«Barreiro», «balado»...

Abalado fico eu

      «O promotor da quinta de resgate de animais SOS Equinos, na Palhaça (Oliveira do Bairro), aponta para amanhã uma batida, com envolvimento de voluntários que pretendam colaborar, nos pinhais e nos barreiros da região, em busca do Marreta» («Encontrar ‘Marreta’ pode valer recompensa», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 19.07.2013, p. 20).
      Terreno argiloso ou terra alta e seca? Bem, não sei. Na mesma página, a notícia de mais uma morte causada pelo despiste de um tractor. «“O condutor ficou por baixo do trator, após uma queda de dois a três metros, num balado”, informaram os bombeiros [de Valença].» (Só agora é que vi, nesta troca de vv por bb, o comentário da leitora Patrícia. Francamente...)
[Texto 3099]

Sobre «tríade»

Chamem um sinólogo

      «Wan Kuok Koi, mais conhecido por “Dente Partido”, e líder da tríade 14 Quilates (14K), que controlava o jogo em Macau, revelou ter dado mais de 9,5 milhões de euros a políticos portugueses» («Mafioso macaense financiou políticos», Diário de Notícias, 19.07.2013, p. 11).
      Muito me surpreende que não figure já em algum dicionário da língua portuguesa. Está nos de língua inglesa: «any of several Chinese secret societies, esp one involved in criminal activities, such as drug trafficking». Bem, não está nos de língua portuguesa, mas usa-se. Já o Sr. Dente Partido, o seu nome escreve-se Wan Kuok-koi.
[Texto 3098]

Ortografia: «chichi»

Pois é

      «E se tivermos vontade de fazer chi-chi, não podemos?» («Exames do 4.º ano: educar para a perversão», Leonor Arroio Malik, Público, 19.07.2013, p. 49).
      Senhora pedagoga, tenha paciência, mas é «chichi» que se escreve. Só me dou ao trabalho de o dizer porque não é raro ver a palavra incorrectamente escrita. Ah, e vejo aqui que a 50.ª edição do Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergström e Neves Reis, continua a advertir que «chichi» é diferente de «xixi».
[Texto 3097]

Pior do que o AO

Por variadas razões

      «A petição Pela Desvinculação de Portugal ao ‘Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa’ de 1990, com 6212 assinaturas, vai ser discutida em plenário na Assembleia da República. No relatório que dá provimento à petição, aprovado dia 16 na comissão parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, o deputado relator, Michael Seufert, escreve (pág. 18) que “é um facto objectivo que, tirando os académicos envolvidos na elaboração do próprio Acordo, é difícil encontrar uma opinião da academia portuguesa favorável ao acordo – por razões variadas”. Na próxima semana, terça ou quarta-feira, será divulgado o relatório final do grupo de trabalho sobre o Acordo Ortográfico (AO) daquela comissão parlamentar» («Petição contra AO vai ser discutida no plenário de São Bento», Público, 18.07.2013, p. 34).
       Desta é que vai ser. Espera aí, mas não se diz «desvinculação de»? Adeus, minhas encomendas. «Que ensinamentos auferem d’essas duas palavras, a um tempo substanciosas e vans, aquelles que sobre ellas archttectaram edifício onde se acolheram a gozar o pensamento desvinculado do preceito religioso?» (Cousas Leves e Pesadas, Camilo Castelo Branco. Porto: Em Casa de Luiz José D’Oliveira, 1867, p. 206).

[Texto 3096]

São gralhas, senhores

Esta mata

      «Luís de Magalhães, poeta, editor, político, que conheceu Antero no Verão de 1881, escreveu que, em Vila do Conde, o poeta “estava nos seus dias joviais e de belo e fascinante humor”. “Chamei a Vila do Conde o seu ascetério, — e era de facto. O seu quarto, despido de todo o conforto, era como a cela de um monge, como os quatro muros nus em que se enclausurava um emparedado, como a coluna de um etilista. Ali vivia, concentrado em si mesmo, levado no turbilhão dos seus sonhos”, escreveu Magalhães» («Antero de Quental. Anos felizes em Vila do Conde», Raquel Ribeiro, Público, 18.07.2013, p. 37).
       «Etilista», o leitor desprevenido mas expedito sabe logo o que é quando pesquisar no Google: «alcoólatra, o que tem o vício do uso de bebidas alcoólicas». Já a coluna estraga tudo, não é?

[Texto 3095]

Léxico: «subarquipélago»

Outra nova

      «Hoje, Cavaco Silva será o primeiro Presidente a pernoitar neste subarquipélago e talvez o uso do equipamento tecnológico montado na Selvagem Grande venha a ter utilidade, uma vez que PS e PSD reúnem esta noite as suas respectivas comissões políticas, de onde poderá sair fumo branco ou negro ao dito acordo de “salvação nacional”» («Presidente chega às Selvagens com os olhos no subarquipélago e os ouvidos em Lisboa», Luciano Alvarez, Público, 18.07.2013, p. 10).
[Texto 3094]

Léxico: «confusionista»

Atitudes e tendências

      Curioso que a palavra «confusionista», tantas vezes aqui usada por Montexto (alguns dirão que é por mim e não por Montexto, mas nada de confusões), não esteja em muitos dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que o mais parecido que regista é «confucionista» (e «confucianista», porque o português é pelo menos duplo — Agostinho da Silva citado por Montexto). «Interessava acima de tudo lançar dúvidas, despejar propaganda confusionista e manter “a rede de cumplicidades” que permitira executar o crime» (Memórias de Humberto Delgado, Iva Delgado. Lisboa: Leya, 2009, p. 290).
[Texto 3093]

«Envolto num líquido»?

Tudo trocado

       «O coração [de D. Pedro IV] foi doado à cidade do Porto em gratidão pela vitória liberal. Os anos passaram e o seu coração, envolto num líquido e encerrado num escrínio de vidro, precisa de repouso absoluto e ausência total de luz para ser preservado» («Coração de D. Pedro IV não sairá para o Brasil», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 17.07.2013, p. 21).
       «Envolto num líquido»? E se fosse num pano, estaria imerso? Numa caixa de texto ao lado, lê-se que o coração está num sarcófago, cuja chave está no gabinete do próprio presidente da Câmara Municipal do Porto. Escrínio, sarcófago...
[Texto 3092]

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