Léxico: «pantógrafo»

Não só para cópias

      «Esta é a história de um eléctrico chamado futuro. Ou de muitos. Um eléctrico chama-se assim porque é alimentado pela energia eléctrica que recebe da catenária (cabo de alta tensão) ao qual está ligado através de um pantógrafo» («Eléctricos e comboios do futuro podem prescindir da catenária», Carlos Cipriano, Público, 10.06.2013, p. 25).
      Há dicionários, com o citado mais abaixo pelo leitor Mário Azevedo, que desconhecem esta acepção de pantógrafo: «dispositivo articulado que recebe a corrente eléctrica da catenária e que se encontra colocado no tejadilho da locomotiva» (como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

[Texto 2954]

«Double-entendre»!

Simples e em português

      «E a vedeta da Broadway Fanny Brice lançou uma frase cujo double-entendre ficou célebre: “Wet, she’s a star; dry, she ain’t” (literalmente: “Molhada ela é uma estrela, mas seca nem pensar”)» («Mais de metade de Portugal é área árida ou seca», Jorge Mourinha, Público, 10.06.2013, p. 29).
      Uma boa parte — metade? — do que se pretende exprimir é agora indizível em português. Há-de ser defeito meu, mas só vejo ali um sentido.

[Texto 2953]

«Pinheiro-manso»

De vez em quando

      «A azinheira e o sobreiro dominam a ocupação nas zonas mais susceptíveis à desertificação, onde existem também alguns pinheiros-mansos» («Mais de metade de Portugal é área árida ou seca», A. P. C., Público, 9.06.2013, p. 11).
      É mesmo tocante, este levíssimo toque de Acordo Ortográfico de 1990 no antiacordista Público, não acham? Isto não vai lá só com conversa.

[Texto 2952]

Era uma vez o verbo «pôr»

Pobre verbo «pôr»

      O leitor afirma que é um livro belíssimo. O título é Irmão Lobo, e foi publicado em Março passado na editora Planeta Tangerina. No resumo biográfico da autora, Carla Maia de Almeida, lê-se: «Ainda não colocou de parte a ideia de viver na Nova Zelândia, país onde não se importaria de ter nascido.»

[Texto 2951]

«Manbo jambo»?

Mais ou menos isso

      «Em 1984, os cidadãos de uma ditadura ultravigiada são bombardeados com palavras de duplo sentido, o doubletalk, um obscuro manbo jambo semântico» («O abruptamontes social-democrata», Rui Cardoso Martins, «2»/Público, 9.06.2013, p. 41).
      Ou será mambo jambo? Ou mumbo jumbo? É semântico, mas não nos interessa. Doubletalk pode ser o nosso falar trocado, de que Gil Vicente era especialista.

[Texto 2950]

«A partir do Brasil»!

Partir-se a rir

      «Há, pelas canções, também amores inconscientes, atracções que ninguém consegue explicar de maneira óbvia. A jovem cantora brasileira Thaís Gulin, que por cá cantou em Maio (em Lisboa, Porto e Coimbra), integrou no seu reportório uma canção americana: Little boxes. A explicação para tal escolha, dada pelo telefone a partir do Brasil, antes do espectáculo, foi esta» («Músicas dentro do nosso sono», Nuno Pacheco, «2»/Público, 9.06.2013, p. 40).
      Os cc e os pp estão todos no sítio certo, mas, apesar de se tratar de música, há nítida falta de ouvido. «A partir do Brasil»? É só uma variação jornalística — a outra é «desde», «desde o Brasil» — de uma língua outrora conhecida como português.
[Texto 2949]

Sobre «fura-vidas»

Tara, exagero

      «A atracção que [Tara] Brach gera em Washington tem razão de ser: ela é uma fura-vidas de Tipo A» («A voz tranquila da guru da meditação», Michelle Boorstein, «2»/Público, 9.06.2013, p. 37).
      Na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, fura-vidas é a «pessoa empreendedora e activa que não olha a meios para conseguir o que quer». Não me parece. Acho mais acertada a definição, à primeira vista igual, do Dicionário Houaiss, que diz que é a «pessoa activa que por todos os meios procura obter vantagens e servir os seus interesses».
[Texto 2948]

«Malícia» e «melícia»

Também camoniano

      «A alteração das palavras é “malícia” por “melícia”, “mas ambas podem fazer sentido, porque se fala de um deus guerreiro que curava e que era chefe de guerra, ora era perito em melícia como militar e em malícia no sentido de curar o mal”, explicou o historiador [João Alves Dias]» («Inédito de Camões na exposição que celebra os 450 anos da sua obra», Público, 9.06.2013, p. 36).
      Não será demasiado forçada esta interpretação? De um mero lapsus calami do pobre copista erige-se uma tese. E esta dissimilação está atestada? É que actualmente, «melícia» é apenas uma espécie de morcela doce (mel + ícia) feita com amêndoas doces, banha de porco, canela, mel, etc.

[Texto 2947]

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