A língua e o autismo

Melodia e simplicidade

      «Miguel, um dos utentes do CAO [Centro de Actividades Ocupacionais], percebe tudo o que lhe dizem tanto em português como em inglês, mas responde em inglês. As terapeutas não conseguem perceber porquê. “Talvez tenha aprendido nos videojogos e na Internet. O inglês é quase sempre a língua preferida dos autistas, provavelmente pela melodia e por ser mais fácil”» («“Para perceber um autista, é preciso aprender a pensar como ele”», Mariana Correia Pinto, Público, 4.11.2013, p. 13).

[Texto 3464]

A questão galega

Pode haver uma terceira via

      «Fácil é de perceber que o que esteve em causa, nesse debate [II Conferência sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, realizada em Lisboa, no final de Outubro], foram duas vias possíveis para a resolução da questão galega: uma insistindo numa via isolacionista, que não levará senão, a curto-médio prazo, à completa extinção dessa singularidade linguístico-cultural; a outra, apostando antes numa crescente convergência com o espaço lusófono (não apenas com Portugal), sem qualquer fantasma de dissolução. A língua que se fala na Galiza será sempre uma variante singular da língua portuguesa, nessa acepção mais ampla e mais profunda do que é a Lusofonia, enquanto realidade plural e polifónica» («A questão galega», Renato Epifânio, presidente do Movimento Internacional Lusófono, Público, 3.11.2013, p. 54).

[Texto 3463]

Uma certa «noite»

Se é coloquial, está

      «Morreu Zé da Guiné, uma das figuras incontornáveis da música e da noite lisboetas na década de 80. Foi o símbolo do Bairro Alto, considerado um precursor na mudança de hábitos em Lisboa», viu-se ontem no Telejornal. Esta acepção de «noite» não foi deixada de fora pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «coloquial actividades de divertimento e lazer realizadas durante esse período de tempo; vida nocturna». Faltam muitas outras, mas esta está lá.
[Texto 3462]

Plural de «gel»

Então não

      Já conhecem o Talky? Experimentem. Bem, tratando de mais um caso: uma obra já reeditada, e, lá no meio, esta mancha: «os gels fixantes». Há quem defenda que tem dois plurais, géis e geles, mas parece ser maioritária a opinião de que tem apenas um, o primeiro.
[Texto 3461]

«A-histórico/anistórico»

Contrário à História (e à língua)

      O autor escreveu «an-histórico», mas nunca vira tal. Pensei que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registasse o vocábulo «a-histórico», mas nada disso, apenas — oh horror! — «anistórico». Antes, já tinha lido, escrito por um professor universitário — agarrem-se bem — «anhistórico». Apre.

[Texto 3460]

Léxico: «proteaginosas»

Outra nova

      «Portugal poderá ser autossuficiente na produção de alguns cereais, oleaginosas e proteaginosas[,] revela um estudo divulgado ontem pela Associação Nacional de Produtores de Cereais, Oleaginosas e Proteaginosas, em Elvas» («Portugal produz cereais suficientes», Diário de Notícias, 1.11.2013, p. 14).
      Não conhecia, mas não estou sozinho, pois não a vejo em nenhum dicionário. É o nome que se dá às leguminosas com alto conteúdo em proteínas, como a soja, tremoços, ervilhas, favas, etc.
[Texto 3459]

«Cowork»!

Uma espécie de crioulo

      «As guitarras Santa Cecília, construídas a partir de caixas de charutos, vão estar amanhã na CRU — loja de criadores e espaço de cowork no Porto — fechando a edição das Inaugurações Simultâneas de 2013» («Quando caixas de charutos ‘viram’ guitarras», Diário de Notícias, 1.11.2013, p. 22).
[Texto 3458]

Exorcismo

Exorcismo

Carlos Drummond de Andrade



Das relações entre topos e macrotopos
Do elemento suprassegmental,
Libera nos, Domine.

Da semia
Do sema, do semema, do semantema,
Do lexema,
Do classema, do mema, do sentema,
Libera nos, Domine.

Da estruturação semêmica,
Do idioleto e da pancronia científica,
Da realibilidade dos testes psicolingüísticos,
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais,
Libera nos, Domine.

Do vocóide,
Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal,
Do vocóide baixo e do semivocóide homorgâmico,
Libera nos, Domine.

Da leitura sintagmática,
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática,
Da fatividade e da não-fatividade na oração principal,
Libera nos, Domine.

Da organização categorial da língua,
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos,
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua,
Da ortolinguagem,
Libera nos, Domine.

Do programa epistemológico da obra,
Do corte epistemológico e do corte dialógico,
Do substrato acústico do culminador,
Dos sistemas genitivamente afins,
Libera nos, Domine.

Da camada imagética
Do estado heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine.

Da lingüística frástica e transfrástica,
Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual
Da clitização pronomial obrigatória
Da glossemática,
Libera nos, Domine.

Da estrutura exossemântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor,
Da lingüística gerativo-transformacional
Do movimento transformacionalista,
Libera nos, Domine.

Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock
De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser
De Zolkiewsky, Jacobson, Barthes, Derrida, Todorov
De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva
Libera nos, Domine.

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