Léxico: «porreirismo»

Marca nacional


      «De acordo com a narrativa apresentada por Luís Neves, o então director financeiro da PJ estava a fiscalizar uma obra executada pelo empreiteiro de Barcelos que depois fez as obras na casa de Luís Neves, e recebeu um telefonema da Armada a dizer que o atrelado tinha de sair das instalações militares onde estava. Então, surgiu um milagre, que só pode ser explicado pelo porreirismo, pelo desenrascanço e pelo chico-espertismo portugueses: o empresário ofereceu-se para guardar o atrelado e os bidões na sua empresa pro bono, sem custos para o Estado» («A insensibilidade e a ingenuidade políticas de Luís Neves», São José Almeida, Público, 1.08.2026, p. 15).

[Texto 23 391]

Definição: «romanesco»

Variedade diatópica


      «Direte: ma se Benito Mussolini odiava il romanesco! Vero. Non solo il romanesco: tutti i dialetti» («La resistenza dei dialetti. A scuola», Gian Antonio Stella, Corriere della Sera, 1.08.2026, p. 40). 
      A Porto Editora define-o como «dialecto social do povo de Roma», ou seja, o social dialect de alguma linguística de tradição anglo-saxónica, mas nós sempre dissemos sociolecto. Não é um sociolecto: o seu critério identificador é territorial, Roma, portanto é uma variedade diatópica, não diastrática. Tanto assim é que o Houaiss até o identifica, talvez também com exagero, com o Trastevere. Hoje em dia, o romanesco e os seus traços atravessam diferentes grupos sociais, formando um contínuo com o italiano regional de Roma. 
      Tudo visto, proponho ➠ romanesco LINGUÍSTICA dialecto de Roma que, por influência do toscano, se tornou muito próximo do italiano comum. 
      A etimologia que vemos no dicionário da Porto Editora também é enganadora, porque dá a entender que o termo se formou na nossa língua. É antes do italiano romanesco, «idem», derivado de romano, «romano», + -esco.

[Texto 23 390]

Definição e etimologia: «oratória | oratório»

Convém é não misturar as duas


      «O meu principal tema de estudo é a história da música na corte portuguesa do século XVIII, com um enfoque específico nos géneros musicais sacros e dramáticos, como as oratórias. Estas obras eram apresentadas na corte, compostas por compositores da corte portuguesa e de outras partes da Europa, e tinham como objetivo entreter, mas também, de certa forma, edificar, contando histórias religiosas e refletindo a atmosfera religiosa da corte [afirma, em entrevista, Danielle M. Kuntz]» («“D. Maria l promoveu música onde se destacavam governantes femininas como Ester ou outras mulheres da Bíblia”», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 3.08.2026, p. 24). 
      Que a Porto Editora define assim: «LITERATURA, MÚSICA peça dramática, poema ou larga composição vocal e instrumental com coros e solistas, de assunto religioso, bíblico ou hagiográfico». Muito melhor está no Houaiss, mas que também não é exemplar. Uma solução deste, porém, devia logo à partida ser seguida pela Porto Editora: em «oratória» remeter simplesmente para «oratório». Neste verbete, uma das acepções diria mais ou menos isto ➠ oratório MÚSICA composição vocal e instrumental extensa, geralmente para solistas, coro e orquestra, que combina elementos dramáticos, narrativos e contemplativos, se baseia tradicionalmente num texto de assunto religioso e é, em regra, executada sem representação cénica; oratória. 
      Quanto à etimologia, deve ter-se em conta que «oratória» e «oratório» têm origens imediatas distintas nas acepções fundamentais. A primeira alteração é eliminar definitivamente o falso «idem» da Porto Editora e explicar a evolução sem atribuir ao latim um género musical que só surgiu muitos séculos depois. Ficaria assim ➠ do latim oratorĭa- [ars], «arte oratória»; na acepção musical, ver oratório. 
      Em «oratório», a etimologia é ➠ do latim oratorĭu-, «lugar destinado à oração»; na acepção musical, do italiano oratorio, designação proveniente dos exercícios musicais e devocionais realizados nos oratórios romanos a partir do século XVI.

[Texto 23 389]

Léxico: «cinta-liga»

Em que se fala de Betty Boop


      «Em dois anos, a jovem branca de olhos grandes ficou completamente humana. Enfiada num vestido preto, com cinta-liga e cabelo curto, era uma flapper, como chamavam a mulher sexualmente livre, que sabia se divertir: beber, fumar, dirigir carros, o que fosse. Com o furacão [do Código] Hays, Boop foi ficando mais recatada, perdendo o emprego de pin-up —e a graça» («Betty Boop e Cab Calloway inspiraram coquetel», Daniel de Mesquita Benevides, Folha de S. Paulo, 31.07.2026, p. C13). 
      Tem razão o jornalista: flapper era então o nome dado à jovem mulher que, pela indumentária e pelo comportamento ousado e independente, desafiava as convenções sociais da época. O Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, contudo, apresenta esta 7.ª acepção de flapper: «coloquial (anos 20) rapariga nova, rapariga adolescente, garota». A definição mistura dois sentidos historicamente distintos: o mais antigo e geral, de «rapariga adolescente», e o que a palavra adquiriu nos anos 20, como designação de um tipo social feminino caracterizado pela ruptura com as convenções. A Porto Editora pode acolher ambos — ou apenas o segundo, de longe o mais conhecido —, mas deve distingui-los e defini-los correctamente. O do artigo é este ➠ flapper HISTÓRIA jovem mulher da década de 1920 que, pela indumentária e pelo comportamento independente e ousado, desafiava as convenções sociais da época. 
      Mas voltemos, antes que se nos varra da memória, a ➠ cinta-liga Brasil VESTUÁRIO peça de roupa interior, constituída por uma faixa que se ajusta à cintura ou às ancas e da qual pendem tiras elásticas, geralmente reguláveis e terminadas em presilhas, destinadas a sustentar meias até à coxa; cinto de ligas.

