Léxico: «móli»

Tradutor, não botânico


      «Quando essas palavras se referem a um conceito, já é dose. Mas e quando nomeiam um objeto, um ser vivo, uma planta? O que fazer com o fato de que a erva mágica que Odysseus/Ulysses recebe para se proteger dos feitiços de Circe se chama móli — e ninguém jamais cravou ao certo que dianho de planta seria isso?» («Por que Odisseu virou Ulisses», Caetano W. Galindo, Folha de S. Paulo, 20.08.2026, p. A38). 
      E isso é um problema? O móli pertence ao mundo da Odisseia, e Homero diz-nos o suficiente para sabermos o que ele é dentro desse mundo: uma planta que Hermes arranca da terra e dá a Ulisses para o proteger dos sortilégios de Circe; tem a raiz negra, a flor branca como o leite e é tão difícil de arrancar que os mortais não conseguem fazê-lo, mas os deuses, esses, tudo podem. Não sabemos a que espécie real corresponderia, se é que correspondia a alguma. Mas também não precisamos de saber para lhe chamar móli. A tradução literária está cheia de seres, objectos, lugares e substâncias que ninguém jamais viu. Não precisamos de identificar biologicamente a mandrágora de um mito, zoologicamente uma quimera ou geograficamente a ilha de Circe para os nomearmos em português. O referente é-nos dado pelo próprio texto. O tradutor não tem, pois, de resolver um problema de taxonomia que nem os botânicos da Antiguidade resolveram. Tem de traduzir Homero. E Homero chama à planta μῶλυ (môly). Em português, temos até a forma registada «móli», homónima de outra que aparece nos nossos dicionários e vocabulários (no VOLP da Academia Brasileira de Letras e no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, e em ambos os casos se diz que se trata de uma planta), e há uma curiosa relação entre elas, apenas as temos de dicionarizar. Assim, proponho ➠ móli¹ nome masculino MITOLOGIA planta de propriedades mágicas que, segundo a Odisseia, Hermes deu a Ulisses para o proteger dos encantamentos de Circe, descrita como tendo raiz negra e flor branca como o leite e como sendo difícil de arrancar pelos mortais. (Quanto à etimologia, vem do grego môly, «idem», pelo latim moly, «idem».) | móli² nome masculino BOTÂNICA (Allium moly) planta herbácea bulbosa, da família das Amarilidáceas, originária do Sudoeste da Europa, de folhas lanceoladas e flores amarelas, dispostas em umbelas; alho-dourado. (Quanto à etimologia, vem do latim científico Allium moly, nome da espécie, sendo moly tomado do latim moly, por sua vez do grego μῶλυ (môly), nome de uma planta, designadamente da planta de propriedades mágicas referida na Odisseia.)

[Texto 23 432]

Como se traduz por aí

Os famosos PT


      «Descendo o monte uns cinquenta metros até ao novo centro médico, atravessando o parque de estacionamento nas traseiras, ignorando a advertência histérica para não avançar sob pena de correr perigo de morte, passando por baixo de uma vedação metálica e trepando um monte de entulho ao lado da estação transformadora, obtinha-se uma vista da mesma casa, a franzir-nos o sobrolho de cima, com quatro grandes janelas de sacada no rés do chão, todas elas com cortinados grossos que deixavam ver apenas lascas de luz de cada lado, e uma quinta janela que poderia pertencer à cozinha» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., pp. 87-88). 
       No original, transformer station: em Portugal, posto de transformação (PT), designação técnica consagrada na regulamentação do sector eléctrico; não «estação transformadora». Um de muitos erros. E claro que são «nesgas de luz», não «lascas de luz».

[Texto 23 431]

Léxico: «helicase»

Porque o prometes


      «Helicase is an enzyme that unwinds the two strands of DNA so that the cell can copy the genetic information stored in them. DNA is normally a double helix, i.e. two long strands held together by bonds between bases on each strand, spiralling around each other. When a cell divides, it needs to make a copy of the DNA, which requires these strands to be separated» («Helicase: the DNA separator», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 19.08.2026, p. II). 
      Como vejo que a procuras, Porto Editora, aqui vai a ➠ helicase BIOQUÍMICA enzima que, geralmente com consumo de energia fornecida por um nucleósido trifosfato, promove o desenrolamento e a separação de cadeias de ácidos nucleicos, intervindo em diversos processos do metabolismo do ADN e do ARN.

[Texto 23 430]

Léxico: «comboio-hotel»

Nada de novo


      «Em vez de uma construção de raiz, o projeto prevê a recuperação de material ferroviário existente, que será transformado num comboio-hotel. Os passageiros deverão encontrar a bordo espaços destinados ao alojamento e uma componente gastronómica relacionada com as várias regiões portuguesas. A viagem não ficará, porém, limitada ao interior das carruagens: os percursos deverão incluir experiências nos destinos visitados» («Portugal vai ter um novo comboio-hotel de luxo. Investimento será de 20 milhões», Eduardo Oliveira, New in Town, 22.08.2026, 13h21). Bem, já vem de longe: «Este ano, como tem sucedido em anos anteriores, os S. A. R. em ligação com agências de turismo e de transportes, promoveu a vinda a Lourenço Marques de mais um comboio-hotel (assim lhe chamou a Imprensa)» (in Boletim da Direcção dos Serviços dos Portos, Caminhos de Ferro e Transportes de Moçambique, 1965, p. 16).
[Texto 23 429]

Definição: «gaivina-dos-pauis»

