Definição: «desclassificação»

Incompleto por natureza


      «O Parlamento discute esta tarde um projeto de lei do Bloco de Esquerda que pretende desclassificar informação relativa à violência política no pós-revolução. E que define também um regime especial de acesso a documentos referentes às FP 25 de Abril. O Bloco sugere a criação de uma comissão que fique incumbida de organizar a desclassificação dos documentos» (Rádio Observador, noticiário, 20.05.2026, 12h00). Em desclassificar, Porto Editora, tens esta acepção (que é a última); em desclassificação, não a tens.

[Texto 23 062]

Definição: «Magiares» Léxico: «madgiar»

Deixemo-nos de simplismos


      No episódio de quinta-feira da semana passada do programa E o Resto É História, na Rádio Observador, o historiador Rui Ramos disse a propósito dos Magiares: «Há alguns historiadores, talvez exagerando um bocadinho, que dizem que verdadeiramente os Magiares não são uma nação, são uma classe social. Isto é uma coisa muito importante para compreender a Europa Oriental. Na Europa Ocidental, basicamente, a nobreza e a população trabalhadora falam a mesma língua e são da mesma nação. Na Europa Oriental, não. As nobrezas falam uma língua diferente do resto da população. E era o que acontecia no Reino da Hungria. No Reino da Hungria, basicamente, a nobreza era magiar, os grandes e os pequenos nobres eram todos magiares. Os húngaros eram uma nobreza no Reino da Hungria, basicamente. E a população de trabalhadores eram os eslavos, eram ucranianos, eram eslovacos ou eram romenos. E depois, por exemplo, os comerciantes e os profissionais liberais nas cidades eram alemães e eram judeus. Digamos que as diferenças sociais correspondiam a diferenças de nacionalidades na Europa Oriental.»

      Claro que a formulação «os Magiares não são uma nação, são uma classe social» é provocatória e simplificadora, ele próprio o admite, mas aponta para um fenómeno real: durante séculos, no Reino da Hungria, a identidade magiar esteve fortemente ligada à nobreza; ao poder político; à administração; à cultura dominante do reino. Como é que disto se passou a considerá-los sinónimos puros? O próprio uso historiográfico mostra precisamente o contrário: «magiar» existe porque há necessidade de distinguir algo. No mínimo, e como acepção principal, tem de se acrescentar esta dimensão histórica. Ainda pensei, ingenuamente, que o Houaiss o definiria melhor. Pelo contrário. 

      Assim, proponho magiar HISTÓRIA, ETNOLOGIA indivíduo pertencente ao grupo etnolinguístico de origem fino-úgrica que se estabeleceu na bacia dos Cárpatos no final do século IX e que constituiu historicamente o grupo dominante do Reino da Hungria; húngaro etnicamente magiar.

[Texto 23 061]

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P. S.: Porque vem mesmo a pêlo, também é altamente recomendável dicionarizar e vocabularizar a variante madgiar. Até ajudaria os nossos queridos compatriotas, sobretudo os jornalistas, a pronunciar o nome do primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar. Sempre seria menos um desconchavo a perambular pelo éter já saturado.


Léxico: «microteatro»

Que nós também usamos


      Entre os novos vocábulos que incluídos recentemente no dicionário da Real Academia Espanhola está «microteatro». Ora, em Portugal e no Brasil também se usa o termo, porque esta forma de teatro também existe por cá. Assim, proponho microteatro TEATRO formato teatral constituído por peças curtas, geralmente com duração até 15 minutos, apresentadas em espaços muito pequenos, para públicos reduzidos, privilegiando a proximidade com os espectadores e a viabilidade da produção.

[Texto 23 060]


Definição: «intifada»

Analisemos isto melhor


      «Nascido em 1987, em Jerusalém, durante a primeira Intifada, ou “revolta das pedras”, Fawadleh [pároco da Igreja de Cristo Redentor, em Taybeh] descobriu a sua vocação no ano 2000, quando começou a segunda Intifada, uma sublevação de atentados suicidas. Foi ordenado sacerdote em 2014, na Igreja da Sagrada Família em Ramallah, na noite de um violento ataque israelita. Nesta via dolorosa, diz ele, continua a “ver Deus ao fundo do túnel”» («A última aldeia 100 % cristã da Palestina recusa ser “uma memória do passado”», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Junho de 2026, p. 23). 

      É justamente por ter havido duas, consensuais — a Primeira Intifada (1987-1993), muitas vezes chamada «Intifada das Pedras», e a Segunda Intifada (2000-2005), também conhecida como «Intifada de Al-Aqsa» —, que a definição nos dicionários deve ser diferente, até na previsão de outras (há quem fale na «Terceira Intifada», em 2015-2016, chamada «Intifada das Facas»). Assim, proponho intifada cada um dos levantamentos populares palestinos contra a ocupação israelita dos territórios árabes, especialmente os ocorridos entre 1987 e 1993 e entre 2000 e 2005. 

