A escrita de Mia Couto
2.5.12
Nem chega a ser modéstia
O leitor R. A. disse-nos ontem, pouco antes das 10 da noite, que acabara de ouvir o escritor Mia Couto na SIC Notícias a falar do seu novo livro, A Confissão da Leoa, e a negar ter inventado a palavra «desconseguir». Não vi ontem, mas vi hoje.
MÁRIO CRESPO: «A tua escrita, por exemplo... Eu vou aqui só... Eu fui anotando algumas das construções, das invenções mais ricas. Para dizer há pessoas aqui, há muitas pessoas, e a pessoa responde: “Sim, são tantíssimas.”»
MIA COUTO: «Isso é comum, não é uma invenção minha. Isso é possível ouvir-se em Moçambique. Eu não te posso dizer exactamente onde é que a ouvi, mas não queria estar a dizer que eu inventei isto. Porque há coisas que eu, digamos, eu invento, mas na base de uma lógica que já está lá. Tenho que declarar isto assim...»
MÁRIO CRESPO: «E a mãe que manda uma das filhas matar uma galinha para comer e vai “despescoçar a galinha”.»
MIA COUTO: «Isso é invenção minha, mas outra vez na base de uma coisa que é possível. Ali, por exemplo, “desconseguir” é comum, é uma palavra comum. Esta construção da negação é comum.»
Digamos que Mário Crespo escolheu muito mal os exemplos. Mais duas perguntas de Mário Crespo: «Na tua vida profissional, tu nomadizas pelo país, neste momento trabalhas mesmo, mesmo no Norte de Moçambique, já é ali uma zona ela própria de miscigenação também, com a Tanzânia, com a... uma nação de nações, ali... Tu falas alguma das línguas ou entendes alguma?...» «Qual é a tua atitude ao Acordo Ortográfico?»
Já hoje, o escritor foi entrevistado na Antena 1 pelo jornalista Ricardo Alexandre e o que mais me chamou a atenção foi a pronúncia, ao que parece comum em Moçambique, do topónimo Tanzânia com acento no i, Tanzania.
[Texto 1456]
edit
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