Léxico: «microveículo»

Já por aí a vejo estropiada


      «Trinta microveículos 100% eléctricos da Fiat passaram a estar ao serviço do Vaticano, num acordo com o Governatorato que integra o plano ambiental Ecological Conversion 2030» («Fiat electrifica Vaticano e aposta nos microcarros urbanos», Público, 2.07.2026, p. 30).

[Texto 23 408]

Como se traduz por aí

Cerveja, não petróleo


      «Obras numa antiga cervejaria na Bélgica revelaram um tesouro em ouro avaliado em cerca de 8,7 milhões de euros. Estudante de 18 anos encontrou primeiro moedas e, pouco depois, barras e pepitas. Polícia investiga a origem da fortuna. [...] “Tenham em conta que se trata de uma obra vedada, com vários poços perigosos. Além disso, já estivemos no local e é garantido que tudo desapareceu. Portanto, não corram riscos irresponsáveis”, alertou o chefe da polícia local, Patrick Feys» («Bélgica. Obras em antiga cervejaria revelam ouro escondido numa parede», Rádio Renascença, 14.08.2026, 21h14). 
      Poços numa cervejeira? Aliás, para uma fábrica até devíamos optar por «cervejeira». Poços... Seriam os poços de onde se extrai a cerveja. Lê-se no comunicado da polícia: «Weet dat dit een bouwwerf is, omheind en met verschillende gevaarlijke putten. Bovendien zijn wij reeds gepasseerd en is alles met zekerheid weg… neem dus zeker geen onverantwoorde risico’s!» Isto é: «Saiba que este é um estaleiro de obras, vedado e com várias valas perigosas. Além disso, nós já lá passámos e, com certeza, já não resta nada… Por isso, não corra riscos desnecessários!»

[Texto 23 407]

Léxico: «siflante»

Devem pensar que é só francês


      «Não te vaes d’aqui, não te has-de ir d’aqui, murmurava-lhe ao ouvido. Todo o seu esforço era para apanhar-lhe a cara; tinha a respiração sifflante, e um tumulto de sangue turgecera-lhe as cordovêas do pescoço» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, p. 48). 
      O que é de morrer a rir é, em reedições modernas, aparecer «sifflante», com a grafia de então — e grafado em itálico. Mas também vejo aqui outros culpados, pois o termo não aparece nos nossos dicionários. Ora esta...

[Texto 23 406]

Definição: «runa»

Vamos olhar de novo para isto


      Acho que hoje é um belo dia para definirmos melhor o termo «runa», que no dicionário da Porto Editora (e noutros) padece de várias imprecisões. A primeira acepção é historicamente imprecisa ao referir «os mais antigos alfabetos germânicos e escandinavos», quando as runas são caracteres do alfabeto rúnico, usado para escrever diversas línguas germânicas. A segunda acepção, embora aceitável, ganha em rigor se definir runa como «sistema de escrita que utiliza esses caracteres», em vez de «escrita que usa esses caracteres». Assim, proponho ➠ runa 1. cada um dos caracteres do alfabeto rúnico, usado para escrever diversas línguas germânicas, sobretudo no Norte da Europa, antes da adopção generalizada do alfabeto latino; 2. sistema de escrita que utiliza esses caracteres.

[Texto 23 405]


⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: No século XX, o regime nazi apropriou-se de algumas runas como símbolos ideológicos. O caso mais conhecido é o das SS (Schutzstaffel), cujo emblema reproduz duas runas Sig estilizadas.


Definição e etimologia: «marisma»

