Léxico: «descrispação»

Só políticos

        «“Deixem o TC decidir livremente. Acho que Barroso não facilitou o clima de descrispação”, asseverou o comentador político [Marcelo Rebelo de Sousa]» («“Barroso não facilitou clima de descrispação com o TC”...», P. S., Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 10).
       Descrispação. Até custa a dizer. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora-a. Quase toda a gente, aliás, mas já me tinha cruzado com ela: «A Mário Soares se deve precisamente a descrispação da vida política e um magistério constante de tolerância e de convivência» (Arte de Marear, Manuel Alegre. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, 2.ª ed., p. 171).
[Texto 3499]
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Léxico: «sezonismo»

Febre palustre

      «Em Portugal, os últimos casos de sezonismo, como diziam os mais antigos, aconteceram em meados do século XX» («Milagre: o telemóvel até já cura a malária», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 7).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, e não afirma que é antigo ou desusado. Este verbete, por sua vez, remete para «impaludismo», este sim, segundo o dicionário, «antiquado». Ou seja, se remete para um termo antiquado, é porque também é antiquado, é assim? Mas não o registam!

[Texto 3498]
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Como se escreve nos jornais

Assim se vê a força do AO

      «No Campo Pequeno, cuja praça era dominada por um painel gigante com a carismática figura de Álvaro Cunhal ao lado do título “Vida, pensamento e luta, exemplo que se projeta na atualidade e no futuro”, o evento começou com a banda Brigada Vítor Jara, seguindo-se duas canções interpretadas por Luísa Basto da “varanda presidencial” e que terminou com a famosa Avante, Camarada, A Internacional e A Portuguesa (hino português)» («PCP “pronto a assumir” governo e dar vida ao sonho de Cunhal», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 8).
      Só se mudou de nome, porque sempre foi Brigada Victor Jara. Ah, claro que a varanda precisava das aspas, é um elemento estrutural tão necessário como os pilares ou as paredes.
[Texto 3497]
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Com «tacto» mas sem cuidado

Estão com medo

      E daí... «Dois exemplos, ainda que de natureza diferente. O primeiro é a discussão mediática que se gerou com a entrevista de Margarida Rebelo Pinto a propósito da contestação à austeridade. Vivemos num país democrático em que qualquer um é livre de exprimir a sua opinião. E nós somos livres de discordar dela. Discordemos então, mas não amordacemos o mensageiro. Querem que vos diga o que penso? Foi um tremendo disparate e uma enorme falta de tacto» («O rastilho e a bomba», Nuno Azinheira, Diário de Notícias, 10.11.2013, p. 52).
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o que vemos é que «tacto» perde o c; o «Vocabulário de Mudança», do ILTEC, não diverge, e até acrescenta: «tacto não é usado em Portugal». Os antiacorditas, é claro, afirmam que é uma incoerência que «tacto» perdesse o c e «intacto» e «contacto» não. Incoerência? Nada disso. Ah, sim, também eu sou contra o Acordo Ortográfico de 1990.

[Texto 3496]
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Como escrevem os políticos

E mai’ nada

      «Num dos materiais de apelo ao voto dos militantes alfacinhas, Pedro Rodrigues dizia que “o PSD deve rejeitar a ideia de que as respostas à actual crise se encontram numa neutralidade axiológica vinculada à ortodoxia financeira ou à tecnocracia, num consenso vazio ou em compromisso sem solidez e substância”. A Vespa ficou estonteada com tanta substância e profundidade. Ufa...» («Um douto candidato à distrital de Lisboa», Diário de Notícias, 10.11.2013, p. 13). 
      A Vespa e nós, ora essa. A palavra de ordem do candidato é «devolver o PSD às pessoas». A minha parte — eu sou altruísta — podem dá-la ao meu vizinho.
[Texto 3495]
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E o singular é?...

O mundo às avessas

      «“Sefiró” — remonta a Sefer Jezirah e significava “algarismo”. Na cabala, é o nome dado às emanações de Deus. Os sefirós são 10 e a cada um corresponde um nome divino» (O Livro das Maravilhas, Carlos Vale Ferraz. Lisboa: Editorial Notícias, 1999, p. 238).
      É a segunda vez, tanto quanto me lembro, que vejo esta palavra assim aportuguesada; habitualmente, é sefirot ou sephiroth — plural de sefira ou sephira — que se vê. Para o autor, porém, o singular é «sefiró». Se aportuguesamos, é claro que num vocábulo desta natureza o plural se faz por simples acrescentamento do s. Mas formar o singular com base no plural?
[Texto 3494]
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Tradução: «sesto»

