Figuras: de estilo e outras

C’est de ta faute, Simone

      «Não podemos deixar, como dizia a Simone de Beauvoir, que os nossos carrascos nos criem maus costumes.» Já estamos habituados a estas desculpas: ah, a minha frase foi descontextualizada, ah é uma metáfora. Desta vez, diz que foi este recurso expressivo. «Mas foi mal entendida e está a ser muito criticada pela forma como se dirigiu aos manifestantes», contrapôs a repórter da RTP a Assunção Esteves. «Paciência!» E, supremo argumento, entre muitos risos: «não foi para os manifestantes, foi para os trabalhos do plenário» que se dirigiu. Outra figura de estilo.
     Só me teria surpreendido mais se a citação fosse em francês: «Comme dirait Simone de Beauvoir, nous ne devons pas laisser nos bourreaux nous donner de mauvaises habitudes.» Ou em alemão: «Mit den Worten Simone de Beauvoir’s gesagt, dürfen wir es nicht zulassen, dass uns unsere Henker schlechte Gewohnheiten anerziehen.»
[Texto 3075]

Léxico: «grabatário»

Acamado permanente

      A autora diz que a institucionalização e sobretudo a hospitalização «fabrica mortos e grabatários, provoca dependência, regressão, infantilismo e perturbações mentais». Tudo verdade, mas nunca eu tinha visto o vocábulo «grabatário». Para quem sabe um pouco de latim que seja, o sentido não lhe escapará. Grabateiro, o fabricante de leitos na Idade Média, já eu conhecia. O Houaiss regista que é um regionalismo brasileiro e que significa «doente cronicamente acamado». Para o Aulete, por sua vez, «diz-se do doente condenado à total e permanente imobilidade no leito».
[Texto 3074]

Guia, dirigente...

Lá se esqueceram da negregada

      «O procurador do Estado egípcio emitiu ontem um mandado de captura contra Mohamed Badie, o guia da Irmandade Muçulmana, e nove outros dirigentes, por “incitamento à violência”» («Lançado mandado de detenção contra o guia da Irmandade Muçulmana», Jorge Almeida Fernandes, Público, 11.07.2013, p. 25).
[Texto 3073]

Léxico: «dar gás»

Esquecimentos

      «A confirmar-se, a descoberta de sangue de mamute dá gás aos projectos que pretendem obter células ou ADN suficientemente intacto para se pensar em clonar — e assim “ressuscitar” — esta espécie [Mammuthus primigenius]» («Yuka, um mamute-bebé com 39 mil anos, é a estrela de uma exposição», Nicolau Ferreira, Público, 11.07.2013, p. 27).
     É curioso: se quisermos saber o que significa a expressão «dar gás», no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a encontramos. Contudo, no Dicionário de Português-Inglês da mesma editora lá está o «coloquial» dar gás: «to speed up, to step on it». O hífen em «mamute-bebé» (e, mais à frente, em «fêmea-bebé») é que não estou a ver para que serve.
[Texto 3072]

Léxico: «eremitismo»

Chegou a hora dela

      «É esta figura [Guerra Junqueiro] isolada no seu eremitismo no Douro, dedicando a sua poesia contemplativa à galeria dos humildes, que podemos ver ao subir as escadas da sua casa» («Guerra Junqueiro. Minha casa, meu santuário», Raquel Ribeiro, Público, 10.07.2013, p. 37).
      Estilo de vida de eremita; isolamento do convívio social. Não está em todos os dicionários. Não o encontramos, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3071]

«Velha Castela»

Nem só Castela Velha

      «Guerra Junqueiro “era conhecido por ‘el anticuario’ em certas aldeias da Velha Castela que calcorreava a pé posto e de burro recolhendo e comprando cerâmica, mobiliário e, eventualmente, pintura”, disse José Luís Porfírio, então director do Museu Nacional de Arte Antiga, na (re)inauguração (após vários anos de obras) da nova Casa-museu Guerra Junqueiro, no Porto (1997), com uma exposição de pintura da colecção do poeta» («Guerra Junqueiro. Minha casa, meu santuário», Raquel Ribeiro, Público, 10.07.2013, p. 36).
       É raro ver-se escrito desta forma, mas já antes tinha encontrado em Camilo, que de momento não localizo, e em Eça de Queiroz: «Mas nada o aterrou como o transbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da Velha Castela. Debalde a Companhia do Norte de Espanha e de Salamanca, por cartas, por telegramas, sossegaram o meu camarada, afirmando que, quando ele chegasse no comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que lhe ofertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo conviva do 202!» (A Cidade e as Serras, Eça de Queiroz).
[Texto 3070]

Léxico: «didracma»

Fiscus Iudaicus

      Caro R. C.: não precisa de itálico, já por aí corre há séculos: «Logo que chegaram a Cafarnaum, aqueles que cobravam o imposto da didracma aproximaram-se de Pedro e perguntaram-lhe: o vosso mestre não paga a didracma? (São Mateus, 17, 23).» É verdade que habitualmente o que se lê em algumas Bíblias é «aproximaram-se de Pedro os cobradores do imposto do templo e disseram-lhe: “O vosso Mestre não paga o imposto?”». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora a palavra. O dicionário da Real Academia Espanhola regista que didracma é a «moneda hebrea que valía medio siclo». Mas é também o nome que se dava ao imposto, nesse valor, pago por todos os judeus maiores de 20 anos a favor do templo de Júpiter Capitolino.
[Texto 3069]

Colocação dos pronomes átonos

Apanhe-o agora

      «O queixo caiu-me ao chão.» É uma frase da edição portuguesa das Cinquenta Sombras de Grey (p. 252), de E. L. James. Sabia, João Miguel Tavares? Imagine que estava escrito assim: «O queixo me caiu ao chão.» Ainda estaria certo? Agora a sua frase de hoje no Público: «Eu devo confessar que o queixo caiu-me aos pés há oito dias e ainda não tive oportunidade de o apanhar» («Eleições? Foram no sábado», Público, p. 44).
      A conjunção subordinativa «que» atrai o pronome para uma posição pré-verbal. Logo, correcto é desta maneira: «Eu devo confessar que o queixo me caiu aos pés há oito dias e ainda não tive oportunidade de o apanhar.» A colocação dos pronomes átonos é «um dos pontos mais complicados da sintaxe portuguesa», lê-se na Gramática da Língua Portuguesa de Pilar Vásquez Cuesta e Maria Albertina Mendes da Luz (Lisboa: Edições 70, 1971, p. 493). Complicado para quem, para os estrangeiros? Para os jornalistas?

[Texto 3068]

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