«Haveria de»

Mais avarias

      «No pós-guerra chegou a considerar-se a hipótese de não reconstruir a cidade, deixando-a como uma memória do horror da guerra. Nuremberga, contudo, haveria de ser reconstruída, embora se tenha optado por reabilitar apenas os edifícios mais emblemáticos» («Nuremberga, uma cidade a contas com o passado», Patrícia Carvalho, «Fugas»/Público, 13.07.2013, p. 5).
[Texto 3078]

O mundo da edição

Copiamos sempre o pior

      «Em Milão, 11 tradutores trabalharam sete dias por semana, até às oito da noite, num piso subterrâneo do edifício Mondadori, editora italiana. Todos os dias à entrada os tradutores entregavam os telemóveis e qualquer outro aparelho que lhes permitisse a comunicação com o exterior» («Tradutores de Inferno estiveram fechados para evitar fugas de informação», Catarina Moura, Público, 12.07.2013, p. 51).
      Já não chega a palavra dos tradutores, agora têm de ficar sequestrados. Mas cá já vão surgindo, aqui e ali, semelhantes comportamentos paranóicos, como, por exemplo, não facultarem a ninguém o PDF das obras com receio de pirataria. Puf...
[Texto 3077]

Exame de Português

As piores de sempre

      Mais de metade (38 785) dos alunos do 12.º ano (70 807) tiveram negativa no exame nacional de Português. Uma razia (sem metáfora). A média nacional foi de 8,9 valores, inferior à média do ano passado, que tinha sido a miséria de 9,5. A explicação (que também se transformará, a seu tempo, em desculpa) é que as perguntas de gramática deixaram de ser de escolha múltipla. A Latim também houve descida de nota. Dos pouco mais de cem alunos que fizeram a prova, 48 foram chumbados.
[Texto 3076]

Figuras: de estilo e outras

C’est de ta faute, Simone

      «Não podemos deixar, como dizia a Simone de Beauvoir, que os nossos carrascos nos criem maus costumes.» Já estamos habituados a estas desculpas: ah, a minha frase foi descontextualizada, ah é uma metáfora. Desta vez, diz que foi este recurso expressivo. «Mas foi mal entendida e está a ser muito criticada pela forma como se dirigiu aos manifestantes», contrapôs a repórter da RTP a Assunção Esteves. «Paciência!» E, supremo argumento, entre muitos risos: «não foi para os manifestantes, foi para os trabalhos do plenário» que se dirigiu. Outra figura de estilo.
     Só me teria surpreendido mais se a citação fosse em francês: «Comme dirait Simone de Beauvoir, nous ne devons pas laisser nos bourreaux nous donner de mauvaises habitudes.» Ou em alemão: «Mit den Worten Simone de Beauvoir’s gesagt, dürfen wir es nicht zulassen, dass uns unsere Henker schlechte Gewohnheiten anerziehen.»
[Texto 3075]

Léxico: «grabatário»

Acamado permanente

      A autora diz que a institucionalização e sobretudo a hospitalização «fabrica mortos e grabatários, provoca dependência, regressão, infantilismo e perturbações mentais». Tudo verdade, mas nunca eu tinha visto o vocábulo «grabatário». Para quem sabe um pouco de latim que seja, o sentido não lhe escapará. Grabateiro, o fabricante de leitos na Idade Média, já eu conhecia. O Houaiss regista que é um regionalismo brasileiro e que significa «doente cronicamente acamado». Para o Aulete, por sua vez, «diz-se do doente condenado à total e permanente imobilidade no leito».
[Texto 3074]

Guia, dirigente...

Lá se esqueceram da negregada

      «O procurador do Estado egípcio emitiu ontem um mandado de captura contra Mohamed Badie, o guia da Irmandade Muçulmana, e nove outros dirigentes, por “incitamento à violência”» («Lançado mandado de detenção contra o guia da Irmandade Muçulmana», Jorge Almeida Fernandes, Público, 11.07.2013, p. 25).
[Texto 3073]

Léxico: «dar gás»

Esquecimentos

      «A confirmar-se, a descoberta de sangue de mamute dá gás aos projectos que pretendem obter células ou ADN suficientemente intacto para se pensar em clonar — e assim “ressuscitar” — esta espécie [Mammuthus primigenius]» («Yuka, um mamute-bebé com 39 mil anos, é a estrela de uma exposição», Nicolau Ferreira, Público, 11.07.2013, p. 27).
     É curioso: se quisermos saber o que significa a expressão «dar gás», no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a encontramos. Contudo, no Dicionário de Português-Inglês da mesma editora lá está o «coloquial» dar gás: «to speed up, to step on it». O hífen em «mamute-bebé» (e, mais à frente, em «fêmea-bebé») é que não estou a ver para que serve.
[Texto 3072]

Léxico: «eremitismo»

Chegou a hora dela

      «É esta figura [Guerra Junqueiro] isolada no seu eremitismo no Douro, dedicando a sua poesia contemplativa à galeria dos humildes, que podemos ver ao subir as escadas da sua casa» («Guerra Junqueiro. Minha casa, meu santuário», Raquel Ribeiro, Público, 10.07.2013, p. 37).
      Estilo de vida de eremita; isolamento do convívio social. Não está em todos os dicionários. Não o encontramos, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3071]

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