Léxico: «delírio erotomaníaco | síndrome de Clérambault»

Dois nomes para um grande problema

 

      «Durante la audiencia preliminar celebrada el lunes 4 de mayo, el fiscal aseguró que el sospechoso creía mantener una relación sentimental con la princesa. Este rasgo característico del llamado delirio erotomaníaco le lleva a la convicción patológica de que ella le coresponde» («El delirio de creerse amado por la princesa Amalia de Holanda», Marian Benito, La Razón, 9.05.2026, p. 54). 

     Ora, se aparece na imprensa, bem pode ir para os dicionários, este  delírio erotomaníaco PSIQUIATRIA perturbação delirante caracterizada pela convicção patológica e persistente de que outra pessoa, geralmente de estatuto social elevado, inacessível ou desconhecida, está apaixonada pelo doente, apesar da ausência de provas ou mesmo perante rejeição explícita; pode levar a interpretações delirantes de gestos banais como sinais de amor recíproco; síndrome de Clérambault.

      Descrito pelo psiquiatra francês Gaëtan Gatian de Clérambault (1872-1934), o quadro é também conhecido por síndrome de Clérambault e integra tradicionalmente as perturbações delirantes de tipo erotomaníaco.

[Texto 23 070]

Léxico: «rato-do-arroz | rato-do-arroz-de-cauda-longa»

Uma vez que falamos neles

 

      «La pandémie de Covid-19 avait mis en lumière les chauves-souris rhinolophes. L’infection humaine à hantavirus va nous apprendre à connaître un tout autre mammifère: le rat pygmée de rizière à longue queue. Si on ignore encore la façon exacte dont le premier croisiériste du Hondius a été infecté, le réservoir dans lequel il est allé puiser est connu: Oligoryzomys longicaudatus, le nom scientifique de ce petit rongeur, découvert en 1832 par le chirurgien naval et biologiste Frederick Bennett. Contrairement à ce que son nom évoque, l’animal n’est ni vraiment petit ni adepte des rizières. Avec son corps d’environ 10 centimètres et son poids de 30 à 40 grammes, il écraserait le minuscule rat des moissons (8 grammes), mais pas le surmulot, notre cher rat brun, et ses 140 à 500 grammes. Quant aux fameuses rizières, elles lui viennent du nom scientifique fixé au début du XXᵉ siécle... sans que personne ne comprenne le lien avec la céréale. Bref, il n’y a que la longue queue qui soit bien choisie, puisque avec 11 à 13 centimètres, elle dépasse la taille de son corps» («Ce petit rongeur chez qui l’hantavirus des Andes a fait son nid», Nathaniel Herzberg, Le Temps, 20.05.2026, p. 9). 

      Há décadas que «rato-do-arroz» é usado na zoologia brasileira como nome comum de vários pequenos roedores sul-americanos. A recente atenção mediática dada ao hantavírus dos Andes trouxe de novo à actualidade uma dessas espécies, Oligoryzomys longicaudatus. Para esta específica espécie, proponho rato-do-arroz-de-cauda-longa ZOOLOGIA (Oligoryzomys longicaudatus) pequeno roedor sul-americano da família dos Cricetídeos, de olhos grandes, focinho pontiagudo, orelhas arredondadas, corpo esguio e cauda comprida, geralmente mais longa do que o corpo; vive sobretudo no Chile e na Argentina, em zonas de vegetação densa e áreas agrícolas, sendo o principal reservatório natural do hantavírus dos Andes.

[Texto 23 069]

Definição: «pangolim»

Pois se sabemos que são oito

 

      «Les huit espèces de pangolins sont très différentes les unes des autres. Certains vivent exclusivement dans les arbres où ils vont et viennent à la manière des singes, et d'autres sont terrestres, se déplacent au sol et dorment dans des terriers» («L’ADN pour enrayer le trafic de pangolins», Aurélie Coulon, Le Temps, 22.05.2026, p. 9). 

      Nunca li um texto tão completo sobre os pangolins, mas, claro, a autora, Aurélie Coulon, é doutorada em Biologia e jornalista científica suíça, tendo trabalhado na secção Ciência & Ambiente do jornal Le Temps antes de integrar a Radio Télévision Suisse, onde se dedica à divulgação e comunicação de temas científicos. Por exemplo, porque não dizem os nossos dicionários que são oito as espécies de pangolins? 

      Assim, proponho  pangolim ZOOLOGIA designação comum extensiva aos mamíferos da família dos Manídeos, actualmente representada por oito espécies reconhecidas, distribuídas por regiões tropicais de África e da Ásia, que têm corpo alongado coberto de grandes escamas córneas sobrepostas, cauda longa, patas curtas com garras fortes e focinho estreito com língua viscosa e extensível, alimentando-se sobretudo de formigas e térmitas; quando ameaçados, enrolam-se sobre si próprios formando uma bola defensiva.

[Texto 23 068]

Léxico: «problema de Monty Hall»

Ficamos a saber


      «Imagine um concurso televisivo em que o apresentador pede ao concorrente para escolher, aleatoriamente, uma de três opções: A, B ou C. Depois de o concorrente escolher, digamos, a opção B, o apresentador revela que uma das opções restantes (por exemplo, C) não contém o prémio. Na fase final, o concorrente é questionado se quer mudar de opinião e escolher a opção que resta, A, ou manter a sua escolha original, B. Conhecido como o problema de Monty Hall, em homenagem a um apresentador de um concurso televisivo americano, este famoso enigma tem entretido matemáticos durante décadas. Mas também pode ensinar-nos algo sobre o funcionamento da mente e do cérebro humanos» («O que acontece no cérebro quando mudamos de opinião?», The Conversation/Reuters/Rádio Renascença, 6.09.2025, 8h30). 

