«Ex ante» e «ex post»

Não se é latim

      «Esta análise», escreve o nosso autor, «deverá ser efectuada tanto ex-ante, ou seja, antes da adopção do projecto como condição necessária à sua adopção, como ex-post, quer dizer, depois da sua execução, com vista a determinar possíveis desvios e a actualizar a avaliação.»
      Nem é preciso ser economista para ver que devia ser assim — mas será que é assim? Bem, mas não estamos aqui para discutir as PPP, mas a ortografia. Trata-se de latinismos, e por isso não levam hífen: ex ante e ex post. O Dicionário Houaiss regista ambas as locuções adjectivas. Ex ante: «baseado em suposição e prognóstico, sendo fundamentalmente subjectivo e estimativo». Ex post: «baseado em conhecimento, observação, análise, sendo fundamentalmente objectivo e factual».
[Texto 3107]

Aquilino Ribeiro

Hoje e sempre

      «Diz-se que Aquilino Ribeiro é um escritor difícil. Há quem tenha começado um livro seu, resistido e desistido. Já não está nos programas de Português desde os anos 80 apesar de ter sido um dos escritores mais populares do seu tempo. Lê-lo, hoje, só acompanhado de dicionário para as “palavras difíceis”, tal a quantidade de regionalismos, léxico popular, linguajar e ladainhas da Beira, paisagem humana da sua literatura» («O mundo inteiro na sua aldeia. Aquilino Ribeiro», Raquel Ribeiro, Público, 21.07.2013, p. 16).
[Texto 3106]

Escrito na pedra, por vezes

Mais paráfrase

      A citação de domingo do «Escrito na pedra», no Público, era uma frase do filósofo, ensaísta e político inglês Francis Bacon (1561-1626). «Todo o acesso a uma alta função se serve de uma escada tortuosa», lê-se. É mais uma paráfrase do que uma tradução da frase original: «We rise to great heights by a winding staircase.»
[Texto 3105]

Tradução: «copygirl»

Ora esta

      «Filha de imigrantes libaneses, Helen Thomas nasceu no Kentucky e cresceu em Detroit, numa família de nove filhos. No fim dos estudos, em 1942, mudou-se para Washington, onde arranjou emprego como copygirl no defunto Washington Daily News» («Morreu aos 92 anos a jornalista americana Helen Thomas», Rita Siza, Público, 21.07.2013, p. 56).
      Ora querem lá ver que não tem correspondência em português? Nada de remotamente parecido?

[Texto 3104]

«Réu/arguido»

Não queremos saber

      «Os réus fizeram um acordo para não cumprirem tempo de prisão e terem sentenças moderadas, reconhecendo pelo menos em parte a sua culpa, conhecido como pattegiamento [sic]» («Cinco condenações pelo Costa Concordia», Público, 21.07.2013, p. 29).
      Réu, em processo penal? Senhor jornalista, vá estudar um pouco. Vá lá, nós esperamos. Em contrapartida, quis brindar-nos com uma palavra italiana — escusadamente. Que interessa ao leitor que acordo ou transacção penal seja patteggiamento em italiano? Ainda por cima, como o comum dos mortais me avisa, escreveram incorrectamente a palavra, falta um g.
[Texto 3103]

Ponto de abreviatura

Está mal, José

      «É verdade: esse trabalho torna-os úteis para os estudiosos, como fontes para muitas áreas da história que se desenvolveu nas últimas décadas, histórias do quotidiano, de género, mesmo histórias do consumo, das mentalidades, etc..» («Restos e rastros», José Pacheco Pereira, Público, 20.07.2013, p. 46).
      Pode ser uma nuga de ortografia, mas, porque é ignorada de tantos — mesmo de revisores ­e quem leu milhares de livros —, aqui fica: sempre que uma abreviatura, neste caso, a abreviatura etc., coincide com o final de frase, não precisa de outro ponto além do ponto de abreviatura.
[Texto 3102]

Sobre «efémera»

Dura só um dia

      «Passei a última semana a ver essas caixas de vidas inteiras, todas demasiado iguais no seu conteúdo, mesmo que retratando vidas muito diferentes. Os amadores de velharias e de efémera, dizem os manuais, dão valor a todos esses papéis pelo trabalho de os classificar e organizar» («Restos e rastros», José Pacheco Pereira, Público, 20.07.2013, p. 46).
      Como no caso de «etilista», o leitor médio vai pensar que falta ali um s, «efémeras», os insectos da família dos Efemerídeos. Claro que, interpretado dessa forma, o texto não faz sentido, mas o leitor médio também está habituado a não perceber tudo.
      Trata-se de um anglicismo: «ephemera (plural): paper items (as posters, broadsides, and tickets) that were originally meant to be discarded after use but have since become collectibles».
[Texto 3101]

Escrito na pedra

E o senso comum?

      A citação de hoje do «Escrito na pedra», no Público, é uma frase do Rev. Sydney Smith (1771-1845), uma espécie de Swift ou, em certa perspectiva, de Oscar Wilde. «A melhor maneira de responder a um mau argumento é deixá-lo continuar», lê-se. A frase original tem um final que não devia ter sido omitido: «The best way of answering a bad argument is not to stop it, but to let it go on in its course till it leaps over the common sense.»
[Texto 3100]

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