Léxico: «germoplasma»

À frente dos dicionários

      Então funciona assim: «“O produtor contacta-nos, nós recolhemos as amostras, ficam guardadas num banco de germoplasma, que permite a conservação do património genético das plantas, e, se as plantações forem destruídas por alguma razão, ele recorre ao nosso serviço para replantarmos a área”, explica Elisa Figueiredo, que fundou a empresa QualityPlant com Mónica Zuzarte» («Vinhas clonadas: não há desculpa para os “anos maus”», Joana Capucho, Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 35).
      O germoplasma é o conjunto de genótipos de uma espécie vegetal, considerada como um todo. Ainda não está nos dicionários.
[Texto 2995]

Confusões dos jornalistas

Só visto

      «[O padre Lancelote Rodrigues] Estudou Filosofia e Teologia e, após [sic] concluir os estudos, decidiu ser padre aos 22 anos. Foi enviado para Canídrome para cuidar dos refugiados, após o bispo de Macau ter duvidado da sua vocação» («Dedicou a sua vida à missão de ajudar os refugiados em Macau», Diário de Notícias, 18.06.2013, p. 45).
      É só mais uma escorregadela dos jornalistas. Mais ridícula do que outras, porventura. Quando li o necrológio, pensei que fosse um topónimo, até pela ausência de artigo, alguma localidade chinesa. Soou-me bem, assim, de recorte clássico. Na verdade, trata-se do Macau (Yat Yuen) Canidrome Co. Ltd., do Canídromo de Macau! Sim, canídromo, o recinto onde se realizam corridas de cães.
[Texto 2994]

Léxico: «codão»

Não confundir com «códão»

      «O código genético define as regras químicas que os seres vivos usam para traduzir a informação dos seus genes em proteínas. Quando se alteram estas regras, instala-se o caos e essa manipulação resulta na morte celular. Esta troca de informação faz-se através de uma espécie de palavra com três letras (a que se chama codão) que a célula “lê” e traduz num aminoácido. À combinação codão-aminoácido chama-se código genético» («Cientistas da UA conseguiram alterar o código genético de um ser vivo», Andrea Cunha Freitas, Público, 20.06.2013, p. 28).
      Chama, pois, e provém do inglês codon. À falta de termo próprio — porque nova era a realidade —, é legítimo usar um termo estrangeiro, mas aportuguesado. Está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «(genética) sequência de três nucleótidos adjacentes, numa molécula de ácido ribonucleico mensageiro (ARNm), que codifica um aminoácido». Por acaso, temos um vocábulo muito parecido, códão, que é a congelação da humidade infiltrada no solo. O que é curioso é que no Brasil se tenham limitado a acrescentar um acento agudo, códon.
[Texto 2993]

«Nublado/nebulado»

Pouco usado

      «O IPMA indica no site que, para amanhã, haverá ainda registo de céu muito nebulado nas regiões Norte e Centro, até meio da manhã, mas a temperatura mínima irá subir. No sábado, as nuvens vão desaparecer e o IPMA espera “uma pequena subida da temperatura máxima, mais significativa nas regiões do interior e no vale do Tejo”» («Calor regressa na próxima semana», Público, 20.06.2013, p. 11).

[Texto 2992]

«Governo encabeçado por»

Água mole, etc.

      Assim vamos lá. «Num artigo publicado em Março de 2011, estava o Governo encabeçado por José Sócrates de saída, Joaquim Emídio [director-geral do jornal O Mirante] vaticinou que Rui Barreiro ainda havia de chegar a ministro, por pertencer a um partido “onde parece que toda a gente boa foi de férias e só ficaram as galinhas”» («Comparar governante a ave de capoeira vai custar 5000 euros a responsável de jornal regional», Ana Henriques, Público, 20.06.2013, p. 11).
[Texto 2991]

De «hoarding» a «abandónico»

Comprem um manual de Psiquiatria

      «O distúrbio de “hoarding” afecta cerca de 3 por cento dos Portugueses. Caracteriza-se pela acumulação compulsiva de produtos e pela incapacidade de se desfazer de objectos, mesmo que sejam lixo. Em casos extremos, as casas dessas pessoas transformam-se em autênticos depósitos de lixo» («O distúrbio de “hoarding” afecta cerca de 3 por cento dos Portugueses», João Tomé de Carvalho, Bom Dia Portugal, 18.06.2013).
      Em estúdio estava o psiquiatra António Sampaio, que disse que «isto emana de uma patologia abandónica». Vem do francês, pois claro, mas mesmo nesta língua é neologismo para designar a criança ou o adulto que vivem dominados pelo receio neurótico de ser abandonados, de perder o amor dos pais ou dos próximos. Claro que o psiquiatra não explicou nada disto.
[Texto 2990]

Tradução: «recipient»

Mais simples

      Quarenta e cinco descendentes de refugiados judeus salvos por Aristides de Sousa Mendes chegaram a Portugal para homenagear a memória do diplomata. Lee Sterling, antigo refugiado de Bruxelas, foi um deles. «Sou um dos recipientes dos vistos de Aristides de Sousa Mendes. Tinha quatro anos, a minha irmã sete, e viemos para cá com os meus pais e a minha avó» (Jorge Esteves, Jornal da Tarde, 18.06.2013, 14h09).
      Sim, é verdade, «recipiente» também é, em português, o que recebe, mas quem fala assim, hein? Experimente consultar, caro Jorge Esteves, um dicionário de inglês-português, é muito mais despretensioso do que isso.
[Texto 2989]

Tradução: «peer review»

Merece pois

      «Porn Studies é a primeira revista académica com revisão pelos pares dedicada ao estudo da pornografia, e as directoras são as professoras em instituições britânicas Clarissa Smith (Sunderland University) e Feona Attwood (Middlesex University)» («Petição contra revista sobre pornografia», Joana Gorjão Henriques, Público, 18.06.2013, p. 31).
      Devia ser o normal, mas, como não é, é preciso elogiar que a jornalista não use a expressão inglesa correspondente, peer review ou refereeing.
[Texto 2988]

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