Léxico: «casula»

Registe-se

      «Durante três dias, de 22 a 24 de fevereiro, mais de 20 restaurantes do concelho vão servir o prato tradicional desta época, à base de um enchido de ossos específico da região transmontana, o butelo, acompanhado das casulas ou cascas, as vagens de feijão secas» («Comer butelo garante entradas para museus», Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 22).
      Regionalismo, com certeza, mas devia estar registado nos dicionários modernos (está no dicionário de Cândido de Figueiredo). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não o regista, quando regista muitos outros regionalismos. Casula é o nome que se dá à vagem de feijão, colhida quando está já baguda, mas não seca, e que acaba de secar à sombra.
[Texto 2598]

«Secretos», uma acepção

Que se guarda oculto

      «Tal como na carne de vaca e porco, a carne de cavalo tem cortes e nomes similares: há bifes do lombo, secretos, carne picada, entrecosto. Os pratos são os mesmos: é possível grelhar, guisar ou assar. Apenas o preço é diferente, nalguns casos 30% mais baratos» («Carne de cavalo vem das coudelarias e é mais barata», André Rito, Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 16).
      Tão secretos, tão ocultos, que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem regista a acepção.
[Texto 2597]

«Tomar no cu»

Perto de Manaus

      «Já o ex-secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas não tem papas na língua e, numa carta aberta ao seu antigo colega de Governo, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio (indicado pelo CDS), mandou o fisco “tomar no cu”, por entender que é “um absurdo” esta exigência» («Incómodo na maioria depois de desabafo de Viegas», Miguel Marujo, Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 10).
      Isto deve ser como as injecções – que se tomam ou se levam –, mas não é no Brasil que se diz desta forma? Ou em Moledo também se diz? Bem, não sei, eu nunca digo. (Quanto ao resto, tem razão: prò caralho. Não contem comigo. Artigo 21.º da Constituição.)
[Texto 2596]

«Papável» e as aspas

Nem assim

      «É ele [camerlengo Tarcisio Bertone] que vai liderar a Igreja Católica no período de sede vacante entre a saída do Papa e a eleição do seu sucessor. E o seu nome também integra a lista de “papáveis”» («O camerlengo que gosta de futebol e fala português», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 15.02.2013, p. 5).
      Por sugestão minha, se se lembram daqui, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora deixou de registar que «papável» é termo coloquial, e eu pensei que isso contribuiria para deixar de ser grafado entre aspas. Assim seria, se os jornalistas consultassem mais os dicionários. («Liderar a Igreja Católica»... E «sede vacante» tem de estar em itálico? Porquê?)
[Texto 2595]

«Findado o psalmo»

Interditos e obrigatórios

      E a propósito do Sr. Alferes arcaizante, lembrei-me agora mesmo de uma frase de Arnaldo Gama. Ei-la: «Findado o psalmo, os cavaleiros e o povo ergueram-se e tudo ficou por alguns minutos em silêncio verdadeiramente sepulcral» (O Balio de Leça, Arnaldo Gama. Porto: Livraria Educação Nacional, 1935, p. 165). Agora, dir-se-ia inevitavelmente «findo o salmo», nunca «findado». É este um tempo em que se prefere o irregular. E hoje também já não se pode dizer que o silêncio é sepulcral. Pelo menos num curso de escrita criativa. Excepto se este decorrer apenas em dois dias, como me disseram que um certo escritor está a publicitar. Escritor cujo nome não voltarei jamais a escrever, mas vejam.
[Texto 2594]

Tradução: «mime»

Assim fica

      «Recomeçaram a andar. Ivo, com o gesto, mimou um beijo que lhe atirou» (Direito Sagrado, Odette de Saint-Maurice. Lisboa: Editorial Presença, 1966, p. 176).
      Nesta acepção ­— dizer ou fazer por mímica; representar por gestos —, se o vi três ou quatro vezes na vida foi muito. Mas agora apareceu-me aqui alguém que «mimed a needle plunging», e não vejo melhor solução. Representou? Fingiu?
[Texto 2593]

Tradução: «back of ear»

Raramente

      Concha da orelha. Não se vê muito, mas aqui fica uma abonação: «Perdeu um para não ter que os usar; deixava nuas as bonitas orelhas e ganhou o costume de afastar com os dedos o cabelo para mostrar a concha das orelhas» (Os Espaços em Branco, Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 2003, p. 41).
[Texto 2592]

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