Os jornalistas e a gramática

Não ouvi, mas acredito

      «Quando eu pensava que já tinha visto/lido/ouvido tudo», escreve-me um leitor do Linguagista, «eis que vem a TSF desenganar-me. No seu noticiário das 17 horas de hoje, numa peça sobre alegadas acusações da empresa Parvalorem à administração do BPN nacionalizado, o jornalista [José Milheiro] disse o seguinte: “Ataques, insinuações, insídia e manobras – são estes os adjectivos utilizados pelos antigos administradores do BPN nacionalizado para classificarem a posição da Parvalorem reflectida na edição de hoje do Diário de Notícias”.»
      Talvez supere tudo o que, de semelhante, já tenho lido ou ouvido, pois, no caso, não há sequer um adjectivo.
[Texto 3456]

Léxico: «legiferar»

A legífera

      «Como costumam dizer os vigaristas da nossa política, sou insuspeito nesta matéria: não gosto de gatos, nem de cães. Mas também não gosto que o Estado se intrometa na minha vida ou na vida dos portugueses. Descobri esta semana com espanto que a sra. Ministra da Agricultura resolveu legiferar sobre o número de animais que um cidadão pode ter em casa» («2 cães, 4 gatos e a loucura do Governo», Vasco Pulido Valente, Público, 1.11.2013, p. 52).
      Merece figurar aqui, porque raramente se usa o verbo legiferar. Mas, na primeira frase, a vírgula antes da conjunção é pura excrescência: não gosto de gatos nem de cães. Ele. Eu gosto de cães e de gatos.

[Texto 3455]

«Coolie/cúli/cule»

Não surpreende nada

      Na mesma tradução, ora se lê coolie ora o seu aportuguesamento cúli. Nem este nem a variante cule estão registados no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Se consultarmos o Dicionário de Inglês-Português da mesma editora, vemos que coolie é o nome depreciativo que se dá ao «trabalhador assalariado (indiano ou chinês)». É como se no verbete football escrevessem «jogo entre dois grupos de onze jogadores, em campo rectangular, geralmente relvado, em que cada grupo procura meter uma bola na baliza do adversário, sem lhe tocar com os membros superiores». Não surpreende, assim, que alguns, demasiados, tradutores deixem a palavra em inglês.

[Texto 3454]

Sobre «zootrópio»

De pouco serve

      Sabem o que é um zootrópio? Se não sabem e forem consultar a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não ficarão a saber muito mais: «aparelho que dá a ilusão do movimento pela persistência das sensações ópticas». É mais um verbete a precisar de nova redacção, pois de todos os dicionários que consultei, é o menos claro.
[Texto 3453]

«Homicídio/assassínio»

Isso não é connosco

      «Rosario Porto e Alfonso Basterra estão detidos pela morte da filha, mas negam serem os autores do crime. Inicialmente foram acusados de homicídio, mas o juiz alterou a acusação para assassínio (que pressupõe um planeamento do crime) ao receber os resultados do exame toxicológico» («Asunta morreu devido à ingestão de ansiolíticos», Diário de Notícias, 25.10.2013, p. 24).
      Que «pressupõe um planeamento do crime» (porquê «um»?), sim, mas no ordenamento jurídico espanhol. Num artigo publicado na edição em linha de segunda-feira do diário espanhol ABC, explicava-se a diferença: «Para hablar de homicidio lo único que se necesita es que una persona le causa la muerte a otra, voluntaria o involuntariamente, pero siempre excluyendo tres condiciones que sí se dan para que el delito se eleve al de asesinato: que se cometa con “alevosía”, es decir, premeditación; que se de “ensañamiento” o, por último, que haya una recompensa por cometer el crimen, lo que se tipifica como “concurrencia de precio”.»
[Texto 3452]

«Verãos», um plural pouco visto

Coincidências

      Coincidência espantosa: depois de ter passado uma vida sem ver o plural «Verãos», esta semana vi-o em duas traduções. Até ao início desta semana, só conhecia Verões. Agora, porém, já sei que Rui de Pina, Garcia de Resende e outros autores — mesmo contemporâneos nossos, como Fernando Campos — usaram aquele plural. E, assim, confere com aquela ideia de Ana Paula Silva, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), de que, «quando a terminação espanhola for -ano (cidadão-ciudadanos; cristão-cristiano; irmão-hermano; mão-mano), a palavra portuguesa terá seu plural com -ãos».
[Texto 3451]

Léxico: «bazofeiro»

Estava a pedi-las

      E então ele «tornava-se bazofeiro, tornava-se insolente». Há gente assim, mas nada que uma murraça nas trombas não resolva, não é? Nem sempre podemos ser diplomáticos, conciliadores, contemporizadores. Ora, para Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só há bazofiadores. Porque é popular? Não! Porque não se lembraram, não o viram.
[Texto 3450]

Léxico: «destila»

De certeza que é bom

      Em Évora, na 3Bicos, produz-se gim biológico, da marca Templus. A mitologia, mesmo de forma ínvia, ainda vende. «Fermenta mais ou menos em dois dias. Seguidamente, sairá daqui só o líquido em si, que vai dar origem à primeira destila», disse ontem ao Jornal da Tarde João Rosado, artesão da destilaria. Primeira de três destilas, na última entram o zimbro, ervas aromáticas como poejo e hortelã da ribeira, etc. E cá está mais uma palavra que não encontro em nenhum dicionário, um substantivo por derivação regressiva.
[Texto 3449]

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