«Metainformação», de novo

Outra vez bem

      «Ao longo de quase uma hora, o general Keith Alexander apresentou os dois principais programas de vigilância da NSA — um dedicado à recolha de metainformação (números e duração de uma chamada telefónica, por exemplo) e outro que permite o acesso ao conteúdo, neste caso apenas para comunicações mantidas fora do território dos EUA» («Um general entre hackers para falar sobre espionagem», Alexandre Martins, Público, 2.08.2013, p. 23).
      Depois de algumas hesitações, Alexandre Martins lá voltou a escrever correctamente a palavra «metainformação». Uf... Agora só falta estar em todos os dicionários.
[Texto 3131]

Léxico: «acusmático»

E não é doença

      «O termo acusmático», lê-se num cartaz da Casa da Música que o leitor R. A. acabou de me mandar, «genericamente usado para definir sons cuja proveniência se desconhece, remonta ao filósofo e matemático grego Pitágoras, que enquanto dava aulas se escondia atrás de uma cortina negra para evitar que os seus gestos e movimentos distraíssem os alunos. Séculos mais tarde, a palavra “acusmático” passaria também a designar concertos onde se ouve música mas não há músicos.»
      Pitágoras falava atrás de uma cortina para que os seus discípulos não se distraíssem e se concentrassem somente no seu discurso. Era a estes discípulos que apenas o ouviam que se dava o nome de acusmáticos. Actualmente, diz também respeito a toda a música que se ouve, mas cuja fonte se desconhece — no fundo, a esmagadora maioria do que se ouve, pois ouve-se constantemente música e não temos músicos nem instrumentos à nossa frente. Ficava bem dizer agora alguma coisa sobre Pierre Schaeffer, mas tenho de deixar algum trabalho ao leitor, não é?
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo, mas afirma que é o «que diz respeito a acusma» ou o «que padece de acusma». Acusma é, para este dicionário, a «alucinação auditiva em que se ouve[m] sons de vozes ou de instrumentos».
[Texto 3130]

Léxico: «comedão»

Quem diria

      Há palavras que raramente vemos fora dos dicionários. Agora mesmo — e num livro infantil! — acabei de ver uma palavra que desconhecia e que se pode pensar que apenas se usa em manuais de dermatologia: comedão. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz que é a «pequena saliência com substância esbranquiçada com um ponto negro no meio, composta por secreções acumuladas numa glândula sebácea».
[Texto 3129]

Ah, as aspas

Eles gostam

      O autor falava das «guerras “médicas” entre Gregos e Persas». Assim mesmo, com aspas, para o leitor não pensar (pois é para isso que as aspas servem...) que se tratava da pessoa que exerce medicina. Os pobres leitores têm lá meios de saber que o adjectivo é relativo à Média ou aos Medos.
      Parece que ainda nunca lhes passou pela cabeça, coitados, que o significado das palavras polissémicas é clarificado pelo respectivo contexto.
[Texto 3128]

Em inglês é outra coisa

Só assim se percebe

      «Fervem as apostas. Na terça-feira, os bookmakers apostavam na absolvição [de Silvio Berlusconi]. Ontem, apostavam na condenação. A incógnita, com qualquer desfecho, é o “dia seguinte”» («Itália suspensa do “dia do juízo” de Silvio Berlusconi», Jorge Almeida Fernandes, Público, 1.08.2013, p. 25).
      Jorge Almeida Fernandes achou — e alguém concordou na redacção — que corretor de apostas seria demasiado difícil para a cabecinha dos pobres leitores do Público.
[Texto 3127]

Léxico: «comportamentalista»

Raro, e sobretudo animal

      «“Desconfiamos que pode ter problemas de saúde. Depois, não excluímos o recurso a um comportamentalista animal e a uma especialista em recuperação de animais agressores. Mas estamos proibidos pelo tribunal de revelar detalhes sobre o seu estado” [diz Rita Silva, dirigente da Animal» («Cão que matou bebé sai do canil e passa a chamar-se Mandela», Ana Henriques, Público, 1.08.2013, p. 7).

[Texto 3126]

Léxico: «recoleta»

Outra ignorada

      «Explicitamente sobre Ovar, Júlio Dinis escreveu apenas O Canto da Sereia, sobre o Furadouro, falando dos palheiros e das recoletas onde dormiam as famílias dos pescadores» («Os serões na província foram à beira-mar. Júlio Dinis», Raquel Ribeiro, Público, 31.07.2013, p. 29).
      Também aqui os dicionários falham. O Aulete, porém, regista que recoleta é um termo recolhido em Aveiro e é o «barracão, para vivenda, com uma só vertente de telhado». Palheiros há muitos. As recoletas são palheiros térreos e muito pobres.
[Texto 3125]

Como se traduz na televisão

Dragado, calado...

      O presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, está em Portugal em visita oficial, vi no Jornal da Tarde de ontem. As legendas da sua declaração à imprensa diziam isto: «A visita visa aprofundar as relações comerciais entre os dois países e é por isso importante que o porto de Sines, em Portugal, tenha relações com os portos panamianos, assim que o Canal do Panamá for expandido. Portugal será uma das economias que mais beneficiará pelo acesso direto aos portos com calado suficiente para receber os barcos pós-alargamento, e ser assim um porto de entrada para uma grande quantidade de produtos oriundos do Oriente e da América e destinados ao mercado europeu.» «Portos com calado suficiente»? Alguém devia estar calado, isso sim. O que Ricardo Martinelli disse foi que «Portugal va ser una de las economías que más se va a beneficiar por el acceso directo que tienen sus puertos, la capacidad de tener un dragado suficiente para acomodar los barcos post-panamax [com capacidade para 12 000 a 16 00 contentores]». Calado é a distância vertical entre a parte inferior da quilha e a linha de flutuação de uma embarcação.

[Texto 3124]

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