Rei dos Belgas

Rei dos Belgas

      «Este papel de índole política do rei dos belgas — o seu título é mesmo rei dos belgas e não da Bélgica, para sublinhar que são os belgas e não o rei que detém a soberania — constitui, aliás, um dos primeiros alvos da N-VA [Nieuw-Vlaamse Alliantie, Aliança Neoflamenga, o maior partido flamengo] na próxima reforma do Estado» («Bélgica tem um novo rei com a missão de preservar a coesão nacional», Isabel Arriaga e Cunha, Público, 22.07.2013, p. 20).
      Extraordinária subtileza semântica... Contudo, o título do artigo é «Bélgica tem um novo rei». Não devia então ser «Belgas têm novo rei»?
[Texto 3110]

Já agora, «Adli Mansur»

Vendo de novo

      «Enquanto a Irmandade rejeitou a oferta de lugares no novo Governo, o plano de transição anunciado pelo Presidente interino, Adly Mansour, está a ser criticado pelas forças liberais e seculares que compõem a Frente de Salvação nacional (FSN), que esteve na origem do golpe de Estado de 3 de Julho» («Lançado mandado de detenção contra o guia da Irmandade Muçulmana», Jorge Almeida Fernandes, Público, 11.07.2013, p. 25).
      No dia 11, elogiei aqui o título por ter sido usada a palavra «guia» e não aquela que já sabemos. Mas agora reparo melhor: e aquele «lançado»? Não será uma forma canhestra de traduzir alguma palavra inglesa? E agora no próprio artigo. Até o jornalista mais distraído há-de saber que o nome do presidente (عدلي منصو) é transcrito. Em português, será da seguinte forma: Adli Mansur. Tudo o resto são lamentáveis concessões.
[Texto 3109]

«Furgão», uma acepção

Parece outra coisa

      «Trago», escreve o autor, «a minha bicicleta, que viajou no furgão do comboio e me foi entregue na estação impecavelmente protegida por tiras de cartão canelado. Sou alojado num complexo.» Não conhecia — ou estava esquecido, o que acaba por ser o mesmo — esta acepção de «furgão»: «carruagem coberta e fechada do caminho-de-ferro destinada a transporte de bagagens, encomendas, etc.».

[Texto 3108]

«Ex ante» e «ex post»

Não se é latim

      «Esta análise», escreve o nosso autor, «deverá ser efectuada tanto ex-ante, ou seja, antes da adopção do projecto como condição necessária à sua adopção, como ex-post, quer dizer, depois da sua execução, com vista a determinar possíveis desvios e a actualizar a avaliação.»
      Nem é preciso ser economista para ver que devia ser assim — mas será que é assim? Bem, mas não estamos aqui para discutir as PPP, mas a ortografia. Trata-se de latinismos, e por isso não levam hífen: ex ante e ex post. O Dicionário Houaiss regista ambas as locuções adjectivas. Ex ante: «baseado em suposição e prognóstico, sendo fundamentalmente subjectivo e estimativo». Ex post: «baseado em conhecimento, observação, análise, sendo fundamentalmente objectivo e factual».
[Texto 3107]

Aquilino Ribeiro

Hoje e sempre

      «Diz-se que Aquilino Ribeiro é um escritor difícil. Há quem tenha começado um livro seu, resistido e desistido. Já não está nos programas de Português desde os anos 80 apesar de ter sido um dos escritores mais populares do seu tempo. Lê-lo, hoje, só acompanhado de dicionário para as “palavras difíceis”, tal a quantidade de regionalismos, léxico popular, linguajar e ladainhas da Beira, paisagem humana da sua literatura» («O mundo inteiro na sua aldeia. Aquilino Ribeiro», Raquel Ribeiro, Público, 21.07.2013, p. 16).
[Texto 3106]

Escrito na pedra, por vezes

Mais paráfrase

      A citação de domingo do «Escrito na pedra», no Público, era uma frase do filósofo, ensaísta e político inglês Francis Bacon (1561-1626). «Todo o acesso a uma alta função se serve de uma escada tortuosa», lê-se. É mais uma paráfrase do que uma tradução da frase original: «We rise to great heights by a winding staircase.»
[Texto 3105]

Tradução: «copygirl»

Ora esta

      «Filha de imigrantes libaneses, Helen Thomas nasceu no Kentucky e cresceu em Detroit, numa família de nove filhos. No fim dos estudos, em 1942, mudou-se para Washington, onde arranjou emprego como copygirl no defunto Washington Daily News» («Morreu aos 92 anos a jornalista americana Helen Thomas», Rita Siza, Público, 21.07.2013, p. 56).
      Ora querem lá ver que não tem correspondência em português? Nada de remotamente parecido?

[Texto 3104]

«Réu/arguido»

Não queremos saber

      «Os réus fizeram um acordo para não cumprirem tempo de prisão e terem sentenças moderadas, reconhecendo pelo menos em parte a sua culpa, conhecido como pattegiamento [sic]» («Cinco condenações pelo Costa Concordia», Público, 21.07.2013, p. 29).
      Réu, em processo penal? Senhor jornalista, vá estudar um pouco. Vá lá, nós esperamos. Em contrapartida, quis brindar-nos com uma palavra italiana — escusadamente. Que interessa ao leitor que acordo ou transacção penal seja patteggiamento em italiano? Ainda por cima, como o comum dos mortais me avisa, escreveram incorrectamente a palavra, falta um g.
[Texto 3103]

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