Criticamente em perigo


      «Os adultos em época de nidificação das gaivinas-dos-pauis têm o bico vermelho e o peito cinzento-escuro, distinguindo-se de forma mais evidente as faces claras — e daí ser também chamada de [sic] gaivina-de-faces-brancas. Já o tagaz ostenta, nas mesmas circunstâncias, um bico preto e o peito claro, sem distinção com as faces. Classificada, em Portugal, como Criticamente em Perigo, o III Atlas de Aves Nidificantes não consegue apresentar uma tendência credível sobre a sua presença no país, dada a sua imprevisibilidade e falta de acompanhamento específico» («A imprevisível gaivina-dos-pauis», Patrícia Carvalho, Público, 20.08.2026, p. 32). 
      É informação que nem sequer a consulta dos nossos dicionários nos fornece. Por isso, proponho gaivina-dos-pauis ORNITOLOGIA (Chlidonias hybrida) ave da família dos Larídeos, de plumagem predominantemente cinzenta, que, na época de reprodução, apresenta barrete preto, faces claras, peito cinzento-escuro e bico vermelho, frequenta sobretudo zonas húmidas com abundante vegetação aquática, onde nidifica em colónias sobre vegetação flutuante, estando a população reprodutora em Portugal classificada como criticamente em perigo; gaivina-de-faces-brancas.

[Texto 23 428]

Léxico: «lambdacista» Definição: «lambdacismo» | «paralambdacismo»

É muito mais do que isso


      «A essa altura ninguém se surpreende ao saber que uma odisseia tem esse nome por causa da “Odisseia”, que por sua vez tem esse nome por causa de Odisseu. Só que a origem do nome do herói é obscura. E já era obscura lá na Antiguidade Clássica. Até a forma variava. Além de Odysseus, aparecem versões como Olisseus, Otisseus e Oulixeus. Em tempos romanos, a forma preferida passou a ser Ulixes, que também vez por outra virava Ulysses. E, mais uma vez, ninguém sabe ao certo as razões. Existe na linguística um troço chamado lambdacismo, que é quando ocorre a troca de um som pelo “L”, que no alfabeto grego é lambda. Tente formar um “D” e um “L” na boca e veja como são próximos» («Por que Odisseu virou Ulisses», Caetano W. Galindo, Folha de S. Paulo, 20.08.2026, p. A38). 
      Sejamos claros: lambdacismo não é apenas o que a Porto Editora diz: «pronúncia viciosa caracterizada pelo emprego do l em vez do r». Lembro-me ainda de o meu professor de Latim falar nisto, e não era apresentado como «pronúncia viciosa» (que também é), mas como fenómeno linguístico, como na crónica acima. É muito mais do que isso. Assim, proponho lambdacismo nome masculino 1. LINGUÍSTICA fenómeno fonético que consiste na substituição de outro som por l, especialmente de r por l; 2. FONÉTICA vício ou perturbação da pronúncia que afecta a articulação do som l; 3. RETÓRICA emprego ou repetição excessiva do som l, designadamente como recurso estilístico. 
      Quanto à etimologia, vem do grego lambdakismós, «emprego do lambda em lugar de outra letra», pelo latim lambdacismu-, «emprego excessivo ou pronúncia defeituosa de l». 
      E também a definição de «paralambdacismo» tem de ser corrigida, pois não se trata de letra, mas som. Assim, proponho ➠ paralambdacismo nome masculino FONÉTICA vício ou perturbação da pronúncia caracterizado pela substituição do som l por outro som. 
      (Diga-se, já agora, que a frase de Galindo — «Tente formar um “D” e um “L” na boca e veja como são próximos» — tem um fundo verdadeiro, mas está formulada de maneira enganadora.)

[Texto 23 427]

Extras! Extras! Extras!

Para ninguém se esquecer


      «Entre as instituições politécnicas, destacam-se a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, com uma taxa de ocupação de 101,2% (o que significa que houve vagas extras criadas para resolver, por exemplo, situações de empate), seguida do Instituto Politécnico do Porto (agora Universidade Técnica do Porto) e do Instituto Politécnico de Lisboa com taxas de ocupação de 98,9% e 95,2%, respectivamente» («Número de colocados é o segundo maior da década», Andreia Sanches, Público, 22.08.2026, p. 15).

[Texto 23 426]

Como se traduz por aí

Pobres leitores, isso sim


      «Mais tarde ela contou-lhe que tinha vindo na carreta funerária com o cadáver da mãe, mas apenas até à porta da capela, em obediência às instruções de Deborah» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 182). 
      Mais conhecida no mundo moderno ocidental por... carrinha funerária ou carro funerário. Reaparece mais à frente, e já com o adjectivo desatrelado: meramente «carreta». Pesquisem então «undertakers’ van» no Google Imagens e depois digam-me o que aparece. Que raio de disparate... A única carreta que chegou aos nossos dias, em todo o universo lusófono, está no Brasil, onde é sinónimo de «camião»: «Ao menos 23 pessoas morreram na madrugada desta quarta-feira (19) em um acidente entre uma carreta e um micro-ônibus no km 209 da rodovia BR-373, em Ipiranga, a cerca de 171 quilômetros de Curitiba, no Paraná. [...] O caminhão tinha placas de Erechim, no Rio Grande do Sul, e seguia no sentido de Carambei para Prudentópolis» («Acidente entre micro-ônibus e carreta deixa 23 mortos no Paraná», Cristina Camargo, Francisco Lima Neto, Bruna Fantti e Catarina Scortecci, Folha de S. Paulo, 20.08.2026, p. A34).

[Texto 23 425]

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