«Sede de poder/fome de poder»

São necessidades

      «Admiro um português capaz de tudo para conseguir ser alcaide. Ao arriscar meter-se com magrebinos, ele que é do tipo, digamos, mais gordobino (visto de perfil, parece ter mais fome do que sede de poder), CAA [Carlos Abreu Amorim] revela ser um autêntico herdeiro de suevos do Norte» («De frase em frase, enchendo-se de focos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 21.05.2013, p. 56).
      Madame de Staël sobre o Pequeno Corso: «Napoleão Bonaparte, minha boa amiga, é um homem voraz com uma insaciável fome de poder absoluto» (As Luzes de Leonor, Maria Teresa Horta. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, 3.ª ed., p. 874).
[Texto 2866]

Tradução: «conflicting»

Artigo 151.º

      «Também o senador democrata de Nova Iorque [Charles Schumer] se referiu à jovem luso-americana: “Geralmente faço um pequeno discurso e explico como a minha namorada acabou comigo no dia da graduação e de como superei o trauma. Tenho a certeza que esta manhã tanto eu como vocês estamos a viver emoções mistas e conflituosas...”» («Aldeia de Sócrates reza por jovem morta a tiro em Nova Iorque», Luís Fontes, Diário de Notícias, 21.05.2013, p. 18). Arriscam-se a ser acusadas de participação em rixa, as pobres emoções.
       «Usually I give a happy little speech about getting dumped by my girlfriend at graduation and how I overcame it,” Schumer said to the crowd in the student center on the Hempstead, L.I., campus, where the commencement was held. “But I am sure you, like me, have conflicting and mixed emotions this morning.”»
[Texto 2865]

«Colocado em causa»!

Já tinha saudades

      «As palavras também não foram bem aceites na Ordem dos Advogados, em que corre um processo disciplinar no Conselho de Deontologia, por suposta violação de estatuto no exercício da profissão e que terá colocado em causa o prestígio da advocacia» («Advogado paga 6900 euros por ofender Santuário», Paula Carmo, Diário de Notícias, 21.05.2013, p. 19).
      «O poder económico é duplamente posto em causa: por ter sido um pilar da ditadura; por querer sabotar a economia e impedir a revolução» (Anatomia de Uma Revolução, António Barreto. Lisboa: Publicações Europa-América, 1987, p. 81).
[Texto 2864]

«Júri/jurado»

Corrigi outros

      «Está mais perto da ironia corrosiva do austríaco Thomas Bernhard do que das teorias da felicidade do indiano Krishnamurti e é afinal... um livro de viagens que é também um conjunto de short-stories vividas ou imaginadas pelo escritor britânico Geoff Dyer, que este mês se estreou em Portugal como escritor e como júri do Bes Photo» («As viagens de quem não tem paciência para fazer turismo», Joana Emídio Marques, Diário de Notícias, 21.05.2013, p. 46).
      Então ele sozinho é júri, hem? Cara Joana Emídio Marques, dê lá uma olhadela nos dicionários. Sim, num de inglês também, porque o que vejo é que se escreve short story, sem hífen.
[Texto 2863]

Da próclise

Alguém me está a ler?

      «Alertada a Polícia Judiciária, que já estava a investigar os suspeitos, deteve o grupo. Todos sos [sic] suspeitos encontram-se em prisão preventiva» («Funcionário da alfândega ajudava rede de tráfico», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 19.05.2013, p. 21).
      Na oralidade, passava; num artigo, não. O jornalista não sabe acaso que alguns indefinidos, como todos, tudo, outro, qualquer, alguém, atraem a próclise, ou seja, exigem que se anteponha o pronome ao verbo? Tudo isto é sabido, mas convém relembrar sempre.
[Texto 2862]

Tradução: «fabric»

A Syriza em cima do bolo

      «Numa reportagem publicada na sexta-feira no jornal Guardian, a freira [Teresa Forcades i Vila] disse admirar o o [sic] partido de esquerda radical grego Syriza. “A crise económica em Espanha chegou a um ponto que ameaça o fabrico da sociedade. Isso também aconteceu na Grécia”, disse ao diário britânico» («A freira catalã que quer nacionalizar a banca», Albano Matos, Diário de Notícias, 19.05.2013, p. 24).
      A freira falou sempre em inglês, e, quanto ao que nos interessa, disse: «The economic crisis in Spain has got to a point where it threatens the fabric of society.» Pena que, assim traduzido, nada signifique em português. Fabric traduz-se, no contexto, por «estrutura». Mais: tanto quanto vejo, nenhuma das acepções do termo inglês se traduz por «fabrico». Estes é que são erros graves, porque comprometem irremediavelmente a compreensão da frase.
[Texto 2861]

«Combustível naval»

Agrícola, florestal, naval...

      «A Ecoslops Portugal, empresa com sede em França, está a construir no porto de Sines uma fábrica para produzir combustível naval a partir dos óleos residuais recolhidos nos navios de carga, aproveitando material que atualmente é incinerado» («Resíduos dos navios transformados em combustível naval», Diário de Notícias, 19.05.2013, p. 33).
      Não sabia que havia combustível naval. Enfim, acho sempre curioso o uso de adjectivos nestes casos. Só conhecia o «gasóleo agrícola», que, na verdade, se destina a maquinaria usada na agricultura, na floresta e nas embarcações, ou pelo menos em algumas, e só difere do outro na cor e por ter um aditivo. Mas este «combustível naval» é diferente.
[Texto 2860]

«Statu quo»

É melhor não

      «José Alberto Carvalho e Judite Sousa empreenderam nos últimos anos uma tal remodelação na abordagem de Queluz de Baixo à atualidade que se torna quase heroico só agora terem dado razões de queixa ao status quo cessante» («Queluz de Baixo», Joel Neto, Diário de Notícias, 19.05.2013, p. 52).
      Já tive oportunidade de o dizer mais de uma vez, mas cá vai de novo: está errado, mesmo que haja dicionários a dizerem que está correcto. Como é que o ablativo da expressão latina completa, in statu quo ante, passava a nominativo na expressão reduzida, não querem explicar-me? Não sabem, não inventem.

[Texto 2859]

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