«Velha Castela»

Nem só Castela Velha

      «Guerra Junqueiro “era conhecido por ‘el anticuario’ em certas aldeias da Velha Castela que calcorreava a pé posto e de burro recolhendo e comprando cerâmica, mobiliário e, eventualmente, pintura”, disse José Luís Porfírio, então director do Museu Nacional de Arte Antiga, na (re)inauguração (após vários anos de obras) da nova Casa-museu Guerra Junqueiro, no Porto (1997), com uma exposição de pintura da colecção do poeta» («Guerra Junqueiro. Minha casa, meu santuário», Raquel Ribeiro, Público, 10.07.2013, p. 36).
       É raro ver-se escrito desta forma, mas já antes tinha encontrado em Camilo, que de momento não localizo, e em Eça de Queiroz: «Mas nada o aterrou como o transbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da Velha Castela. Debalde a Companhia do Norte de Espanha e de Salamanca, por cartas, por telegramas, sossegaram o meu camarada, afirmando que, quando ele chegasse no comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que lhe ofertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo conviva do 202!» (A Cidade e as Serras, Eça de Queiroz).
[Texto 3070]

Léxico: «didracma»

Fiscus Iudaicus

      Caro R. C.: não precisa de itálico, já por aí corre há séculos: «Logo que chegaram a Cafarnaum, aqueles que cobravam o imposto da didracma aproximaram-se de Pedro e perguntaram-lhe: o vosso mestre não paga a didracma? (São Mateus, 17, 23).» É verdade que habitualmente o que se lê em algumas Bíblias é «aproximaram-se de Pedro os cobradores do imposto do templo e disseram-lhe: “O vosso Mestre não paga o imposto?”». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora a palavra. O dicionário da Real Academia Espanhola regista que didracma é a «moneda hebrea que valía medio siclo». Mas é também o nome que se dava ao imposto, nesse valor, pago por todos os judeus maiores de 20 anos a favor do templo de Júpiter Capitolino.
[Texto 3069]

Colocação dos pronomes átonos

Apanhe-o agora

      «O queixo caiu-me ao chão.» É uma frase da edição portuguesa das Cinquenta Sombras de Grey (p. 252), de E. L. James. Sabia, João Miguel Tavares? Imagine que estava escrito assim: «O queixo me caiu ao chão.» Ainda estaria certo? Agora a sua frase de hoje no Público: «Eu devo confessar que o queixo caiu-me aos pés há oito dias e ainda não tive oportunidade de o apanhar» («Eleições? Foram no sábado», Público, p. 44).
      A conjunção subordinativa «que» atrai o pronome para uma posição pré-verbal. Logo, correcto é desta maneira: «Eu devo confessar que o queixo me caiu aos pés há oito dias e ainda não tive oportunidade de o apanhar.» A colocação dos pronomes átonos é «um dos pontos mais complicados da sintaxe portuguesa», lê-se na Gramática da Língua Portuguesa de Pilar Vásquez Cuesta e Maria Albertina Mendes da Luz (Lisboa: Edições 70, 1971, p. 493). Complicado para quem, para os estrangeiros? Para os jornalistas?

[Texto 3068]

O desgraçadíssimo verbo «haver»

Já não se endireita

      «Finalmente, claro que deveriam ter havido consequências políticas efetivas no caso dos swaps, mas isso é um problema do foro político (onde uma das envolvidas foi promovida a ministra..., e outros voltaram para diretores de empresas públicas, que são cargos de nomeação política ou parapolítica...), ou seja, nada tem a ver com os sistemas de carreiras na função pública como sugere MST» («Jornalismo ou proselitismo? Resposta a Miguel Sousa Tavares», André Freire, Público, 9.07.2013, p. 43).
      Ficamos perplexos: por um lado, o afã em seguir, como que a mostrar interesse na língua (mas demonstra o contrário), o Acordo Ortográfico de 1990, por outro lado, estes erros crassos. Se são amigos ou conhecidos, digam-lhe.
[Texto 3067]

Mãe, já sei falar italiano!

A olho

      O Papa Francisco visitou a ilha de Lampedusa para homenagear os imigrantes africanos. «Há que dar atenção às pessoas, na sua viagem, em direção a algo melhor», lia-se na transcrição da homilia que o Sumo Pontífice ia fazendo (Ana Felício, Jornal da Tarde, 8.07.2013, 13h31). Era um excerto, claro, mas desconfiei logo daquele espúrio «há que» e quis saber como tinha sido dito em italiano. «[Prima però vorrei dire una parola di sincera gratitudine e di incoraggiamento a voi, abitanti di Lampedusa e Linosa, alle associazioni, ai volontari e alle forze di sicurezza, che] avete mostrato e mostrate attenzione a persone nel loro viaggio verso qualcosa di migliore.» Só se ouviu esta parte fora dos parênteses, que se traduz assim: «[Antes, porém, quero dizer uma palavra de sincera gratidão e encorajamento a vós, habitantes de Lampedusa e Linosa, às associações, aos voluntários e às forças de segurança, que] tendes demonstrado – e continuais a demonstrar – atenção a pessoas em viagem rumo a qualquer coisa de melhor.»
      Muito diferente, valha a verdade, do que se lia nas legendas. A falta de cuidado com que se faz quase tudo nunca nos permitirá sair da cepa torta. É tudo aproximado, nada rigoroso.
[Texto 3066]

Léxico: «némesis»

Finalmente

      «De novo, o entusiasmo é crescente. Aproxima-se da ilha que será sua némesis mas por enquanto conhece só como seu destino» (A Condição Humana em Ruy Cinatti, Peter Stilwell. Lisboa: Editorial Presença, 1995, p. 172).
      Andava há anos a ler a palavra e já tinha proposto a sua dicionarização. Hoje, chegou a sua vez de ser entesourada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3065]

Léxico: «sinedrita»

Falta em quase todos

      «Sobre as escadas arrimadas aos braços da cruz, José de Arimateia, o judeu de coração sensível, e Nicodemus, outro sinedrita dissidente, entregam-se à tarefa de desprender sem molestações o corpo divino» (Sevilha, Noiva de Portugal, António de Cértima. Lisboa: SIT, 1963, p. 276). 
      Claro que é o membro do sinédrio ou sinedrim, mas não se encontra em quase nenhum dicionário. Vão ficando pelo caminho.
[Texto 3064]

Ortografia: «metainformação»

Depende do dia

      «Mais uma vez, e à semelhança do que acontece na Alemanha, de acordo com a notícia publicada na semana passada pela revista Der Spiegel, não se trata de ouvir as conversas telefónicas ou de ler as mensagens trocadas nas redes sociais, mas sim de registar a metainformação das comunicações de todas as pessoas — os dados que indicam o número de telefone, a localização dos intervenientes numa conversa ou a data e a hora dessas comunicações, por exemplo» («Cidadãos brasileiros espiados “em grande escala” pelos serviços secretos dos EUA», Alexandre Martins, Público, 8.07.2013, p. 23).
      Isto foi hoje, porque na sexta-feira o jornalista achou, mal, que devia ter hífen: «À semelhança dos programas de espionagem norte-americano e britânico — expostos pelo antigo analista informático Edward Snowden —, também as autoridades francesas estarão a interceptar e a guardar a meta-informação das comunicações, segundo o Le Monde» («Secreta francesa também sabe “quem fala com quem”», Alexandre Martins, Público, 5.07.2013, p. 25).
[Texto 3063]

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