Mistério

      No Dicionário de italiano-Português da Porto Editora, podemos ver que à palavra italiana sesto fazem corresponder a palavra portuguesa — portuguesa? — «cintro». Nunca vi tal. Claro que não está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Gralha ou invencionice? Sesto é o nome que em italiano se dá à linha curva do intradorso do arco. No caso, porém, da tradução que estou a ler, não se trata de um arco, mas de paredes que terminam nesses elementos arquitectónicos.
[Texto 3493]
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Tradução: «soletta»

Mestre-de-obras

      «La terra era un grande rettangolo delimitato da quattro immense pareti che sostenevano due strati di volta celeste: sul primo brillavano le stelle e nella intercapedine, o soletta, vivevano i Beati.» Sim, Umberto Eco em «La Forza del Falso». Mas soletta não corresponde, como acabo de ler, em português, neste contexto, a «soleta» (como em italiano, temos, entre outras que nunca constam dos dicionários, a acepção de «palmilha»). Demasiado simples — e falso. Intercapedine pode traduzir-se por «desvão» ou «forro», e soletta talvez por «laje». Será?
[Texto 3492]
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«Exame ADOC»!

E o Teatro Adoque

      «“O meu primeiro dia de trabalho foi com o Vasco Morgado (o pai). O percurso foi muito simples: fiz o liceu, o exame ADOC, porque queria trabalhar de dia e estudar à noite, depois entrei para o conservatório de teatro e cinema. Entretanto, soube que havia casting para um espetáculo de variedades com o Carlos Avilez e lá fui. Tinha 18 anos”, recorda o ator [Rogério Samora]» («“Continuo a ter medo de que ninguém se lembre de mim”», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 10.11.2013, p. 53).
      Demasiado nova para saber ou demasiado desleixada para investigar? Responda quem souber. É exame ad hoc que se diz, cara Ana Lúcia Sousa, exame ad hoc.
[Texto 3491]
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Léxico: «plúrimo»

Perdeu-se o verbete

      Plúrimo. Vem directamente do latim e é usado sobretudo em Direito. Talvez faça também falta à poesia e, sei lá, aos críticos literários. Fernando Pessoa foi um poeta plúrimo. Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3490]
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Léxico: «ciclopatrulha»

Esta é nova

      «Entre 2012 e 2013, os 61 agentes das ciclopatrulhas fizeram em Lisboa 32 detenções, 39 identificações e passaram 1956 multas» («Polícias com muita pedalada no combate ao crime em Lisboa», Luís Fontes, Diário de Notícias, 10.11.2013, p. 20).
[Texto 3489]
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Que raio de «província»

Foram os da glote

      «Tomemos o exemplo de uma província da teoria do texto, etc.». Podemos exprimir-nos desta maneira? Em sentido figurado, está nos dicionários, podemos usar o termo para significar secção, ramo. Não terá origem no italiano? «In senso fig., nell’uso letter. (non com.), settore specifico, ramo ben determinato nell’ambito di una disciplina, di un’arte e sim.: le scienze ... mi paiono una p. di letteratura ... interamente diversa dalle belle lettere (Alfieri)», lê-se no Treccani. À primeira vista, dir-se-ia um falso amigo. Não daqueles do Facebook, antes um falso cognato.
[Texto 3488]
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Tradução: «Schlagholz»

Se é para bater, batedeira

      «E via-se a si próprio como se debruçava sobre as batedeiras, para escolher uma; como fazia rolar a bola de um lado para o outro até tê-la bem ajeitada e lançá-la no momento preciso mesmo para o sítio onde queria que fosse cair; tão alto, para que o tempo de queda da bola correspondesse exactamente ao tempo que ele necessitava para pôr também a mão esquerda em volta do cabo da batedeira, brandi-la e atingir a bola com toda a força, para que voasse para muito longe, até para além da marca» (Bilhar às Nove e Meia, Heinrich Böll, tradução de João Carlos Beckert d’Assumpção. Lisboa: Editorial Aster, s/d [mas talvez de 1961], p. 48).
      Em que se repara logo, logo? Que não são frases para leitores com deficiências cognitivas. E que mais? Que faz ali uma batedeira? Em todo o texto é isso que se lê, batedeira para aqui, batedeira para ali. Na página 53, porém, o tradutor distraiu-se ou consentiu em facilitar a vida ao leitor e saiu «taco». Claro que o tradutor devia usar sempre «taco», a haste com que se bate a bola em jogos como o golfe, o pólo, o hóquei, etc.; nem sei onde foi desencantar «batedeira» nesta acepção. Pode ter sido o termo que, provisoriamente, encontrou, com a intenção de mais tarde substituir por outro, e depois esqueceu-se.
      «Und er sah sich selbst, wie er sich nach den Schlaghölzern bückte, um seins herauszusuchen; wie er den Ball in der linken Hand hin und her rollte, her und hin, bis er ihn griffig genug hatte, ihn im entscheidenden Augenblick genau dorthin zu werfen, wo er ihn haben wollte; so hoch, daß die Fallzeit des Balles genau der Zeit entsprach, die er brauchte, um umzugreifen, auch die linke Hand ums Holz zu legen, auszuholen und den Ball zu treffen, mit gesammelter Kraft, so, daß er weit fliegen würde, bis hinters Mal.»
[Texto 3487]
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Sobre «sereia», de novo