      Isto merecia um verbete. Assim, proponho problema de Monty Hall MATEMÁTICA, PROBABILIDADES problema clássico de probabilidade condicional, inspirado num concurso televisivo norte-americano, no qual um participante escolhe uma entre três portas, atrás de uma das quais está um prémio; após essa escolha inicial, o apresentador, que sabe o que está por trás de cada porta, abre uma das duas restantes, revelando uma porta vazia, e oferece ao concorrente a possibilidade de mudar a sua escolha inicial: contra‑intuitivamente, a probabilidade de ganhar o prémio duplica se o concorrente aceitar mudar de porta; é objecto frequente de estudo e extrapolação em contextos de teoria da decisão, psicologia cognitiva e comunicação de ciência.

[Texto 23 067]

Definição: «insumo»

Pode não servir para tudo


      «O subdirector-geral e representante regional da FAO para a América Latina e as Caraíbas, René Orellana Halkyer, salientou que a agência apoia os países na identificação de territórios prioritários, lacunas críticas e investimentos facilitadores para reduzir as vulnerabilidades, executando medidas preventivas «em conjunto com governos e parceiros em nove países da região, que beneficiaram centenas de comunidades rurais, com apoio directo, reabilitação de sistemas de água e irrigação, distribuição de insumos [isto é, sementes, fertilizantes e outros materiais agrícolas] e reforço de capacidades, protegendo meios de subsistência e aumentando em até 40 % a produção de culturas básicas» («El Niño aumenta o risco de insegurança alimentar», Jairo García, Além-Mar, Junho de 2026, p. 15). 

      Como se pode ver, o autor, ou alguém por ele (que até posso ter sido eu), viu-se na necessidade de explicar o que significa «insumo» no contexto. E digo no contexto porque não é sempre o mesmo, ao contrário do que fazem crer os nossos dicionários. Seja como for, a palavra é desconhecida do leitor médio português. Muito usada e conhecida é no Brasil, ainda que os dicionários brasileiros também não a definam bem. A definição dos dicionários é demasiado técnica e abstracta para quem encontra a palavra num contexto prático como este. 

      Assim, proponho insumo 1. ECONOMIA factor de produção utilizado na criação de bens ou serviços (matéria-prima, trabalho, capital, energia, etc.); 2. AGRICULTURA (sobretudo no plural) materiais e produtos aplicados na lavoura — sementes melhoradas, adubos, fertilizantes, agroquímicos, defensivos, etc. — com vista a aumentar a produtividade e a resiliência das culturas.

[Texto 23 066]

Léxico: «antíopa»

Também o tens em bilingues


      «É raro que na sua ara se levante chama que atraia e queime as asas de tão deslumbráveis antíopas» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 203).

[Texto 23 065]

Léxico: «rato-gigante-das-flores»

Que já foi nossa


      No episódio de segunda-feira da semana passada, «A tragédia da Ilha das Flores (e os seus muitos mistérios)», do programa E o Resto É Ciência, na Rádio Observador, falaram no rato-gigante-das-flores, endémico naquela ilha indonésia que já foi portuguesa. Convém, então, acolher este rato-gigante-das-flores ZOOLOGIA (Papagomys armandvillei) espécie de roedor murídeo endémica da ilha de Flores, na Indonésia, de grande porte (cerca de 41-45 cm de comprimento corporal), com corpo robusto, orelhas pequenas e pelagem densa escura; possui cauda longa, podendo igualar ou ultrapassar o comprimento do corpo; habita florestas tropicais, com hábitos sobretudo terrestres e alimentação maioritariamente vegetal, complementada por invertebrados; encontra-se ameaçado pela perda de habitat e pela caça.

[Texto 23 064]

Definição: «Maoris»

Falámos neles recentemente


      «Há dias, Te Arikinui Kuini NgaWai hono ite po foi recebida no palácio de Buckingham pelo rei Carlos III, no que foi o primeiro encontro entre o monarca britânico e a rainha maori desde que esta subiu ao trono em 2024. [...] Foi nessa língua que, um ano exato após a morte do pai e a sua ascensão ao trono, terminado o período oficial de luto, a rainha Te Arikinui fez o seu primeiro discurso como soberana. “Ser maori não se define por ter um inimigo ou um desafio a superar. Ser maori é falar a nossa língua. É cuidar do ambiente. É ler e aprender sobre a nossa história. É a escolha de ser chamado pelo nosso nome maori. Há muitas formas de manifestar o facto de ser maori, não apenas em momentos de protesto”, afirmou. E acrescentou: “Ser maori é para sempre, mas temos de cultivar continuamente essa expressão de ser maori para controlar o nosso próprio destino”» («A rainha que quer pôr a sabedoria maori ao serviço dos problemas do século XXI», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 22.05.2026, p. 25). 

      Tudo para depois os dicionários dizerem que os Maoris são o povo indígena da Nova Zelândia, de origem polinésia. Quase serviria igualmente para definir outros povos austronésios transplantados para diferentes arquipélagos. A definição actual identifica pouco da especificidade maori.  Assim, proponho Maoris ETNOGRAFIA povo indígena da Nova Zelândia, de origem polinésia, cuja presença nas ilhas remonta a vários séculos antes da chegada dos europeus; organiza-se tradicionalmente em tribos e clãs (iwi e hapū), possui língua própria (maori) e uma cultura distinta marcada por tradições orais, tatuagem ritual (moko), danças cerimoniais como o haka e forte ligação ancestral à terra e aos antepassados.

[Texto 23 063]

Arquivo do blogue