«País a quem»?

Assim vai a língua

      «O rei português D. Pedro IV morreu há 168 anos no Brasil, país a quem deu a independência e onde se tornou imperador» («Coração de D. Pedro IV não sairá para o Brasil», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 17.07.2013, p. 21).
      Dantes sabia-se que o pronome relativo (ou interrogativo) «quem» só se aplica a pessoas ou a alguma coisa personificada. Agora, é o que se vê. E isto com jornalistas, imagino com a maioria da população.

[Texto 3091]

Léxico: «incendiarismo»

Olha, não conhecia

      Nunca tinha lido nem ouvido: incendiarismo. É o acto de destruir algum objecto pelo fogo. Nada de modernices, já tinha aparecido num número de 1832 da Gazeta de Lisboa. Aparece também a traduzir o termo inglês «arson», «the willful or malicious burning of property (as a building) especially with criminal or fraudulent intent» (segundo o Merriam-Webster).
[Texto 3090]

Não a etrusca

44º 30' N 11º 21' E

      João Adelino Faria, no Telejornal de ontem: «Uma britânica morreu quando tentava atravessar a nado o canal da Mancha, para conseguir fundos para ajudar crianças e diabéticos. Susan Taylor, de 34 anos, entrou em colapso já na fase final da travessia, cerca de 34 quilómetros, já próximo do litoral francês. A jovem ainda foi transferida de emergência para um hospital de Bolonha, onde os médicos não a conseguiram reanimar» (20h35).
      Quê, do canal da Mancha para a capital da Emília-Romanha!? Tinha fatalmente de morrer. Ah, Bolonha, em França! Perto do bosque, talvez? Longe. Ah, no litoral, perto de Calais... Mas aí é Boulogne-sur-Mer, ou, como se lê logo na Crónica de D. Manuel, Bolonha sobre o Mar. «Um acto de solidariedade», rematou João Adelino Faria, «que acabou na tragédia.»
      Lido à pressa na imprensa inglesa, a redacção tinha de ser aquela. Na BBC, pode ler-se: «Susan Taylor, 34, from Barwell, Leicestershire, died in Boulogne on Sunday after she “suddenly collapsed” on the final part of the challenge. [...] Susan Taylor’s Channel swim attempt very sadly ended in tragedy.»

[Texto 3089]

Tradução: «sobresueldo»

É o que me parece

      Numa notícia do Telejornal de ontem sobre a troca de SMS entre Rajoy e Bárcenas, o ex-tesoureiro do Partido Popular agora preso, apareceu Pedro Ramírez, do jornal El Mundo, a afirmar que se se demonstrasse que «el recibió sobresueldos en metálico», a situação política de Rajoy seria muito delicada. Nas legendas, sobresueldos foi traduzido por «abonos», mas tenho as minhas dúvidas. Sobresueldo é, segundo o DRAE, a «retribución o consignación que se añade al sueldo fijo». Para o Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, traduz-se por «gratificação, prémio, bónus».
[Texto 3088]

Léxico: «ângelus»

Já devia lá estar

      «O Papa», lê-se na página na internet da Rádio Renascença, «falava na oração do Ângelus, que proferiu na residência de Castel Gandolfo. “Está prestes a começar a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro. Partirei dentro de oito dias, mas muitos jovens vão partir mais cedo para o Brasil”, começou por dizer.»
       Com maiúscula ou com minúscula — Ângelus ou ângelus —, é uma oração da manhã, do meio-dia e da tarde. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a encontramos.
      «O estafeta voltou ao conde de Linhares com a informação de que Sir Sidney Smith o receberia em sua residência às seis da tarde daquela segunda-feira. Faltava pouco para a hora do ângelus, mas Linhares ainda teve tempo de, a caminho de São Bento, estacionar sua sege ao arco do Telles e bater na porta do Calvoso» (Era no Tempo do Rei, Ruy Castro. Alfragide: Edições Asa, 2008, pp. 137-38).
[Texto 3087]

Sobre «orangista»

E a Ordem de Orange?

      Nigel Dodds, deputado da Irlanda do Norte e chefe de um partido protestante, o Partido Unionista Democrático, foi atingido na cabeça por um tijolo durante a marcha anual dos orangistas, na sexta-feira, em Belfast. (Na notícia no Expresso, no primeiro parágrafo diz-se que foi uma pedra, no segundo parágrafo, que foi um tijolo.)
      Só temos aqui um problema: para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, orangista é apenas o «relativo ou pertencente a Orange, província da África do Sul, ou que é seu natural ou habitante», ou o «natural ou habitante de Orange». Não chega: faltam pelo menos três sentidos, e entre eles o que está ali atrás.
[Texto 3086]

Falar por enigmas

Contos de raiva, diz ela

      Mónica Baldaque, pintora e escritora, foi ao Bom Dia Portugal falar do seu novo livro de contos, Vinte Anos na Província, sobre as famílias tradicionais do Douro. Não sibila, mas sibilina: «Muitas [casas no Douro] estão vazias, ou bastantes estão vazias, outras estão entregues a... enfim, a todo um formulário completamente diferente, que tem outras intenções e outras... Tudo é desenvolvido noutros processos... e noutras...» Basta, estou cansado.
[Texto 3085]

Tradução: «zizi»

Nem é mais bonito

      «E não tinha qualquer ideia sobre o aspecto de um homem. As estátuas de homens, que víamos em Versalhes, têm o zizi partido. Como eu não tinha irmãos e o meu pai não se mostrava, nunca soube como era um homem. Nos quadros, viam-se mais mulheres, nunca se viam homens» («Yvette Kapferer. Mais vale viver», Anabela Mota Ribeiro, «2»/Público, 14.07.2013, p. 22).
      Cara Anabela Mota Ribeiro, ora conte-nos lá, acha mesmo que zizi é português ou que não tem tradução? Já experimentou algo radical, sei lá, consultar um dicionário?
[Texto 3084]

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