Mais um r, e metia endoscopia

      De manhã, enquanto esperava que a minha 星 tivesse aula de mandarim, estive no Farol de Santa Marta. Mesmo no exterior, estão expostas algumas peças que se usam ou usaram nos faróis, e entre elas uma sereia eléctrica. É assim que se lê na cartela. Sereia — não sirene. Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem em muitos outros. Registam, porém, «nefoscópio», um instrumento que serve para determinar a direcção e a velocidade das nuvens em movimento, que também lá está em exposição.
[Texto 3486]
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«Envenenado até à morte»

Jornalistês

      A. M. Pires Cabral anunciou no Facebook — disseram-me, porque eu não frequento essas paragens — a sua próxima obra, Língua Charra, Regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro (Âncora Editora, 2013), onde também deixou esta nota:

«JORNALISTÊS
Oiço na Antena 1 uma jornalista dizer, aparentemente sem arrepios de consciência, que Yasser Arafat “foi envenenado até à morte”. As maldades que estes jornalistas e tradutores apressados estão ao fazer ao Português! Recebem um despacho em inglês de uma qualquer agência noticiosa internacional, onde lêem que “Mr. Arafat was poisoned to death”, e nem param um minuto a pensar. Toca a traduzirem para jornalistês: “envenenado até à morte”. Dá impressão que, até morrer, o pobre Arafat foi sendo envenenado metodicamente, dia após dia, e só deixaram de o envenenar quando morreu. Já tínhamos o “espancado até à morte”, o “esfaqueado até à morte” e outros mimos que tais. Não seria muito melhor Português dizer “morto por envenenamento”, etc.? Pois era; mas para isso os jornalistas tinham de falar Português, e não jornalistês. E tinham que prestar culto à língua portuguesa, e não preito de submissão à língua inglesa.»

[Texto 3485]
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Dois pesos, duas medidas

Ou não fosse ele indígena

      «No Ocidente, o abandono do cristianismo em qualquer das suas variedades tem sido progressivo desde o princípio do século XIX e reforçado, a partir de 1850-1870, pela crítica bíblica e pelo evolucionismo de Darwin. [...] Mas, fatalmente, a cada concessão, irá crescendo a ideia de uma mudança radical na Igreja, que a deixaria irreconhecível como, por exemplo, sucedeu ao Anglicanismo» («O inquérito do Papa Francisco», Vasco Pulido Valente, Público, 9.11.2013, p. 52).
[Texto 3484]
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Léxico: «mal-do-panamá»

Soa a doença venérea

      «No início do século XX, o fungo que provoca o mal-do-panamá causou os primeiros prejuízos importantes em plantações de banana precisamente no Panamá» («O que é que a banana tem? Uma nova estirpe de fungo que está a alastrar-se», Teresa Firmino, Público, 8.11.2013, p. 37).
      Acho que só ultimamente é que ando a ver o verbo «alastrar» como pronominal. Eu escreveria assim: «Uma nova estirpe de fungo que está a alastrar.»
[Texto 3483]
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Os «nostalgériques»

E os nostálgicos do nosso império?

      «Os “nostalgériques” (os nostálgicos da Argélia francesa), com importante peso eleitoral em Aix-en-Provence e com uma presença assinável [sic] nos novéis meios de comunicação, condicionaram o processo» («Albert Camus. Um homem irrecuperável», Miguel Bandeira Jerónimo, Público, 8.11.2013, p. 22).
[Texto 3482]
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O dinheiro e o dicionário

