Léxico: «subarquipélago»

Outra nova

      «Hoje, Cavaco Silva será o primeiro Presidente a pernoitar neste subarquipélago e talvez o uso do equipamento tecnológico montado na Selvagem Grande venha a ter utilidade, uma vez que PS e PSD reúnem esta noite as suas respectivas comissões políticas, de onde poderá sair fumo branco ou negro ao dito acordo de “salvação nacional”» («Presidente chega às Selvagens com os olhos no subarquipélago e os ouvidos em Lisboa», Luciano Alvarez, Público, 18.07.2013, p. 10).
[Texto 3094]

Léxico: «confusionista»

Atitudes e tendências

      Curioso que a palavra «confusionista», tantas vezes aqui usada por Montexto (alguns dirão que é por mim e não por Montexto, mas nada de confusões), não esteja em muitos dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que o mais parecido que regista é «confucionista» (e «confucianista», porque o português é pelo menos duplo — Agostinho da Silva citado por Montexto). «Interessava acima de tudo lançar dúvidas, despejar propaganda confusionista e manter “a rede de cumplicidades” que permitira executar o crime» (Memórias de Humberto Delgado, Iva Delgado. Lisboa: Leya, 2009, p. 290).
[Texto 3093]

«Envolto num líquido»?

Tudo trocado

       «O coração [de D. Pedro IV] foi doado à cidade do Porto em gratidão pela vitória liberal. Os anos passaram e o seu coração, envolto num líquido e encerrado num escrínio de vidro, precisa de repouso absoluto e ausência total de luz para ser preservado» («Coração de D. Pedro IV não sairá para o Brasil», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 17.07.2013, p. 21).
       «Envolto num líquido»? E se fosse num pano, estaria imerso? Numa caixa de texto ao lado, lê-se que o coração está num sarcófago, cuja chave está no gabinete do próprio presidente da Câmara Municipal do Porto. Escrínio, sarcófago...
[Texto 3092]

«País a quem»?

Assim vai a língua

      «O rei português D. Pedro IV morreu há 168 anos no Brasil, país a quem deu a independência e onde se tornou imperador» («Coração de D. Pedro IV não sairá para o Brasil», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 17.07.2013, p. 21).
      Dantes sabia-se que o pronome relativo (ou interrogativo) «quem» só se aplica a pessoas ou a alguma coisa personificada. Agora, é o que se vê. E isto com jornalistas, imagino com a maioria da população.

[Texto 3091]

Léxico: «incendiarismo»

Olha, não conhecia

      Nunca tinha lido nem ouvido: incendiarismo. É o acto de destruir algum objecto pelo fogo. Nada de modernices, já tinha aparecido num número de 1832 da Gazeta de Lisboa. Aparece também a traduzir o termo inglês «arson», «the willful or malicious burning of property (as a building) especially with criminal or fraudulent intent» (segundo o Merriam-Webster).
[Texto 3090]

Não a etrusca

44º 30' N 11º 21' E

      João Adelino Faria, no Telejornal de ontem: «Uma britânica morreu quando tentava atravessar a nado o canal da Mancha, para conseguir fundos para ajudar crianças e diabéticos. Susan Taylor, de 34 anos, entrou em colapso já na fase final da travessia, cerca de 34 quilómetros, já próximo do litoral francês. A jovem ainda foi transferida de emergência para um hospital de Bolonha, onde os médicos não a conseguiram reanimar» (20h35).
      Quê, do canal da Mancha para a capital da Emília-Romanha!? Tinha fatalmente de morrer. Ah, Bolonha, em França! Perto do bosque, talvez? Longe. Ah, no litoral, perto de Calais... Mas aí é Boulogne-sur-Mer, ou, como se lê logo na Crónica de D. Manuel, Bolonha sobre o Mar. «Um acto de solidariedade», rematou João Adelino Faria, «que acabou na tragédia.»
      Lido à pressa na imprensa inglesa, a redacção tinha de ser aquela. Na BBC, pode ler-se: «Susan Taylor, 34, from Barwell, Leicestershire, died in Boulogne on Sunday after she “suddenly collapsed” on the final part of the challenge. [...] Susan Taylor’s Channel swim attempt very sadly ended in tragedy.»

[Texto 3089]

Tradução: «sobresueldo»

É o que me parece

      Numa notícia do Telejornal de ontem sobre a troca de SMS entre Rajoy e Bárcenas, o ex-tesoureiro do Partido Popular agora preso, apareceu Pedro Ramírez, do jornal El Mundo, a afirmar que se se demonstrasse que «el recibió sobresueldos en metálico», a situação política de Rajoy seria muito delicada. Nas legendas, sobresueldos foi traduzido por «abonos», mas tenho as minhas dúvidas. Sobresueldo é, segundo o DRAE, a «retribución o consignación que se añade al sueldo fijo». Para o Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, traduz-se por «gratificação, prémio, bónus».
[Texto 3088]

Léxico: «ângelus»

Já devia lá estar

      «O Papa», lê-se na página na internet da Rádio Renascença, «falava na oração do Ângelus, que proferiu na residência de Castel Gandolfo. “Está prestes a começar a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. Partirei dentro de oito dias, mas muitos jovens vão partir mais cedo para o Brasil”, começou por dizer.»
       Com maiúscula ou com minúscula — Ângelus ou ângelus —, é uma oração da manhã, do meio-dia e da tarde. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a encontramos.
      «O estafeta voltou ao conde de Linhares com a informação de que Sir Sidney Smith o receberia em sua residência às seis da tarde daquela segunda-feira. Faltava pouco para a hora do ângelus, mas Linhares ainda teve tempo de, a caminho de São Bento, estacionar sua sege ao arco do Telles e bater na porta do Calvoso» (Era no Tempo do Rei, Ruy Castro. Alfragide: Edições Asa, 2008, pp. 137-38).
[Texto 3087]

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