Não é qualquer poça


      «Peces y bivalvos muertos, aguas estancadas, verdosas y malolientes; nutridas bandadas de mosquitos en cuanto se pone el sol y abandono de una de las zonas de baño más populares para las familias con niños pequeños. Esta es la situación actual de Baldaio, la marisma de Carballo que es un punto crítico de descanso e invernada en el noroeste ibérico para más de 200 especies de aves silvestres» («Baldaio se ahoga con su propia arena», Cristina Viu, La Voz de Galicia, 29.07.2026, p. 10). 
      Na primeira acepção de «marisma», vocábulo castelhano de que nos apropriámos, Porto Editora, dizes que é o «terreno alagadiço à beira-mar; sapal». Qualquer terreno? Conheço terrenos alagadiços à beira-mar que não são marismas. Logo, não. Eu defini-lo-ia antes assim  marisma 1. terreno costeiro baixo, lodoso e pouco drenado, periodicamente inundado pelas marés, onde se desenvolve vegetação adaptada a águas salgadas ou salobras; sapal. 
      Já quanto à segunda acepção, afirmas que é a «alga que cresce nesse terreno, utilizada na alimentação de animais». E isso o que significa, que é uma qualquer alga que cresce nesses terrenos, ou uma específica cuja identificação omites? Escavando, acha-se ➠ marisma 2. regionalismo algarvio designação de uma alga ou planta marinha que se recolhia para alimentação dos animais.
      Falar em alga ou planta marinha decorre apenas da precaução que, na falta de documentação mais rigorosa, se tem de ter. Tanto mais que as plantas dominantes das marismas são plantas vasculares halófitas, como as salicórnias e espécies de Spartina, e não algas. Mais: no castelhano das Canárias, marisma também designa uma planta chamada saladillo, identificada como Atriplex glauca, que também não é uma alga. 
      Quanto à etimologia, vem do castelhano marisma, «idem», provavelmente através do moçárabe, a partir do latim maritĭma [ora], «orla marítima».

[Texto 23 404]

Léxico: «livrete | saros»

As prostitutas, os criados...


      «Se retrucavam, era sempre a mesma ameaça que as ia fazer calar — a policia e o livrete» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, p. 115). 
      Sem uma acepção específica nos dicionários, quais são os leitores que saberão que raio de livrete era este? Assim, proponho livrete HISTÓRIA documento individual que, nos séculos XIX e XX, era emitido pela polícia às prostitutas oficialmente registadas e continha os seus dados pessoais e características físicas, bem como os resultados das inspecções sanitárias periódicas obrigatórias.

[Texto 23 403]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Também houve, e alguns dicionários dão conta disso, um documento individual semelhante para os criados; era igualmente o ➠ livrete HISTÓRIA documento individual de identificação e controlo policial, obrigatório para os criados de servir em algumas cidades portuguesas nos finais do século XIX e princípios do século XX, no qual se registavam os sucessivos empregos e as informações prestadas pelos patrões sobre o seu comportamento.

P. P. S.: No quiz do dia do Libération de hoje, em plena eclipsemania, eis uma das perguntas: «Comment s’appelle l’intervalle de 18 ans entre des configurations Terre-Lune-Soleil similaires, permettant de prédire les éclipses?» Pois, é ➠ saros ASTRONOMIA período de cerca de 18 anos, 11 dias e 8 horas (223 meses sinódicos), ao fim do qual se reproduzem aproximadamente as posições relativas do Sol, da Terra e da Lua, determinando a recorrência de eclipses solares e lunares de características semelhantes.
      Quanto à etimologia, vem do grego sáros, e este do acádio šāru, «3600»; designação aplicada ao ciclo de eclipses pelo astrónomo inglês Edmond Halley (1656-1742), que interpretou erradamente uma referência ao saros numa fonte bizantina.


Léxico: «lança-pontes»

Também os temos, pois claro


      «Por su parte, el lanzapuentes (plataforma táctica dual para logística militar y de emergencias) es un vehículo pesado provisto de una estructura desplegable capaz de tender pasarelas provisionales sobre ríos, grietas o infraestructuras colapsadas en cuestión de minutos. Aunque su concepción es estrictamente táctica, para permitir el avance de convoyes y tropas, su diseño es de uso dual» («Los vehículos que Indra hará en As Pontes», Carla Elías, La Voz de Galicia, 1.08.2026, p. 20). 
      Também os temos. Assim, proponho lança-pontes adjectivo de dois géneros e nome masculino MILITAR que ou veículo de engenharia que está equipado para transportar, colocar e, geralmente, recolher uma ponte móvel, permitindo a transposição rápida de cursos de água, fossos ou outros obstáculos por pessoas e veículos.

[Texto 23 402]

Léxico: «linha de Kármán»

Eu quero saber


      «As mais famosas foram o Fi103, “bomba voadora”, o primeiro míssil de cruzeiro da história, e o temível A4, mais conhecido por “V2”, que foi o primeiro foguetão a ultrapassar a Linha de Karman e a fotografar a Terra do espaço, em 1942» («A “banheira de Berlim” e as armas V, de Vingança», Álvaro Vieira, Público, 31.07.2026, p. 33). 
      É mais assim ➠ linha de Kármán AERONÁUTICA limite convencional entre a atmosfera terrestre e o espaço exterior, estabelecido a 100 quilómetros de altitude acima do nível médio do mar.

[Texto 23 401]

Arquivo do blogue