Inveja não é

      Pode algum leitor do Linguagista ter a dúvida: «Sou multimilionário? Não sou multimilionário?» Se souber ler, procurará num dicionário. O da Porto Editora regista: «que ou aquele que é muitas vezes milionário; que ou aquele que é muitíssimo rico». Muitas vezes, pois, mas quantas? O Público esclarece: «Um relatório do banco suíço UBS concluiu que em Portugal há mais 85 milionários [sic] — indivíduos com fortunas superiores a 30 milhões de dólares (perto de 22,4 milhões de euros) — do que em 2012» («O número de multimilionários portugueses subiu e estão mais ricos», Camilo Soldado, Público, 8.11.2013, p. 22). O jornalista ficou de tal modo perturbado, coitado, que se enganou. Ah, sim, o título também é curioso.
[Texto 3481]
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Literatura na política

Disse a rainha

      «Perante as críticas da oposição sobre a visão positiva do ministro da realidade do país, Maduro respondeu: “A forma como analisam a situação de Portugal só me recorda a Alice no País das Maravilhas: ainda não é pequeno-almoço e eu já acreditei em seis coisas impossíveis”» («Alice no País das Maravilhas, segundo o ministro Miguel Poiares Maduro», Maria Lopes, Público, 8.11.2013, p. 12).
      Está bem citado? Hum... «“I daresay you haven't had much practice,” said the Queen. “When I was younger, I always did it for half an hour a day. Why, sometimes I’ve believed as many as six impossible things before breakfast.”» Ficamos assim com vontade de reler esta obra.
[Texto 3480]
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Tradução: «self-publishing»

Em busca do self

      «Memórias agora reunidas em Os Beatles na Imprensa Portuguesa 1963-1972, de Abel Soares Rosa, livro com tiragem limitada que acaba de ser lançado em autoedição» («Como se falava dos Beatles sob o olhar atento da censura», Nuno Galopim, Diário de Notícias, 6.11.2013, p. 47).
      Parece que se pretende assim traduzir o termo inglês self-publishing. Pois, mas em português não se disse sempre, caro Nuno Galopim, «edição de autor»? Isso é arrombar portas abertas.
[Texto 3479]
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Paradoxo de Stanisław J. Lec

Para terminar

      Para acabar o dia, deixo um paradoxo de Stanisław Jerzy Lec. Em inglês, não em polaco nem em português. «There are grammatical errors even in his silence.»
[Texto 3478]
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A importância do imperfeito

Incompreensível

      «Je sortais d’un théâtre.» Assim começa Sylvie, de Gérard de Nerval, incompreensivelmente ainda sem tradução portuguesa. Gostava de a ver traduzida por Pedro Tamen ou por Mega Ferreira, por exemplo. Em nota de rodapé em certa obra, Eco afirma: «Infelizes as línguas que não têm imperfeito e se esforçam por dar este incipit nervaliano.» É o caso do inglês, língua em que já se fizeram várias traduções daquela obra.
[Texto 3477]
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Ortografia: «sub-reptício»

Sub-repticiamente

      E porque será que tanta gente erra na ortografia desta palavra e do advérbio? Não sei. O que sei é que o Acordo Ortográfico de 1945 previa explicitamente que se devia usar hífen nos «compostos formados com o prefixo sub, ou com o seu paralelo sob, quando o segundo elemento começa por b, por h (salvo se não tem vida autónoma: subastar, em vez de sub-hastar), ou por um r que não se liga foneticamente ao b anterior». Da leitura do acordo de 1990 não se chega a nenhuma conclusão sobre esta questão.

[Texto 3476]
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Plural de «pequeno-burguês»

Caladinhos não erram

      Tal e tal, «para combater os seus inimigos, os pequeno-burgueses». Surge sempre a dúvida: é este o plural do substantivo «pequeno-burguês»? Para a edição em linha do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sim, adjectivo e substantivo pluralizam desta maneira. Com escassíssimas excepções (agora lembrei-me do advogado Luís Filipe Carvalho, ontem, na SIC: «A justiça sempre teve orçamentos bastante paupérrimos»), porém, é o silêncio completo, ninguém se quer comprometer. Vi algures que o plural do substantivo é «pequenos-burgueses» e do adjectivo «pequeno-burgueses». A palavra veio-nos do francês e de uma coisa podemos ter a certeza: nesta língua, petits-bourgeois é o plural tanto do substantivo como do adjectivo.
[Texto 3475]
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Estilo literário de Marx

Quero ler

       Não o Marx do Manifesto do Partido Comunista, que é obra em co-autoria, mas tudo o resto, incluindo a péssima (ao que parece) poesia que escreveu. «Creio que já seja impossível de arranjar e valia a pena reeditá-lo», escreveu Umberto Eco num texto publicado no Expresso de 8 de Janeiro de 1998 (lembra-se, Fernando?), e referia-se à obra O Estilo Literário de Marx, de Ludovico Silva. No Brasil, tem uma edição recente (São Paulo: Expressão Popular, 2012).
[Texto 3474]
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«Extracuidado»!

