Léxico: «estrela-guia»

Também nos falta isto


      Então o mariola do Jakob von Gunten jura que os Benjamentas são as suas «queridas e luminosas estrelas-guias» e a Porto Editora nem assim se deixa sensibilizar? Ach, welche Nachlässigkeit! Então, não me resta senão propor ➠ estrela-guia 1. estrela ou outro astro que serve de referência para orientação; 2. figurado pessoa, ideal ou outra realidade que serve de orientação, exemplo ou inspiração.

[Texto 23 660]

Léxico: «arte-educador»

Vinda do Brasil


      «A produção [do ceramista Yasuichi Kojima] logo chamou a atenção de restaurantes da região e, posteriormente, de compradores de outras partes do país e do exterior. “Com o tempo, a técnica passou a ser reconhecida como arte”, conta a arte-educadora Cecília de Camargo, amiga da família há mais de duas décadas» («Trouxe do Japão a técnica tradicional da porcelana», Isabela Palhares, Folha de S. Paulo, 6.10.2026, p. A45). 
      Fora dos nossos dicionários, pelo que proponho ➠ arte-educador nome masculino pessoa que se dedica ao ensino da arte ou à mediação de conhecimentos e experiências artísticas, em estabelecimentos de ensino, instituições culturais ou outros contextos educativos.

[Texto 23 659]

Definição: «robô»

Onde isso já vai


      Ontem à noite, numa rádio, ouvi uma conversa acerca dos robôs e sobre terem de pagar impostos, no futuro. Acho bem, pois então. Ou acharia, se fosse político. O que acho graça é a definição de «robô» nos nossos dicionários reflectir uma concepção já ultrapassada, muito centrada no robô industrial tradicional, destinado sobretudo à execução de tarefas repetitivas ou perigosas em substituição do ser humano. Onde isso já vai... Além disso, os robôs não se destinam necessariamente a substituir o ser humano na execução de tarefas: podem auxiliá-lo ou complementá-lo e podem ainda desempenhar funções que, pelas suas características ou pelo meio em que são realizadas, não poderiam sequer ser executadas directamente por uma pessoa. A robótica contemporânea abrange, contudo, máquinas com funções e graus de autonomia muito diversos. Sugiro, por isso, uma definição mais abrangente e consentânea com a terminologia técnica actual, designadamente com a ISO 8373:2021: «máquina programável, dotada de algum grau de autonomia, capaz de realizar tarefas através de movimentos de locomoção, manipulação ou posicionamento». 
      Assim, proponho ➠ robô 1. máquina programável, dotada de algum grau de autonomia, capaz de realizar tarefas através de movimentos de locomoção, manipulação ou posicionamento. (Quanto à etimologia, na realidade, é esta: do checo robot, «idem», termo proposto por Josef Čapek para a peça R.U.R. (1920), do seu irmão Karel Čapek, de robota, «trabalho forçado; corveia».)

[Texto 23 658]

Definição: «savanização»

E depois disto


      «Flávio Bolsonaro é descrito como negacionista, como o pai, aumentando, para especialistas, a probabilidade de savanização do bioma, o que teria efeitos drásticos na regulação do clima. É um dos chamados pontos de não retorno: quando a floresta não conseguirá mais se recuperar» («Ambientalistas e jornais europeus veem riscos se Flávio Bolsonaro vencer», José Henrique Mariante, Folha de S. Paulo, 6.10.2026, p. A41).
      Vejamos como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define o termo: «ECOLOGIA processo de transformação de uma região de floresta tropical para um ambiente de tipo savânico». Contudo, não tem necessariamente de partir de uma floresta tropical, embora seja sobretudo nesse contexto, designadamente a propósito da Amazónia, que hoje se fala muito de savanização. (E claro que aquela «transformação ... para» não está bem.) Sendo assim, proponho ➠ savanização ECOLOGIA processo de transformação de um ecossistema, geralmente florestal, num ecossistema de tipo savânico, caracterizado pela redução da cobertura arbórea e pelo aumento da vegetação herbácea.

[Texto 23 657]

Léxico: «giroavião | girodino» Definição: «helicóptero»

Falemos disto


      Ontem, na RTP2, vi o terceiro episódio da série Guerra Aérea – A História. Falaram do helicóptero e, para mim, ficou claríssimo que a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não está inteiramente correcta. E a etimologia está errada: «Do grego hélix, -ikos, “movimento helicoidal” +pterón, “asa”». A Porto Editora define-o como o «aparelho de aviação dotado de um ou mais rotores, capaz de elevar-se verticalmente, de sustentar-se na atmosfera e de se deslocar em qualquer direcção». Assim descrito, não fica claro o que o distingue de outros giroaviões, como o autogiro, cujo rotor não é accionado por motor. Proponho, por isso ➠ helicóptero aeronave dotada de um ou mais rotores de eixo sensivelmente vertical, accionados por motor, que lhe asseguram a sustentação e a deslocação e lhe permitem descolar e aterrar na vertical e manter-se em voo estacionário. (Quanto à etimologia, vem do francês hélicoptère, «idem», do grego hélix, hélikos, «espiral», + pterón, «asa».)