[Texto 23 388]

Definição: «pasteurização»

Não tão simples


      «Secondo la normativa vigente (Reg. CE 853/2004), per “latte crudo” si intende un latte che non è stato riscaldato a più di 40 °C. E noto, tuttavia, che per inattivare i microrganismi patogeni vegetativi devono essere raggiunte temperature ben superiori, come quelle di pastorizzazione: 72 °C per 15 secondi oppure 63 °C per 30 minuti oppure una combinazione con effetto equivalente» («Che cos’è il latte crudo?», Valentina Santarpi, Corriere della Sera, 3.08.2026, p. 22). 
      Ora aí está: ou uma combinação de efeito equivalente. É o que falta na definição de «pasteurização» do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «processo de conservação dos alimentos em que estes são aquecidos a uma temperatura não superior a 100 °C e arrefecidos depois rapidamente, de forma a eliminar os germes patogénicos». Se alguém aquecesse um alimento a 99 °C durante um segundo, pela definição da Porto Editora isso continuaria, absurdamente, a caber no conceito de pasteurização. Na realidade, o critério dos 100 °C é inadequado como elemento definidor; «eliminar os germes patogénicos» é excessivamente absoluto; e falta o carácter tecnológico do processo. 
      Assim, proponho ➠ pasteurização processo de conservação de alimentos que consiste em submetê-los a um tratamento térmico controlado, normalmente inferior a 100 °C e definido por uma combinação específica de temperatura e tempo, seguido de arrefecimento rápido, a fim de destruir ou reduzir a níveis seguros os microrganismos patogénicos e retardar a deterioração do produto.

[Texto 23 387]

Léxico: «cacifro»

Mais uma resgatada do olvido


      «— Não vamos tão longe, sr. Maurício — emendou o minorista — O que se diz é que ele passava o Tâmega nas poldras, com a cana de pesca e o cacifro; depois, metia­-se na Ínsua, e a Josefa ia lá ter» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 21). 
      De «cacifro», a Porto Editora remete para «cacifo», e aqui só uma acepção atinente, não à pesca, mas à caça: «cesto de vime onde os caçadores levam o furão». Na obra de Camilo, contudo, é um aparelho de pesca, que encontramos também noutros autores do século XX. Vai sendo trabalho de pura arqueologia. Assim, proponho ➠ cacifro PESCA cesto de verga, geralmente de forma circular e levado a tiracolo, em que o pescador guarda o peixe capturado, podendo mantê-lo dentro de água para conservar as capturas vivas ou frescas.

[Texto 23 386]

Definição: «orgasmo»

Resposta neurofisiológica


      Na passada sexta-feira, foi Dia Mundial do Orgasmo. Podia ter sido também dia para melhorar a definição de «orgasmo», mas estamos sempre a tempo, até porque as definições que por aí vejo me deixam, não sei, desentusiasmado, desentesado, desiludido... Assim, consultados Masters e Johnson e o que a literatura médica actual diz, proponho ➠ orgasmo FISIOLOGIA resposta neurofisiológica correspondente à fase culminante da excitação sexual, caracterizada por intensa sensação de prazer e, geralmente, por contracções musculares involuntárias dos órgãos genitais e da região pélvica. 
     Quanto à etimologia, pode dizer-se muito mais, assim ➠ do grego orgasmós, «excitação; impulso; efervescência», derivado de orgáō, «inchar; estar excitado; arder de desejo», pelo francês orgasme, «orgasmo».

[Texto 23 385]

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P. S.: Não deixaria de dicionarizar este, tão encontradiço, orgasmo intelectual figurado sensação intensa de prazer, deleite ou êxtase, especialmente provocada por uma experiência estética ou intelectual.


Etimologia: «convescote»

Não caiu do céu


      «Bem me lembro, estão aqui anotadas no caderno vermelho: as palavras “alpendre” e “vitrola”, citadas entre as cinquenta de que nos fomos perdendo, reunidas num estudo do Observatório da Língua Portuguesa. Eu tinha ficado preso a uma outra, a palavra “convescote”, criada pelo latinista carioca António de Castro Lopes de quem acabo de encontrar, em Braga, um admirador e estudioso entusiasta, o actor e dramaturgo Manoel Candeias, doutorado em artes de cena pela universidade de Campinas» («A vitrola no alpendre», Fernando Alves, TSF,  24.06.2026, 8h53). 
      Não se dizer isto, que é absolutamente certo, está documentado, nos dicionários é que me deixa perplexo.

[Texto 23 384]

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