Eis como falam

      Jornalista Alexandra Madeira, no noticiário da Antena 1 às duas da tarde: «Ao saber de três casos de portugueses raptados, é natural o sentimento de apreensão por parte de quem vive e trabalha em Moçambique. João Romeiro, a partir de Maputo, afirma que os cidadãos nacionais não tinham sido vítimas destas situações até agora. [...] Em Maputo, com um extracuidado de alerta a situações de risco, mas sem pensar em sair do país.»
[Texto 3473]
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Os juízes e a língua

Muito mal sabido

      O famigerado juiz Rui Teixeira recusou receber, lê-se em toda a imprensa, pareceres técnico-sociais redigidos segundo as novas normas ortográficas. A Direcção-Geral de Reinserção Social (DGRS) pediu um esclarecimento ao magistrado, ao que este respondeu que a «Língua Portuguesa não é resultante de um tal “acordo ortográfico” que o Governo quis impor aos seus serviços», acrescentando que «nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso e a Língua Portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário».
      Os professores e os jornalistas já vão sabendo que isto não é assim, mas alguns juízes, pela amostra, ainda metem alegremente os pés pelas mãos.
[Texto 3472]
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Diálogos

Fora daqui

      Ao escritor desconhecido. Se estão apenas duas personagens a falar, qual a necessidade de o narrador estar constantemente a intervir? Disse João, cochichou Maria, tranquilizou João... A não ser para dar um pormenor de comportamento, de espaço, etc., o narrador não tem de se intrometer nos diálogos, pois muitas vezes está apenas a duplicar a informação que o leitor recebe. Pensava que aprendiam isto nos cursos de escrita criativa.
[Texto 3471]
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Léxico: «ângelus»

Menos latim

      «O Papa Francisco lembrou durante o Angelus de ontem que “não existe profissão ou condição social, não há pecado ou crime de qualquer género que possa cancelar da memória e do coração de Deus um filho”» («Papa pede forte mudança nos corações», Diário de Notícias, 4.11.2013, p. 20).
      Em português, escreve-se ângelus — não precisamos nem do itálico nem da maiúscula. E será que nós dizemos «cancelar da memória»? Hum... Em italiano, sim: «Non c’è professione o condizione sociale, non c’è peccato o crimine di alcun genere che possa cancellare dalla memoria e dal cuore di Dio uno solo dei suoi figli.» Nós diríamos «apagar da memória», talvez até «riscar da memória».
[Texto 3470]
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«Mantrailing», hein?

Deve ser pela melodia

      «[Kevin J. Kocher] Esteve entre sexta-feira e ontem a dar a primeira formação feita em Portugal de mantrailing. Nada mais do que a “arte” de encontrar alguém específico pelo odor» («Cães ajudam a encontrar doentes perdidos através do faro», Ana Maia, Diário de Notícias, 4.11.2013, p. 20).
      Ainda nem sequer está registado nos dicionários de língua inglesa, mas não tarda podemos encontrá-lo nos de língua portuguesa.
[Texto 3469]
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«Colocar o dedo na consciência»!

Outra vergonha

      «Quem coloca o dedo na consciência coletiva é o escritor Hans-Magnus Enzensberger, que deixa no ar um [sic] pergunta de difícil resposta: “Porque é que ninguém se mexe para o ajudar? Parece que todos admiram Snowden, no entanto, nada fazem por ele.”» («Personalidades alemãs pedem asilo político para Edward Snowden», L. M. C., Diário de Notícias, 4.11.2013, p. 23).
      Então não é pôr a mão na consciência que se diz, caro L. M. C.? Isso não é meter os pés pelas mãos, confundir demasiado, atrapalhar tudo? Agora já não apenas trocam, a torto e a direito, o verbo «pôr» pelo verbo «colocar», como confundem também a anatomia. (Ah, e Hans Magnus não tem hífen.)

[Texto 3468]
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Ortografia: «ascensão»

Uma vergonha

      «O mesmo aconteceu com o jovem australiano Andrej Pejicc [na verdade, Pejić], cuja mudança lhe trouxe uma vertiginosa ascenção no universo da alta-costura» («A modelo que parece o que não é para... não perder o emprego», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 4.11.2013, p. 53).
      Quem escreve isto também é capaz de escrever «ascençor do Lavra», por exemplo. Uma jornalista! Pode haver excepções, mas, de forma geral, os verbos terminados em -nder dão origem a substantivos terminados em -nsão. É o caso: ascenderascensão.
[Texto 3467]
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