Mais inglês

Fica demonstrado

      «É mais um episódio das revelações feitas por Edward Snowden, o whistleblower que passou documentos internos da Agência de Segurança Interna dos EUA ao jornal britânico Guardian. Desta vez, os documentos secretos mostram que políticos e outros responsáveis que participaram em 2009 na cimeira do G20 em Londres foram espiados por agentes britânicos» («Londres terá “espiado” reunião do G20 em 2009», Público, 18.06.2013, p. 25).
      Eu não disse ainda hoje? Se puderem, enfiam uma palavra inglesa. Whistleblower significa simplesmente informador, delator, bufo. Com o seu uso, o jornalista demonstra que sabe copiar as palavras que encontra na imprensa anglo-saxónica. Algo que a minha filha, graças a Deus pré-escolarizada, também sabe fazer. E as aspas em «espiado», no título, deixam-nos a pensar.
[Texto 2987]

Léxico: «redução»

Algo novo

      «A par da crescente adesão ao novo sistema, rapidamente se comprovou também que não seria adaptável aos vinhos de qualidade, sobretudo aos que se destinam ao envelhecimento em garrafa. Além de que mesmo os vinhos mais simples destinados ao consumo imediato apresentavam desagradáveis aromas de redução» («Amorim cria rolha com rosca para ganhar mercado às tampas metálicas», José Augusto Moreira, Público, 18.06.2013, p. 21).
      «Trata-se», pode ler-se aqui, «do fenômeno inverso ao da oxidação. São reações químicas que se desenvolvem em ambientes livres de oxigênio. No caso do vinho, quando se aponta que está “reduzido”, ou com “aroma de redução”, significa que compostos sulfúricos indesejáveis foram produzidos.» Parece ser a 14.ª acepção do verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «(química) processo químico em que o oxigénio é eliminado de um composto».
[Texto 2986]

«Ítalo-americano», «ítalo-congolesa»

Não lhes chegou a notícia

      «A máfia “convence” o patrão de um grande estúdio de Hollywood a dar um papel importante na fita que está a preparar a um cantor italo-americano na mó de baixo, pondo na cama daquele a cabeça ensanguentada do seu cavalo favorito» («O filme que relançou a carreira de Frank Sinatra», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 14.06.2013, p. 46).
      «Uma deputada regional da Liga Norte apelou ontem à violação da ministra da Integração italiana, a italo-congolesa Cécile Kyenge, causando a indignação entre a classe política do país e levando à sua expulsão do partido anti-imigração» («Eleita da Liga Norte apela a “violar” ministra», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 14.06.2013, p. 27).
[Texto 2973]

«Malícia» e «milícia», de novo

Bem me parecia

      «Parece que, no caso de “Aquele único exemplar”, a variante mais significativa se encontra no verso 10 da ode: em grafia actualizada, “No soberbo exercício da malícia”, onde, nas versões conhecidas, se pode ler “No soberbo exercício da milícia”. E vejo surgir uma proposta de leitura no sentido de que a versão agora revelada quereria dizer “no soberbo exercício da medicina ou do tratamento do mal”.
      Não me parece que se possa ir por aí. Camões refere-se a Aquiles, ensinado pelo centauro Quíron (a quem o poeta mais adiante chama “semiviro”) tanto nas artes da medicina como nas artes da guerra. Aquiles (sempre actualizando a grafia) “Não menos ensinado/ Foi nas ervas, e médica notícia,/ Que destro e costumado/ No soberbo exercício da milícia./ Assi que as mãos, que a tantos morte deram/ Também a muitos vida dar puderam”.
      A estrutura da caracterização da aprendizagem de Aquiles é dupla e como tal explorada em paralelo. O sentido da comparação desaparecia se lêssemos “malícia” como correspondendo a medicina ou tratamento do mal. Aquiles teria então sido ensinado tanto nas ervas e médica notícia como no exercício da medicina... E a estética do poema ficaria coxa de todo em passagem de tão inábil redundância...» («O soberbo exercício da malícia?», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 54).

[Texto 2966]

«Malícia» e «melícia»

Também camoniano

      «A alteração das palavras é “malícia” por “melícia”, “mas ambas podem fazer sentido, porque se fala de um deus guerreiro que curava e que era chefe de guerra, ora era perito em melícia como militar e em malícia no sentido de curar o mal”, explicou o historiador [João Alves Dias]» («Inédito de Camões na exposição que celebra os 450 anos da sua obra», Público, 9.06.2013, p. 36).
      Não será demasiado forçada esta interpretação? De um mero lapsus calami do pobre copista erige-se uma tese. E esta dissimilação está atestada? É que actualmente, «melícia» é apenas uma espécie de morcela doce (mel + ícia) feita com amêndoas doces, banha de porco, canela, mel, etc.

[Texto 2947]

Ortografia: «interétnico»

Com elementos de formação, cuidado

      «Em 1960 grava os primeiros discos de 45 rotações, sob o nome de Eddie Salem, uma vaga proposta inter-étnica que misturava sons do Mediterrâneo e que não chega para fazer história» («O vagabundo das canções de paz», Viriato Teles, «Q»/Diário de Notícias, 1.06.2013, p. 20).
      Só há uma maneira — seja lá qual for o acordo ortográfico — de escrever esta palavra, e não é desta.

[Texto 2908]

Léxico: «superlua»

Ou perigeu


      «Nesse dia [23 de Junho] vai ser possível contemplar a maior e mais brilhante lua cheia do ano, que vai ser entre 14% maior e 30% mais brilhante do que o habitual. [...] Se a meteorologia ajudar e não houver nuvens a cobrir o horizonte, será motivo para vir à janela espreitar a superlua, como é conhecido este fenómeno» («Maior e mais brilhante lua do ano a 23 de junho», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 27).
      Superlua ou, como é mais conhecido, perigeu. Mas poderá ver-se se não houver nuvens no horizonte ou no céu?
[Texto 2899]

Um toque de italiano

O sabor seria o mesmo

      «Mario De Biasi foi o grande repórter fotográfico do levantamento de Budapeste, em 1956, mas foi outra foto sua que me ficou estampada na memória. De Biasi é o autor da foto que teve o mesmo papel das alcachofras alla giudia, os contos de amores difíceis de Italo Calvino e as cores velhas de Roma – o de formar a minha ideia de Itália» («Olhares em vias de extinção», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 56).
      Até na poesia de Jorge de Sena há alcachofras à judia. Porquê só umas tinturas de italiano? Já agora, carciofi alla giudia. Ou a frase toda: «De Biasi è l’autore della foto che ha avuto lo stesso ruolo dei carciofi alla giudia, di storie d’amore difficile da Italo Calvino e dei colori vecchi di Roma – per formare la mia idea di Italia.» Ou toda a crónica: «Mario De Biasi è stato il grande fotoreporter della sollevazione di Budapest nel 1956, ma, etc.»
[Texto 2898]

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