Como falam os advogados

Boa desculpa

      «Em relação ao episódio do papel que Luís Carito retirou das mãos de um investigador da PJ durante as buscas efetuadas na sua residência, acabando por o engolir, o advogado Sancho Carvalho Nunes apenas afirmou que o caso está “descontextualizado” no âmbito das investigações. Mas não confirmou tratar-se de um papel contendo [sic] informação sobre a vida íntima do autarca» («Autarcas suspeitos de corrupção arriscam-se a dez anos de cadeia», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 24.06.2013, p. 22).
      Boa desculpa. Vamos a 240 km/h na A1, a polícia apanha-nos e que dizemos? «Desculpe, Sr. Agente, mas está descontextualizado.»

[Texto 3019]

Como falam os indignados

Até que enfim

      «A par das agressões físicas — que são as que resultam em queixa por parte das vítimas — são também registadas ameaças verbais. Nas secretarias dos tribunais começa a ser comum ouvir frases como “apanho-te lá fora e parto-te os cornos” ou “vocês estão todos comprados...”» («Casos de agressões a funcionários públicos disparam em Lisboa», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 24.06.2013, p. 20).
      Foda-se, até que enfim que se deixaram da hipocrisia das reticências. Parabéns, Filipa Ambrósio de Sousa. Merecia um prémio qualquer.
[Texto 3018]

Ou pára ou corta

Não lêem o que escrevem

       «Se nos seus planos estiver uma ida à praia, o melhor é prevenir-se e levar para-vento» («Temperaturas atingem 40ºC», Joana Capucho, Diário de Notícias, 24.06.2013, p. 17). Pois é, mas no subtítulo pode ler-se: «Calor chega mas o vento não para. Se vai à praia, o melhor é levar corta-vento». Como se pára-vento e corta-vento fossem sinónimos.

[Texto 3017]

Ortografia: «superlua»

Agora, caramba, acertaram

      Depois de ontem terem escrito «super Lua», hoje acertaram. Acertou a jornalista Ana Maia: «A olho nu, de binóculos, telemóvel ou câmara fotográfica na mão. Cabeças inclinadas para cima só para apreciar a superlua que iluminou ontem os céus de norte a sul de Portugal» («O espetáculo da superlua», Ana Maia, Diário de Notícias, 24.06.2013, p. 16).

[Texto 3016]

Nomes de algas comestíveis

A terra, por atavismo

      Um artigo da Notícias Magazine de hoje vem revelar-nos quais as algas comestíveis mais comuns. Nori, kelp, kombu, wakame, hijiki, dulse... Não esperamos que estejam nos dicionários gerais da língua, sobretudo porque não têm designação portuguesa. Mas estão lá três com nome português: esparguete-do-mar, alface-do-mar e musgo-da-irlanda. Pois no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só encontramos «alface-do-mar».
[Texto 3015]

Léxico: «burundanga»

Bagatelas jornalísticas

      «Depois de estacionar o carro, a pessoa era abordada por um homem que, com um cartão de crédito na mãe [sic] e um papel com um telefone na outra, pede a essa pessoa que faça a ligação telefonica [sic] por ele. Poucos segundo [sic] depois, a pessoa começa a sentir-se dormente. Consegue fugir, vai ao hospital e o médico diz-lhe que teve muita sorte. Foi drogada com burundanga e que noutros casos pessoas foram encontradas mortas sem um órgão. A história é contada em vários países e não há sinais de que tenha sido real em algum deles. Esta é uma droga proveniente de uma flor. Tudo indica que o termo é afro-cubano e usado por feiticeiros para designar bebidas usados em rituais» («PSP tem equipas para ‘caçar’ mitos urbanos», Ana Maia, Diário de Notícias, 23.06.2013, p. 17).
      Quanto a mim, inverosímil é apenas o médico descobrir do que se tratava, mas está bem. Burundanga está em qualquer dicionário e significa «palavreado confuso; algaravia» (a descrição perfeita do texto acima); «mixórdia» e, no plural, «bagatelas». Na acepção de alcalóide, ainda não se encontra dicionarizado.
[Texto 3014]

«Riviera Francesa»

É assim que recomendo

      «Uma paixão que nasceu quando [Hans Hass (1919-2013)] tinha 18 anos durante uma viagem à Riviera Francesa, depois de ter terminado o liceu. Foi nesta viagem que desistiu da carreira de advogado» («O último grande explorador da natureza do século XX», Diário de Notícias, 23.06.2013, p. 43).
      «É que o Estoril, gema no anel da Costa do Sol, disputa hoje primazias a qualquer estância da Riviera Francesa. Não lhe faltam balneários, bons hotéis, um bom Casino e um belo parque recamado de flores, campos de golfe e ténis, praias de fina areia, o macio regaço dum mar afável, e os bares, mirantes e terraços, salpicados de umbelas — tudo enfim que dá conforto a sibaritas exigentes» (Portugal, a Terra e o Homem, Jaime Cortesão. Lisboa: INCM, 1987, p. 203).

[Texto 3013]

Como escrevem os professores

Assim tão más?

      «Desde a crónica da semana passada, recebi por vias diversas algumas cartas de pessoas que se intitulam professores a insultar-me com toda a consideração. As minhas dúvidas sobre a real profissão dessa gente prendem-se com o domínio da língua portuguesa evidenciado nas ditas cartas, manifestamente incompatível com a sabedoria de quem, nos dias em que não faz greve, assegura a prodigiosa educação das crianças deste país» («Ordem, mentiras e progresso», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 23.06.2013, p. 55).
[Texto 3012]

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