ter sido lançada de uma altura de 40 metros durante um salto bungee jumping sem o equipamento de segurança» («Jovem de 21 anos morre após ser lançada sem cordas em “bungee jumping”», Beatriz Pereira, Rádio Renascença, 14.06.2026, 15h14, itálicos meus). 
      Esta era fácil prever: a imprensa, a nossa, pelo menos, ia confundir as coisas. Na realidade, foi rope-jumping. Como já tens aquela, Porto Editora, ficas com esta rope-jumping DESPORTO modalidade que consiste em lançar-se de uma estrutura ou local elevado preso por cordas de escalada ancoradas a um sistema de segurança, descrevendo geralmente um movimento pendular; distingue-se do bungee-jumping por não utilizar uma corda elástica.

[Texto 23 136]

Léxico: «guilhermino | guilherminismo»

Nos dicionários, nem rasto


      Aqui num romance aparece a descrição de um prédio — feio, pesado, fuliginoso — de arquitectura guilhermina, em Berlim. Os nossos dicionários ainda não chegaram lá, mas não podemos deixar os leitores, os falantes, desamparados, por muito habituados que estejam. Assim, proponho ➠ guilhermino 1. HISTÓRIA relativo ou pertencente ao reinado do imperador alemão Guilherme II (1888-1918) ou ao período histórico, cultural e artístico a ele associado; característico do guilherminismo; 2. ARQUITECTURA diz-se do estilo arquitectónico característico da Alemanha do final do século XIX e do início do século XX, marcado por tendências historicistas, neobarrocas e monumentais.

[Texto 23 135]

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