«Cônsul/diplomata»

Meia razão

      A Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses (ASDP) enviou um comunicado ao provedor do leitor do Diário de Notícias sobre o uso que se fez neste jornal do termo «diplomata» (e, concretamente, a expressão «diplomata exonerado») numa notícia sobre um vice-cônsul a contas com a justiça. A ASDP afirmou que não é correcto, pois a pessoa em causa «não integra, nem integrou, o Serviço Diplomático, ao qual apenas poderão aceder os cidadãos que obtenham aprovação em concurso público específico e que é regido por Estatuto profissional próprio».
      Depois de apresentar a reclamação, argumenta o provedor do leitor: «A Associação tem meia razão. Não tem nenhuma quando limita os diplomatas aos “aprovados em concurso público”. Muitos embaixadores, escolhidos apenas por razões políticas, deixaram melhor nome na história da diplomacia do que imensos aprovados em concurso. Por outro lado, um cônsul pode ser um diplomata por mérito inteiro: até existir, o cônsul-geral de Portugal em Nova Iorque era um prestigiado embaixador de carreira. O cônsul Aristides de Sousa Mendes honra a história da diplomacia portuguesa. Vários dicionários – Aurélio Buarque de Hollanda, Aulete e outros – definem cônsul como “funcionário diplomático”. Diversos autores definem os embaixadores como diplomatas nomeados para defesa dos interesses do Estado e os cônsules como diplomatas nomeados para defesa dos interesses dos cidadãos em países estrangeiros.
      Recomendação aos jornalistas do DN: evitem chamar diplomatas aos cônsules. Não é que esteja cem por cento errado. Mas não é cem por cento certo» («Por mais diplomatas que sejam os cônsules, não os chamem diplomatas», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 28.04.2012, p. 47).
      «Aurélio Buarque de Hollanda, o homem que virou dicionário» é o título de um artigo sobre o dicionarista e o seu dicionário. O referido dicionário é conhecido por Aurélio. Simplesmente. Um pormenor, claro. Os melhores dicionários não definem «cônsul» como diplomata. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado, por exemplo, define-o assim: «Agente de uma nação, encarregado, em país estrangeiro, de proteger os súbditos e os negócios dessa nação, fomentar o respectivo comércio, etc.» Não cabe no etc. a representação política, cerne da função diplomática.

[Texto 1450]
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