[Texto 23 656]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Pois, já vi que não registas «giroavião», Porto Editora. Por isso, proponho ➠ giroavião aeronave mais pesada do que o ar cuja sustentação é assegurada, total ou parcialmente, por um ou mais rotores que giram em torno de um eixo sensivelmente vertical (o helicóptero, o autogiro e o girodino são giroaviões). (Quanto à etimologia, vem de giro- + avião, cf. francês giravion.)


P. P. S.: Ah, sim, Porto Editora, vejo que também desconheces o ➠ girodino giroavião dotado de um rotor accionado por motor, que lhe assegura a sustentação e lhe permite descolar e aterrar na vertical e manter-se em voo estacionário, e de um sistema de propulsão independente (hélices ou reactores) que lhe assegura a deslocação horizontal. (Do inglês gyrodyne, «idem», de gyro-, do grego gŷros, «círculo; volta», + -dyne, do grego dýnamis, «força».)


Léxico: «alulose»

Desconhecida por cá


      «Os produtores de alimentos são frequentemente processados por suposta propaganda enganosa. Há dezenas de casos recentes que contestam alegações de sem açúcar" para produtos que levam um substituto do açúcar conhecido como alulose» («Starbucks é processada nos EUA por causa de bebidas proteicas sem açúcar», Folha de S. Paulo, 6.10.2026, p. A36). 
      Não a vejo nos nossos dicionários, mas encontro-a na imprensa e em teses. Assim, proponho ➠ alulose QUÍMICA açúcar raro, monossacarídeo (C₆H₁₂O₆), epímero da D-frutose no carbono 3, que ocorre naturalmente em pequenas quantidades em certos alimentos e é utilizado como edulcorante de baixo valor energético. (Quanto à etimologia, vem do inglês allulose, «idem», de allose, «alose», por analogia com a nomenclatura dos açúcares cetónicos.)

[Texto 23 655]

Definição: «granada | granada de mão»

Ficariam muitas de fora


      «Sans surprise, la mobilisation était encore intense lundi devant les lycées. Et non sans heurts. Dans la matinée, un élève de 15 ans, du lycée Behal de Lens (Pas-de-Calais) a vu sa main arrachée par l’explosion d’une grenade de désencerclement lancée par les CRS, alors qu’il tentait de la ramasser» («Main arrachée, facs fermées... Journée tendue avant la grande manifestation», Emma Ferrand, Le Figaro, 6.10.2026, p. 4).
      Como lera a notícia na véspera, sonhei que estava a corrigir a definição no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E, de facto, impõe-se fazê-lo, já que diz assim: «MILITAR projéctil de grande ou médio calibre lançado por canhões, peças, obuses ou morteiros, com efeitos explosivos, perfurantes ou de dispersão de gases». O primeiro problema surge logo com o domínio: MILITAR? O próprio caso que nos trouxe aqui demonstra porquê: as granadas são equipamento militar, evidentemente, mas também são armas e meios policiais. Os dicionários brasileiros têm uma solução melhor: ARM, que tanto pode ser de «arma» como de «armamento». O segundo problema é mais grave: a definição da Porto Editora exclui uma quantidade enorme de objectos que indiscutivelmente se chamam granadas. 
      Assim, proponho ➠ granada 1. ARMAMENTO pequeno artefacto concebido para ser lançado manualmente ou por meio de arma ou dispositivo de lançamento, geralmente destinado a produzir efeitos explosivos, incendiários, fumígenos, lacrimogéneos, sonoros ou outros. 
      E depois regista «MILITAR granada de mão projéctil explosivo lançado manualmente, que se activa retirando-lhe a cavilha de segurança». A definição é demasiado restritiva em dois aspectos. Por um lado, uma granada de mão não é necessariamente explosiva, podendo destinar-se, por exemplo, a produzir efeitos fumígenos, incendiários, lacrimogéneos ou sonoros. Por outro, a referência à cavilha de segurança diz respeito apenas a determinados sistemas de segurança e iniciação, não constituindo uma característica definidora deste tipo de granada. A granada de mão define-se pelo modo de lançamento para que foi concebida, isto é, o lançamento manual. Não deixa, aliás, de ser uma granada de mão pelo facto de, mediante um adaptador, poder ser lançada por uma arma. 
      Assim, proponho ➠ granada de mão ARMAMENTO granada concebida para ser lançada manualmente.

[Texto 23 654]

Definição: «auto-rádio» Léxico: «rasganço»

Não serviria


      «Três quilómetros mais no rasganço do silêncio, no auto-rádio toca lá uma cassete gasta, uma cantora de tez pálida sussurrando melodias negras e azuis» (Invisão, Mário Cunha. Lisboa: Editora Kual, 2003, p. 224). Os auto-rádios da Porto Editora podem não servir para isto: «aparelho de rádio próprio para veículo automóvel». Proponho antes assim ➠ auto-rádio aparelho de som concebido para instalação em veículo automóvel, que integra um receptor de rádio e pode incluir outros dispositivos ou funções de reprodução de áudio. 
      Neste excerto, «rasganço» está associado à velocidade, mas os nossos dicionários não registam a palavra, apesar de estar bem presente na tradição académica coimbrã. Assim, proponho ➠ rasganço ACADEMIA tradição da Universidade de Coimbra que assinala a conclusão do curso, em que os colegas rasgam o traje académico do finalista.

[Texto 23 653]

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