      Quanto à etimologia, vem do árabe intifāḍa, «levantamento, sublevação», derivado de faḍḍa, «sacudir, libertar-se, revoltar-se».

[Texto 23 059]

Etimologia: «concerto»

Acabamos em harmonia


      «La pression monte pour que le chanteur Patrick Bruel, mis en cause par des femmes qui l’accusent d’agressions, renonce à donner des concerts. Le mot vient de l’italien concerto, qui signifie “accord”. On ne peut pas dire qu’il y en ait un autour de la question de savoir si l’artiste doit poursuivre son activité ou l’interrompre – à titre conservatoire» («Concert», Étienne de Montety, Le Figaro, 23.05.2026, p. 38). 

      O mesmo é dizer que temos muito por onde melhorar a nota etimológica de «concerto», sem nos limitarmos a afirmar que vem «do italiano concerto, “idem”». De facto, por detrás está a ideia de acordo, harmonia. Não temos nós, por exemplo, a locução prepositiva «em concerto com»? Lá que os dicionários não a registem é outra coisa. Assim, proponho do italiano concerto, «acordo, harmonia; composição musical», derivado de concertare, «harmonizar, ajustar, combinar», do latim concertare, «disputar; rivalizar; concertar».

[Texto 23 058]

Léxico: «clique | coda»

Se queremos acompanhar a ciência


      «Sperm whales communicate using short sequences of clicks known as codas, which they exchange while coordinating within their groups. Scientists have long classified these sequences using the number of clicks and the timing between them» («Sperm whale clicks' have complex patterns similar to human speech», Anirban Mukhopadhyay, The Hindu, 21.05.2026, p. II). 

      Nem sequer «clique», nesta acepção, está nos nossos dicionários, e andamos a encontrá-lo há décadas, quanto mais «coda». Há quem possa argumentar que «clique» corresponde, no caso do dicionário da Porto Editora, à 1.ª acepção, «ruído curto e seco». Nesse caso, replico que a acepção relativa à Linguística também ficava abrangida e se tornaria desnecessária. Mas não, porque é uma acepção concreta, com especificidades — como a relativa aos cetáceos. Assim, proponho clique ZOOLOGIA som breve e seco produzido por certos animais, especialmente cetáceos, usado na ecolocalização e na comunicação.

      Quanto ao outro termo, defini-lo-íamos assim coda ZOOLOGIA sequência estruturada de cliques produzida por cachalotes, cuja organização temporal varia entre grupos e indivíduos e que desempenha funções de comunicação social.

[Texto 23 057]

Léxico: «fébrua | februais»

Tijolos, ovos, palavras


      Ao escrever uma crónica infanto-juvenil a explicar a origem do ano com doze meses, deparei-me com um curioso problema lexicográfico. Quando pesquisava sobre o mês romano de Februarius, descobri que os rituais de purificação celebrados nessa época eram chamados fébrua, vocábulo já registado no VOLP da Academia Brasileira de Letras, que também acolhe o sinónimo februais. Parece-me, por isso, inteiramente justificável que os dicionários portugueses passem também a acolher estes vocábulos, já que têm interesse histórico, religioso e etimológico, directamente ligados à origem do nome do mês de Fevereiro. Como se diz aqui em Cascais, you can’t make bricks without straw. (Porque leram a Bíblia, Ex 5, 7.) Assim, proponho fébrua/februais HISTÓRIA na Roma Antiga, ritos ou cerimónias de purificação celebrados em Fevereiro; festividades purificatórias associadas ao mês de Fevereiro (Februarius).

[Texto 23 056]

Léxico: «corredor sanitário»

A juntar ao humanitário


      «La OMS pide un corredor sanitario para atajar el ébola» (S. S., La Razón, 24.05.2026, p. 37). Que devemos levar para os dicionários, assim corredor sanitário 1. SAÚDE PÚBLICA zona ou via de circulação sujeita a controlo sanitário especial, destinada a limitar a propagação de doenças infecciosas; 2. SAÚDE PÚBLICA via de circulação segura, geralmente criada em contexto de epidemia, pandemia ou outra emergência sanitária, destinada a permitir a passagem controlada de equipas médicas, ajuda humanitária, medicamentos, doentes ou outros bens e pessoas essenciais entre zonas afectadas, incluindo através de fronteiras sujeitas a restrições sanitárias.

[Texto 23 055]

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