Ainda ontem

Um erro valente

      «Agora, a mais de meio caminho, talvez seja a altura para falar das perplexidades que me trouxe o Euro 2012. Não que não tenha visto os jogos de Portugal com um relativo prazer e até com uma certa ansiedade; e não também que não se tenha já escrito centenas de páginas sobre o assunto» («Rir ou chorar?», Vasco Pulido Valente, Público, 23.06.2012, p. 56).
      É melhor chorar. Se até Vasco Pulido Valente já escreve assim, que nos resta nesta triste vida? Qual padre António Vieira... Pode ser o cunhado de Jorge de Sena a responder: «Com efeito, e em que pese a todas as Imitações de Cristo que se tenham escrito ou exemplarmente vivido, nem mesmo um crente católico pode considerar como sendo já definível um Modelo acabado (ou, em termos psicanalíticos, um Superego) daquela plenitude humana moral e estética acessível a qualquer pessoa, quando as próprias estruturas de relação social humana permanecem instáveis, sabe-se lá por quantos séculos ainda» (Entre Fialho e Nemésio, Óscar Lopes. Lisboa: INCM, 1987, p. 534).
[Texto 1724]

Uma variante perdida

O que fica pelo caminho

      «O Resumido só marca antístite. G. Viana fez melhor em registar também antiste. Aquela forma tira-se do acusativo, esta vulgarizou-se quer por necessidade haplológica quer por molde do nominativo latino antistes» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 23).
      O cânone ortográfico vertido no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves veio a acolher apenas «antístite». «antístite, s. m. Inexacta a forma antiste» (p. 87). Antístite é o chefe dos sacerdotes; pontífice; prelado.
[Texto 1723]

Acordo Ortográfico

Não tinham mais nada para fazer

      Vasco Graça Moura, na Antena 1 na segunda-feira passada: «Hoje estamos com um problema muitíssimo maior. Há três grafias da língua portuguesa: a que é usada no Brasil, a que é usada em países como Angola e Moçambique, tem uma enorme importância para o português de Portugal, e a que é usada em Portugal, que é a pior delas todas e a mais inautêntica, e que é completamente ilegal e subverte o próprio Acordo Ortográfico. É nessa situação que estamos. Há que esperar que alguém tenha um acesso de bom senso.»
[Texto 1722]

Só os antigos

Por entranhado respeito

       «E, tal como faziam os Celtas há três mil anos, tudo é colocado num recipiente de cobre. “São os quatro elementos mais fortes do universo: terra, ar, água e fogo (representado pelo sol)”, elucida o mestre de cerimónias que depois de tudo misturar e munido de uma vara de Aveleira [sic] (símbolo do poder do sol) aguarda o nascer do Sol» («Marão recebeu dezenas para verem solstício», José António Cardoso, Diário de Notícias, 23.06.2012, p. 13).
      Já aqui tinha falado disto: para os jornais, mas não só, também em traduções, por exemplo, gentílicos com maiúscula, só os antigos. Uma regra inventada por eles.
[Texto 1721]

«Colocar em risco»

Rei morto, rei posto

      Jornalista João Fernando Ramos no Jornal da Tarde de ontem: «O arcebispo de Filadélfia foi condenado a sete anos de prisão pelo crime de pedofilia. Os juízes consideraram Monsenhor William Lynn, de 61 anos, culpado. No julgamento, que decorreu durante três meses, Lynn foi ainda acusado de encobrir casos de violação de menores e de colocar crianças em risco.»
[Texto 1720]

 

Imã, imame, imamo...

Não chegaram

      «Entre as várias competências deste órgão [Conseil Français du Culte Musulman] destaca-se a criação de um grupo de reflexão sobre o desenvolvimento de um curriculum oficial, e reconhecido, para os imams em França» («Será que Deus não precisa de passaporte? Islão “imigrante”, normatividades seculares e islamofobias», José Mapril. In Imigração e Racismo em Portugal: O Lugar do Outro (org. Bruno Peixe Dias e Nuno Dias). Lisboa: Edições 70, «Colecção Livros de Bolso Le Monde Diplomatique», 2012, p. 147).
      Temos, em português, três vocábulos, três, para designar o sacerdote muçulmano, mas o autor tinha logo de usar, onze vezes, um termo estrangeiro. Temos, ora tome nota, imã (imãs), imame (imames) e imamo (imamos). Temos, que diacho! de prezar o que é nosso.
[Texto 1719]

O desgraçado verbo «pôr»

RIP

      É oficialíssimo: o verbo «pôr» morreu mesmo. Depois de alguns anos em coma, morreu esta madrugada. Vai estar esta noite em câmara-ardente na capela do Público. À família enlutada (antepor, apor, compor, contrapor, contrapropor, decompor, depor, descompor, dispor, entrepor, impor, indispor, interpor, justapor, opor, pospor, predispor, prepor, pressupor, propor, recompor, repor, sobpor, sobrepor, sotopor, subpor, supor, transpor, etc.) apresentamos as nossas condolências. Como todos os defuntos, era uma excelente pessoa. Segundo o testemunho emocionado de alguns colegas, como o Dr. Meter e o Eng.º Colocar, nos últimos anos o Sr. Pôr sentia-se muito combalido e maltratado.
      «Esta longa enumeração de pecadilhos não deve obnubilar a imensa capacidade narrativa de [Afonso] Cruz, patente não apenas no minucioso encadeamento das situações como no cinzelar de cada cena, nos diálogos (não é de mais elogiá-los de novo) ou no talento para colocar uma personagem em movimento» («Tragicomédia alentejana», João Bonifácio, «Ípsilon»/Público, 22.06.2012, p. 31).
[Texto 1718]

«Seu merdas»

No plural, aos baldes

      E a propósito de coprofilia, o que será mais comum em calão: «Seu merda» ou «seu merdas»? Acabei de ver no singular (a traduzir o francês ordure), mas, não sei porquê, a mim o plural soa-me mais ofensivo, se tal é possível.
      «Mate-me não uma vez mas dez vezes, é o que lhe peço, e dê-me a mesma morte que você, seu merdas, deu ao cardeal de Saragoça, porque você é que o matou, não foi outra pessoa» (O Adeus às Virgens, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1992, p. 123).
[Texto 1717]

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